O construtivismo e a hora da mudança.

Por Sonia Barreira, direção geral.

Foi um prazer imenso encontrar tantos educadores queridos e importantes na palestra de Antoni Zabala na ocasião do lançamento do Grupo Critique:

Na plateia, familiares dos alunos, professores, educadores e diretores de escolas importantes ouviram atentamente o famoso educador catalão, que retomou para todos nós como as pesquisas científicas nos mostram como os alunos aprendem.

Evitando rótulos fáceis e etiquetas simplificadoras de conceitos complexos e com muito humor e simpatia, ele nos questionou sobre a organização da instituição escolar para responder a seus propósitos. Se antes a escola tinha essencialmente a função propedêutica e seletiva, hoje, a escola do século XXI deve se preparar para realmente oferecer uma formação integral para todos e todas e cumprir uma função orientadora e inclusiva.

Uma formação com essas características e propósitos deve se organizar em torno de competências complexas e não apenas em função de conteúdos conceituais específicos e sobrepostos das disciplinas e áreas de conhecimento. Para tanto, o professor Zabala retomou a importância do enfrentamento de problemas reais e complexos na escola não apenas como um complemento da experiência escolar, mas como essência curricular.

Muitos de nós, na plateia, trocamos olhares cúmplices, admitindo uns para os outros que já sabíamos de tudo isso, mas que ainda não conseguimos reestruturar o currículo escolar de modo coerente com essas ideias!

Propostas de investigação, projetos, simulações, resolução de problemas e estudos de caso existem e se multiplicam em nossas escolas. Mas não de modo estrutural. Não a ponto de oferecermos uma vivência escolar cujo eixo central siga essa lógica.

Ao final da palestra, ao encontrar uma ex-professora da Vila, hoje diretora de uma importante escola paulista, ela me olhou um tanto encabulada, outro tanto inconformada e me disse:

- Sonia, já ouvimos tudo isso há uns dez ou quinze anos, não?
- Sim, Marta, ouvimos tudo isso, mas não fizemos o que era para fazer, não é?
- Não, não fizemos! Vamos passar os próximos dez anos tentando?

Definitivamente não fizemos a revolução que sabíamos necessária. Mas plantamos boas e fortes sementes para que as mudanças possam acontecer progressivamente, sem rupturas bruscas que geram insegurança e resistência.

Agora, tratemos de arregaçar as mangas e mudar o que é preciso mudar nos nossos projetos. Não estamos tão longe assim do que queremos!

Otávio, Otávio, Otávio!

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Por Maria da Penha Brant, arte-educadora e mãe de duas alunas da Vila

É estranho que eu estivesse esperando um momento para escrever este texto para vocês e me sentasse aqui para fazê-lo logo após saber de uma tragédia (anunciada a meu ver), que foi o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

No final do ano passado, Sônia Barreira me solicitou a organização da pequena coleção que a Escola da Vila reuniu no transcorrer dos anos, decorrente de parcerias na própria comunidade escolar, de pais de alunos que estudam ou estudaram na Vila ou artistas que aqui trabalham ou trabalharam.

A ideia era que eu pudesse reunir todos os trabalhos, fotografasse e escrevesse um pequeno texto biográfico de cada artista. Dessa forma, poderíamos organizar uma exposição e apresentá-la a todos: alunos, pais, funcionários, profissionais da educação que frequentam o Centro de Formação e outros.

A Escola da Vila tem uma história construída em torno do trabalho encaminhado junto dos alunos, suas famílias e profissionais da educação, e para mim, ex-professora de Arte da escola, mãe de alunas, foi um privilégio também estar junto.

Rosa Iavelberg, Monique Deheinzelin, Yara Carmona foram mulheres fundamentais na reflexão do ensino e aprendizado da Arte, fomentando e fazendo com que cada um de nós, que foi se juntando ao redor delas, nos apaixonássemos e profissionalizássemos, como fizemos. Foi construída uma prática de trabalho em Arte que reverberaria até hoje nesse desejo trazido por Sônia, de reunir essa pequena coleção.

Além de fazer observações do trabalho, por meio de diários de classe ou reuniões de equipe, participar de orientação para o encaminhamento de propostas no ateliê ou fora dele, ter autonomia para criá-las, discutir teorias e apreciar obras, pensávamos nos fundamentos do trabalho, o que se tornaria primordial e fortaleceria a ideia de que era impossível uma escola sem Arte.

Entre esses fundamentos, destaco aqui aquele que faz com que a escola tenha acolhido e exposto esses trabalhos que vemos ao caminhar pelo espaço interno e externo das unidades.

Faz parte do trabalho a convivência com formas diversas de produção artística. Aquela que é realizada pelos alunos, pelos professores e pelos pais, mote para todos estarem perto da arte – a escola é também espaço para acolhê-la e mediá-la.

