Enfoque metodológico construtivista: aspecto essencial da nossa cultura

Escola da Vila

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Por Susane Lancman, coordenadora do Ensino Médio

De forma gradual, sem muita explicação teórica, nossos alunos vão se apropriando da cultura da Escola da Vila. Assim, vocabulário, valores, ações, metodologias vão sendo aprendidos de forma natural. Alunos novos passam rapidamente a usar a palavra parque como sinônimo de recreio, SMA como recuperação. O pedido de um professor para avaliar a postura de estudante é compreendido como um rol de atitudes esperadas por parte do aluno dentro da sala de aula que necessitam de reflexão constante para possíveis ajustes. Levantamento de conhecimento prévio é percebido como parte do processo de aprendizagem.

Aqueles que participam há muitos anos da cultura da Vila nem sempre se dão conta de que suas características estão emaranhadas no nosso a dia a dia. Muitas vezes é o aluno “estrangeiro” que traz em seus relatos a estranheza com a nossa cultura.

“Como o professor de Ciências Naturais quer que eu explique como acontece o dia e a noite no primeiro dia de aula se ele ainda não explicou a matéria?!”, perguntava um aluno novo do 6º ano em meio às lágrimas ao se deparar com a questão norteadora de uma sequência didática.

“Se eu sentar em dupla vai ter cola nas atividades!”, exclamava outro aluno novo do 8º ano como se estivesse explicando o óbvio.

“Eu não entendo para que reescrever tantas vezes o mesmo texto, assim eu nunca fico livre da atividade”, dizia outro aluno.

Cada instituição cria, de forma consciente ou não