Otávio Roth é uma surpresa dentro desse conjunto de obras espalhadas pelo espaço da escola. Imagino que as exposições, de um modo geral, em museus e galerias, possam também se dar dessa forma, reunindo, à medida do possível, o que se tem de um artista. Foi o que fizemos aqui.

Com ajuda e muita gentileza da filha de Otávio Roth, ex-aluna da Escola da Vila, Isabel Roth, atual curadora do acervo do artista, conseguimos agrupar um conjunto de objetos que acabaram dando mais vigor ao pouco, mas o que foi possível, para apresentar o artista a todos da comunidade.

A exposição reúne três trabalhos que fazem parte de uma pequena coleção de arte da Escola da Vila. Os livros que a biblioteca dispõe, escritos por Ruth Rocha e ilustrados por Otávio Roth. O primeiro livro escrito no Brasil tratando de pesquisa sobre o papel. Uma pequena entrevista com Isabel Roth. Fotos cedidas pela família. A obra “A Árvore”, projeto que solicita a participação de crianças, fazendo crescer folhinhas desenhadas por elas, até que se complete 1 milhão delas e possam ser projetadas na parte externa do prédio da ONU. E, finalmente, as 30 reproduções do álbum de Direitos Humanos, realizadas em xilogravura também para a ONU, por Otávio Roth.

Em meio às notícias de descaso com a cultura, descobrir Otávio Roth e sua vontade imensa de produzir, pesquisar pelo mundo afora, fazer circular suas ideias e obras, e, ainda, ensinar, diz muito da vontade de ter a arte como parceira diária, imaginando mundos.

Falência só do Ensino Médio?

Escola da Vila

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Por Sonia Barreira, direção geral

É falsa a ideia de que os resultados fracos do Ensino Médio se devem apenas aos problemas desta etapa da escolaridade, e isso é evidente para quem atua em instituição escolar. Olhando os números da última avaliação da educação básica (SAEB) divulgados dia 30/8/2018, aparentemente o Fundamental melhorou e o Ensino Médio piorou.

Como é do conhecimento de qualquer educador, os programas escolares estão organizados por série, ou seja, a cada idade corresponde um dado programa curricular. Teoricamente há progressão nessas propostas, garantindo que os alunos tenham acesso a conteúdos mais complexos a cada ano que passa. No entanto, não há propriamente um uso das ciências de base que ajudem a definir o que cada etapa do desenvolvimento cognitivo pode elaborar e aprender.

Então como as escolas definem o que ensinar? Até recentemente, e ainda hoje, os conteúdos são distribuídos de acordo com o que aparecem nos livros didáticos. Mas como as editoras distribuem os conteúdos nos livros didáticos? O fizeram de acordo com a tradição escolar. E de onde vem essa tradição? Não se sabe. Os sistemas de ensino, nascidos mais tarde, também seguiram a lógica definida pelos livros didáticos, com algumas pequenas alterações. É claro que as escolas fizeram seus ajustes, mas são raros. Vale ressaltar que alguns livros didáticos se modernizaram depois dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998), mas não alteraram substancialmente a sequência dos conteúdos pelas séries escolares.

Hoje, há iniciativas conhecidas para sanar esse problema por meio da Base Nacional Comum Curricular. Aparentemente, isso seria um dos maiores empecilhos para se ter uma educação de qualidade no país. Associada a essas mudanças, prometem-se novos programas de formação de professores, novas maneiras de praticar as avaliações nacionais e mudanças nos vestibulares!

No entanto, ainda que tudo isso dê certo e funcione perfeitamente bem (difícil de acreditar) o fato de a Base estar também organizada por expectativas de aprendizagem por série (idade) faz com que um problema central permaneça inalterado.

Na prática, essas definições não estão diretamente vinculadas à capacidade dos alunos aprenderem, isto é, não seguem a “lógica da aprendizagem”. Essas definições foram realizadas tendo por critério a lógica dos conteúdos. Nem sempre essas duas lógicas estão sintonizadas. Há assim uma organização dos conteúdos que nem sempre facilita a aprendizagem, ao contrário, muitas vezes são responsáveis pelo surgimento de obstáculos cognitivos que impedem a compreensão dos aprendizes.

Por outro lado, os alunos, seres humanos singulares e distintos uns dos outros, vêm de experiências pessoais igualmente distintas e chegam à escola com maior ou menor capacidade de aprender certos conteúdos. Não é apenas porque o professor não sabe ensinar que o aluno não aprende, às vezes, lhe falta conhecimentos ou experiências anteriores que facilitariam seu processo.

Mas as escolas estão organizadas para o ensino padronizado. Se na quarta série ensinam-se frações, é nesse momento que o aluno precisa aprender. Se não aprende, o único mecanismo que a instituição escolar tem para lidar com essas defasagens é a reprovação. Refazer um ano e ter novamente contato com as noções que envolvem as frações não torna o aluno apto a aprender, porque ele novamente começa o mesmo processo, sem os conceitos ou experiências anteriores necessários.

Quando o aluno não é reprovado, segue para o ano seguinte para aprender um novo conteúdo, sem que ninguém mais vá dedicar-se a ensinar-lhe frações já que está na hora de aprender novo conteúdo. E, então, ele prossegue na vida escolar, às vezes reprovado, outras vezes não, mas sem saber um conteúdo que envolve conceitos determinantes para que possa compreender os novos conteúdos que vêm pela frente.

Quando chega ao Ensino Médio e vai para a avaliação nacional, fracassa não porque seu professor não sabia ensinar, mas porque o sistema pedagógico no qual está inserido prescreve aprendizagens específicas num dado tempo e momento e não prevê mecanismos eficientes para aqueles que não seguem a par e passo com os demais. Infelizmente não se trata da minoria, e por essa razão, ao avaliarmos nosso Ensino Médio, concluímos rapidamente que o problema está situado apenas nessa etapa.

Evidentemente não negamos que o Ensino Médio tem sérios problemas e necessita mudanças, assim como é preciso valorizar a profissão docente, aumentar os salários e garantir tempo para o trabalho coletivo. Mas, enquanto a instituição escolar não romper com a lógica do tempo igual para todos aprenderem o mesmo e se organizar para o atendimento à diversidade, continuaremos produzindo o fracasso da escola desde as séries iniciais!

O trânsito no cotidiano da Escola

Escola da Vila

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Reedição de texto de Vania Marincek de abril/2013

Quem passa na frente da escola no início da manhã, no horário de almoço ou no final da tarde, não imagina a quantidade de cuidados e de ações que são necessários para que os alunos entrem e saiam da escola em segurança. São muitos aspectos a serem considerados, desde a decisão por portões diferentes para quem entra e para quem sai, a fim de garantir o fluxo e a segurança dos alunos, até a organização do espaço da rua, para que as famílias possam buscar e deixar seus filhos com rapidez.

Todo início de ano, equacionamos um conjunto de variáveis, para obter um funcionamento ajustado e eficiente, revendo os procedimentos já estabelecidos e fazendo os ajustes que consideramos necessários para que o funcionamento nesses horários aconteça da melhor forma possível.

Sistematicamente, acionamos os órgãos responsáveis pelo gerenciamento do trânsito em nossa cidade, para solicitar a revisão do plano que melhor atenda à mobilidade nas regiões ao redor da escola e nem sempre o que consideramos bom para nossa comunidade pode ser viabilizado.

Sabemos que alguns aspectos dessa organização dependem de leis e regras de funcionamento de trânsito externos a nossas decisões. Assim, para o bom funcionamento da proposta de organização da escola é fundamental a participação responsável de toda a comunidade. Parar em filas duplas, estacionar em garagens e desconsiderar as solicitações dos funcionários da escola são exemplos de atitudes que comprometem o funcionamento da estrutura montada, gerando um verdadeiro caos nas ruas da escola e seus arredores.

Muito mais grave do que a desorganização gerada na rotina por aqueles que desconsideram as regras é o que se comunica aos nossos filhos e filhas com essas atitudes. As crianças, os adolescentes e os jovens se constituem por meio da observação e da reprodução dos modelos que presenciam. Dificilmente pensarão no coletivo, se seguirem presenciando cenas em que a vontade individual se sobrepõe ao bem-estar da comunidade. Essa é uma reflexão importante, que todos os que se ocupam de educar deveriam compartilhar. Nilton Bonder, em artigo na Folha de São Paulo, faz uma análise do papel de quem conduz um carro. “Quem conduz um automóvel é uma consciência”, diz ele.

O debate, a discussão e o diálogo sobre essas atitudes são sempre fomentados por nós, porque são importantes para que possamos ajudar todos a tomar consciência dessa situação. No entanto, é preciso lembrar que a escola, como instituição, tem seus limites de tempo e pessoas e deve priorizar, sempre, a educação de seus alunos, contando com a comunidade de responsáveis fazendo a sua parte.

Direito à infância e definições acerca do ingresso no Fundamental

Escola da Vila.

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Por Fernanda Flores, direção pedagógica

A maior parte das escolas organiza suas turmas a partir de uma cronologia etária, com séries organizadas pelo agrupamento de crianças que nasceram num mesmo ano. Para que isso seja feito com coerência pelo sistema de ensino, existe a definição de um marco organizador, denominado corte etário.

Contrário à definição federal, o Conselho Estadual de Educação de São Paulo definiu esse corte em 30 de junho. Assim, quem completa 6 anos até essa data deve estar matriculado no F1 e quem completa 6 anos depois compõe o grupo anterior, como “os mais velhos” da turma final da Educação Infantil.

Há doze anos, a definição de uma data para o corte etário de ingresso ao Fundamental gera inúmeras discussões nas mais distintas esferas e se sustentam desacordos entre a definição federal (que determina corte em 30 de março) e as estaduais (que variam de março a dezembro).

Esse cabo de guerra vem da ampliação, em 2006, do Fundamental para nove anos de escolaridade, o que implicou a transição das crianças aos 6 anos (de nosso Grupo 4 à época para o 1º ano), instaurando a necessidade de uma definição federal acerca da regra de ingresso à nova série.

Apesar dos esforços de muitas instituições para que essa transição não implicasse o fim da atenção ao desenvolvimento das capacidades de expressão em diversas linguagens próprias da etapa infantil, vimos com muita crítica o equívoco de tão precocemente colocar crianças pequenas mais tempo sentadas em lições sem fim, no mais das vezes mecânicas e padronizadas, com pouco ou nenhum tempo dedicado ao brincar, ao corpo e à arte, entre outras experiências essenciais que defendemos sustentar nas séries iniciais do Fundamental.

Por detrás dessas definições, está em jogo um tema imensamente importante, que é a duração que o país define para a infância por meio da permanência das crianças nas escolas de Educação Infantil.

Vemos famílias que querem adiantar ou adiar o ingresso de seus filhos e filhas no F1, vemos escolas com recomendações para que alunos permaneçam mais um ano na Educação Infantil, ou eventualmente sigam de forma antecipada para o 1º ano. Todos, cada um a seu modo, buscam definir em que momento parece ser mais adequado a uma criança singular ingressar numa nova fase de sua escolaridade.

Aqui na Vila, entendemos a importância da etapa inicial da escolaridade como insubstituível, experiência inicial de constituição do sujeito no coletivo que precisa de tempo, espaço, profissionais especializados e processos de transição muito bem articulados como parte da passagem para o 1º ano do Fundamental 1. Não vemos como uma criança que recém completou 5 anos tenha que ter seu processo acelerado, bem como sabemos e defendemos que há de se ter uma margem maior de atuação das escolas em relação às decisões de transição entre segmentos, ainda mais nessa etapa tão inicial da vida escolar.

Finalmente, na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu validar a deliberação do Conselho Nacional de Educação (CNE) ao manter a norma de que é necessário cumprir 6 anos até dia 31 de março para ingresso no Fundamental 1.

Decisão sumamente importante para a Educação em geral, perante a inúmeras pesquisas e estudos que demonstram os ganhos de aprendizagem, saúde e bem-estar geral de longo prazo quando as ações educacionais na primeira infância ocorrem em espaços especialmente desenvolvidos para tal, com profissionais que se formam para atuar em relação às demandas próprias do período de desenvolvimento infantil.

O que essa definição implica para a Escola da Vila?

Entendemos que o próximo passo deva ser uma nova rodada de discussões acerca dessa decisão pelos Conselhos Estaduais de Educação e contamos com a revisão da decisão em nosso estado.

De imediato, não há mudanças para quem já está matriculado no Fundamental. E também para quem ingressará no 1º ano em 2019, a deliberação vigente no estado de São Paulo está mantida.

Acompanharemos as discussões, defendendo que a decisão do CNE seja adotada pela rede pública e particular e que se defina um prazo para as escolas se adequarem sem que haja prejuízo para as crianças e suas famílias.

Para entender o que foi votado no STF sobre o corte etário para acesso ao Fundamental1. Breve histórico de 2006 a 2018: 

Escola da Vila

Havendo outras informações relevantes, compartilharemos com nossa comunidade. 


Matérias recentes:

Idade mínima para entrada no fundamental pressionará a pré-escola

Entenda o que muda com decisão sobre idade para pré-escola e fundamental

Sobre uma partida inesperada, ignorância e educação

Escola da Vila

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Por Gabriel Castanho Sanches de Oliveira, ex-aluno da Vila

Durante esta semana, recebi com enorme pesar uma triste notícia. Que me tocou profundamente. A perda de uma das mais queridas professoras com quem tive o privilégio de aprender sobre tantas coisas. Inez Cerullo deixará em mim muitas reflexões e aprendizados, além de saudade. Agradeço sempre por ter tido a oportunidade de, ainda em vida, ter feito a ela uma singela homenagem.

A matemática, matéria que lecionava minha querida e já saudosa Inez, sempre foi um campo difícil para mim. Extremamente difícil. Ao longo de anos, apesar da boa vontade e insistência de outros grandes professores que tive, as dificuldades se multiplicavam. Proporcionalmente, aumentava também meu desinteresse. Isso me custou algumas férias fazendo reforço, horas e horas de aulas particulares e, no final das contas, uma repetência.

Até que cheguei ao colegial simplesmente ignorando a matemática. Ignorava a ponto de ser para mim uma imensidão escura, que eu não fazia o mínimo esforço para enxergar. Havia me tornado um perfeito ignorante.

Foi então que conheci Inez. O começo não foi fácil, o bloqueio que eu havia desenvolvido em relação à matemática era robusto. Além disso, eu não era um aluno exemplar do ponto de vista comportamental. Mas, de maneira sutil e natural, fui percebendo por qual caminho aquela mulher forte e doce me direcionava cautelosamente.

Meus amigos da época do colegial são testemunhas de que em determinado momento, já no terceiro ano, eu realizava todas as provas bimestrais sentado ao lado da mesa dela, virado de frente para eles. Era incrível. Algo totalmente diferente do que eu já tinha visto ou vivido. Alguns até questionavam o motivo, inclusive eu.

O que ninguém sabia é que tínhamos um acordo velado. O combinado era de que eu seria o exemplo para os outros colegas. Sentar ao lado da professora nos momentos de avaliação não era um privilégio, muito pelo contrário, poderia ser inclusive motivo de vergonha. No entanto, a representação daquilo era de que ela estaria do meu lado para encarar o desafio, desde que eu estivesse do lado dela e disposto a encarar a dificuldade. Foi uma parceria. Se o aluno com maior dificuldade estava disposto a encarar o desafio, quem poderia não estar? Se aquele que poderia arruinar as aulas estava ao lado da professora, quem não estaria? Se o aluno com maior dificuldade iria passar de ano e se formar, quem não iria? E assim sucedeu.

No dia da cerimônia de entrega do diploma, uma cena da qual jamais me esquecerei. Outro grande e saudoso mestre, Pedro Ravelli, professor de história, estava com o canudo na mão para fazer a entrega enquanto eu subia ao palco. Fazia todo sentido e eu me sentiria honrado, dado meu fascínio pela matéria e o professor em questão… Eis que Inez, de maneira surpreendente e bem-humorada, tomou-lhe o canudo e disse que faria questão de entregá-lo a mim. Pronto. Eu voltava a enxergar o mundo da matemática outra vez.

Fica o questionamento: seria a matemática ciência exata ou humana? E o que representaria um professor/mestre/educador, senão aquele que joga a luz de sua sabedoria sobre o aluno/discípulo e o ensina a encontrar o caminho para a própria luz?

Como eu gostaria que cada jovem estudante no Brasil tivesse a oportunidade de aprender matemática com a Inez, ou história com o Pedro…

E então me peguei refletindo esta semana. Que o Brasil é um dos países que menos investem em educação no mundo é claro e cristalino. Que nosso país tem um grande déficit educacional também. E então ganha força o discurso da ignorância. Ora, é exatamente o mundo da matemática que eu não conseguia enxergar. A escuridão, mesmo para quem não consegue enxergar, está lá. Mas não é vista. Com a ignorância é a mesma coisa. Discursos medíocres, rasos, contraditórios, segregadores, oportunistas acabam por refletir essa escuridão. Refletem a tal ignorância. Refletem também a canalhice daqueles que reconhecem a escuridão e somam-se a ela.

Mas render-se a escuridão? Jamais.

Onde há escuridão, haverá luz.

E que minha querida professora siga seu caminho iluminado. Assim como meu querido professor.

Desse plano seremos iluminados por eles, e encontraremos o caminho para não seguir na escuridão.

Vila indica: Vamos ao teatro?

Escola da Vila

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Por Carolina Castro, mãe e ex-aluna da Vila

Há 7 anos me tornei mãe e passei a assistir a peças de teatro infantil, algo de que eu sempre tive certo preconceito.

Com o passar desses anos, que coincidiram com anos de crescimento em quantidade e qualidade das produções teatrais para crianças, ao menos em São Paulo, fui descobrindo o quanto as idas ao teatro com elas ainda bem pequenas foram estimulantes e enriquecedoras para todos nós.

Atualmente percebo que meus filhos são capazes de ficar atentos e em silêncio durante os espetáculos, sem dúvida, porque foram acostumados e ensinados na prática a curtir esse clima escuro e de mistério desde cedo.

Mary e os Monstros Marinhos é uma das peças infantis mais bonitas que vi nesses últimos anos.

Nela, as moças da Companhia Delas de Teatro nos contam a história de Mary Anning, uma paleontóloga inglesa que viveu no século 18 e achou o primeiro fóssil de ictiossauro ainda criança, aos 12 anos de idade.

Recomendo essa peça não só pela beleza da história de vida dessa mulher, que colocava já há tanto tempo questões muito importantes sobre a igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas também pela maneira encantadora com que a peça narra essa história: a iluminação e os objetos de cena são mágicos, o figurino de uma elegância sem igual e a atuação das atrizes é impecável.

No dia em que assisti à estreia pude também observar muitas crianças dispersas, falando alto, com dificuldade em lidar com o clima que só o teatro nos traz. Acredito que todas elas estejam preparadas para ouvir uma bela história bem contada, mas se houver algum conselho que minha experiência possa trazer a pais e mães é que levem seus filhos ao teatro desde cedo (quando a indicação etária da peça é livre) e permitam que, com o apoio de vocês nos momentos em que não entendam a história ou cansem das cenas menos apelativas sonora e visualmente, eles vivenciem essa experiência. Mesmo que vocês achem que eles ainda não estão preparados.

Vamos ao teatro?


Serviço:
Direção: Rhena de Faria
Dramaturgia: Cecília Magalhães, Julia Ianina, Thaís Medeiros e Rhena de Faria
Elenco: Cecília Magalhães, Julia Ianina e Thaís Medeiros
Produção geral: Companhia Delas de Teatro
Duração: 60 minutos
Local: SESC POMPÉIA
Quando: de 30/6 a 29/7, às 12h (devido aos jogos da Copa alguns horários poderão ser alterados)
Para mais informações, confira os horários no site do SESC. 

Vilalê – O clube de leitura da Escola da Vila

Escola da Vila

Por Luiza Moraes, professora de LPL do F2 e
Fernanda Passamai Perez, auxiliar da biblioteca da unidade Butantã

A literatura é coisa inesgotável, pela suficiente e simples razão que um só livro já o é. O livro não é uma entidade enclausurada: é uma relação, é o centro de inúmeras relações. Seja ela anterior ou posterior, uma literatura difere de outra, menos pelo texto do que pelo modo como ela é lida.
Roger Chartier¹

Desde 2012, quinzenalmente, durante uma hora, alunos de todas as séries do Fundamental 2 da Escola da Vila se reúnem para compartilhar os desafios e os prazeres da leitura literária nos encontros do Vilalê. Com seus livros em mãos, leem em voz alta, discutem impressões, aprofundam interpretações e entram em contato com a leitura literária tal como acontece em um verdadeiro clube de leitura. Por conseguinte, se deparam com o universo simbólico das narrativas, o qual ressignificam e com o qual dialogam e estabelecem relações de foro íntimo, coletivo, ancestral. Dessa maneira, além do sentimento de pertencimento de uma comunidade leitora, já existente na escola, os integrantes constituem também a identidade do grupo.

Escola da Vila

O grupo elege um título para ser lido e discutido durante determinado período e, com a mediação de Fernanda Perez, mediadora de leitura da biblioteca Tatiana Belinky, compartilham momentos preciosos de discussão literária. Nos últimos anos, se aventuraram por Jurassic Park, se emocionaram com Iqbal, desvendaram os mistérios de Agatha Christie com E não sobrou nenhum, entre outros. Agora, estão finalizando a incursão em A guerra dos mundos, de H.G. Wells, clássico da ficção científica.

Escola da Vila

Dessa forma, o Vilalê faz parte do projeto de educação literária da Escola da Vila, em que nos empenhamos em formar leitores de literatura que se sintam implicados na leitura e que possam colocar em jogo diferentes formas de fruição e compreensão dos textos com os quais têm contato. Afinal, como aponta Teresa Colomer em Andar entre livros: “(…), falar sobre livros com pessoas que nos rodeiam é o fator que mais se relaciona com a permanência de hábitos de leitura, (…) parece ser uma das dimensões mais efetivas nas atividades de estímulo à leitura”².

Escola da Vila

A seguir, o depoimento do aluno Lorenzo Almeida, do 8o ano, sobre a sua experiência no Vilalê:

“Eu acho interessante a ideia do clube do livro aqui na escola, porque eu não só ouço a minha opinião, o que eu entendo sobre o livro, mas eu também ouço o que outras pessoas interpretam. Daí eu posso formar a minha opinião a partir de várias ideias de várias pessoas. Na leitura de “A guerra dos mundos”, achei legal o jeito como os personagens agem. Eu gostei desse narrador personagem, porque ele conta como viu as cenas, então quando ele está com medo, ele vê a cena por um outro ângulo, vê tudo mais depressa, ele fica mais confuso. A dinâmica do grupo é muito boa, porque sempre quando eu acabo um pouco perdido, a gente pode discutir sobre o que acabou de acontecer e falar sobre o livro”.

Escola da Vila

O Vilalê acontece com os alunos do Ensino Fundamental 2, às sextas-feiras, no período da tarde.


¹CHARTIER, Roger. Escutar os mortos com os olhos. Revista Humanidades. Estudos avançados 24 (69), 2010. (p.23).

²COLOMER, Teresa. Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo, Global, 2007.

Ver, viver e ler a cidade, caminho para a cidadania

Escola da Vila
Na escadaria da Sé, de olhos fechados, alunos refletem sobre o que centro diz sobre nós

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Por Tiago Pinto Ferreira, professor de Ciências Humanas do F2

Dia 1º de maio de 2018, São Paulo acordou mais cedo. Era Dia do Trabalho, um dia de luta. Às 2h da manhã, um edifício de 24 andares veio abaixo, no centro da cidade; a luta, virou luto. A imagem do prédio desabando se espalhou rapidamente pelas televisões e pelas redes e ganhou contornos ainda mais dramáticos, por registrar o exato momento em que um morador, prestes a ser socorrido pelo Corpo de Bombeiros, foi engolido pelas chamas e escombros. Ricardo, mais conhecido como Tatuagem, tinha 30 anos, trabalhava como carregador, gostava de plantas, era skatista e foi a primeira vítima fatal da tragédia.

O edifício Wilton Paes de Almeida já havia abrigado a sede da Polícia Federal e desde 2002 pertencia à União. Por estar abandonado, em uma cidade com um déficit habitacional de cerca de 358 mil moradias[1], foi ocupado por um dos vários movimentos sem-teto da cidade e passou a abrigar cerca de 50 famílias de trabalhadores. Somente no centro de São Paulo são 70 prédios ocupados[2] e, na cidade, cerca de 708 edifícios[3] já foram notificados por não estarem cumprindo sua função social, ou seja, não são utilizados para moradia, atividades econômicas, sociais ou culturais, como determina a Constituição Federal.

Escola da Vila
Aluno do 8º ano, observando o prédio Wilton Paes de Menezes, dias antes da tragédia

A despeito das dúvidas que envolvem o caso, como a idoneidade dos coordenadores do movimento dessa ocupação e as diferenças entre as estratégias e os valores, que orientam os inúmeros grupos que lutam pelo direito à moradia em São Paulo, a tragédia, como faísca, reacendeu um importante debate em nossa sociedade: por que existem tantos imóveis vazios em uma cidade em que tantos não têm onde morar?

Escola da Vila
No transporte público

Dia 6 de abril, um grupo de alunos do Ensino Fundamental II da Escola Vila foi para o centro de São Paulo, com o objetivo de descobrir o que essa região da cidade revela sobre nossa realidade social. Para responder a essa questão, percorremos um roteiro que se iniciou na Praça da República e se encerrou na Sé. Os alunos, divididos em grupos, observaram principalmente os tipos sociais, os prédios, suas funções e arquitetura, os diferentes usos do espaço público, a arte de rua e registraram suas observações em diferentes formatos, como fotos, desenhos e versos. No trajeto, a primeira parada se deu no Largo do Paissandu para observarmos um prédio todo de vidro, que chamava a atenção por estar pichado de cima a baixo e por se tratar de uma das maiores ocupações do movimento sem-teto no centro. “Tem pessoas morando aí?” Em seguida, cruzamos a famosa Galeria do Rock, berço de diversos movimentos culturais, como o punk, o hip-hop, dentre outros. Saindo da galeria, caminhamos em direção ao Theatro Municipal, edifício inspirado na Ópera de Paris e palco principal da Semana de Arte Moderna de 22. No outro lado da rua, um shopping ocupa o antigo prédio da Light, empresa que teve papel central no planejamento urbano de São Paulo.  No Viaduto do Chá, paramos para ouvir a cidade: o som dos carros quase lembra o som do rio… Em frente à Praça do Patriarca, “Praça do Patriarca?”, os alunos avistaram a sede da prefeitura. Na entrada, o brasão da cidade: Non Ducor Duco (Não sou conduzido, conduzo), e em todo o seu entorno, grades e polícia. “Por quê?”

Escola da Vila
Theatro Municipal

No muro da Igreja de São Francisco que, junto com o Mosteiro de São Bento e Catedral da Sé, compõe o famoso Triângulo Histórico, marco do princípio da urbanização da cidade, lia-se “Menos cadeia e mais escola”. Próxima estação: Sé. Onde tudo começou, onde tudo termina. “Por que estas pessoas estão aqui?” ou, parafraseando Adoniran Barbosa, “e essa gente aí, como é que faz?”.

Aprender na cidade

Na Carta das Cidades Educadoras, elaborada no 1º Congresso Internacional das Cidades Educadoras (1990), reuniram-se “os princípios essenciais ao impulso educador da cidade”. Nos primeiros parágrafos de seu preâmbulo é possível identificar e compreender o papel que a cidade tem ou pode ter no processo de formação de seus cidadãos:

(…) a cidade oferece importantes elementos para uma formação integral: é um sistema complexo e ao mesmo tempo um agente educativo permanente, plural e poliédrico (…) A cidade educadora tem personalidade própria, integrada no país onde se situa é, por consequência, interdependente do território do qual faz parte. (…) O seu objetivo permanente será o de aprender, trocar, partilhar e, por consequência, enriquecer a vida dos seus habitantes.

Para compreender o “avesso do avesso”, é fundamental ler a cidade. Nesse sentido, é essencial criar novas metodologias e propostas didáticas que possibilitem aos alunos acessar espaços, histórias e realidades que muitas vezes não se encontram nos limites da escola.

Em 2018, o Vila Ativa tem como um dos seus principais objetivos ampliar a relação da escola com a cidade, a partir de atividades que possibilitem a compreensão dos diversos alfabetismos urbanos. Entender a cidade como discurso, e compreendê-lo, permite desconstruí-lo, por meio da criação de caminhos de aprendizagem que o confrontem. Por essa razão, o centro, espaço de convergência, de tempos, rios, pessoas e contradições, é lugar privilegiado para uma leitura crítica de São Paulo e do Brasil contemporâneo. Certamente as imagens captadas pelos alunos ganharam outro sentido e dimensão. O prédio que estava lá não está mais, as pessoas que estavam lá não estão mais. De onde vieram? Para onde vão? Qual o papel do Estado nessa tragédia? E o nosso?

Escola da Vila

Ver, viver e ler a cidade é, portanto, um objetivo a ser perseguido pela Escola. Trata-se de uma estratégia que certamente enriquece o processo de construção do conhecimento, e que pode contribuir, de maneira decisiva, para a formação de cidadãos atuantes, sensíveis às desigualdades de toda ordem e, por consequência, comprometidos em participar da criação de realidades outras, mais justas, mais humanas.


[1] Fonte: Secretaria Municipal de Habitação.

[2] Fonte: Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento.

[3] Fonte: Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento.

Para além do trabalho em sala…

Escola da Vila

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Por Gislaine Carvalho Rasi e Raphael Dias de Castro,
professores de Matemática do F2

O espaço da Oficina de Matemática foi criado com o intuito de oferecer mais uma oportunidade de estudo e atender algumas dificuldades apresentadas pelos alunos do Fundamental 2 na área. É voltado àqueles que demonstram recusa ou demora em iniciar as propostas, não mobilizando, de imediato, os conhecimentos anteriores; aos que desistem rapidamente da resolução de uma situação; aos que solicitam em excesso a ajuda do professor para confirmar o acerto; e também para aqueles que têm dificuldades de perceber os erros que cometem.

Escola da Vila

Nas aulas, os alunos vivenciam práticas do fazer matemático, explorando e investigando diferentes situações, participando ativamente e ocupando lugares de quem vai apresentar ou explicar algo para o outro. Resolvem desafios, aplicam a matemática em situações cotidianas, discutem estratégias e resoluções, elaboram sínteses para retomar os conteúdos sobre os que ainda têm dúvidas e conhecem recursos tecnológicos interessantes utilizados na disciplina. No trabalho em grupos, são instigados a comunicar aos colegas o que pensam, visando restaurar o poder linguístico.

Além disso, os alunos da oficina lidam com diferentes práticas de estudo, e situações de autoavaliação, propiciando elementos para sua autorregulação e elaboração de um projeto pessoal.

Escola da Vila

No primeiro trimestre de 2018, os alunos investigaram os conceitos de área e perímetro. Primeiramente, tiveram o desafio de estimar as medidas de uma sala de aula utilizando-se de diferentes estratégias, que foram desde a contagem de azulejos no piso até mesmo ao uso de seus pés e palmos como parâmetro. Na aula seguinte, puderam utilizar instrumentos de medida apropriados, como a trena. Por estarem organizados em grupos com membros de diferentes anos, cada um pôde contribuir com seus próprios conhecimentos que fossem úteis para a resolução da tarefa, sendo necessária a cooperação de todos. Além disso, o registro do raciocínio utilizado pelos alunos foi outro aspecto importante do trabalho, pois ao final da atividade cada grupo expôs para os colegas suas estratégias de estimativa e medição, além de analisarem os motivos para as diferenças encontradas e quais métodos foram mais precisos.

Curso: Oficina de Matemática
Quartas-feiras -14h00 às 15h20
Unidade Butantã
Inscrições: Secretaria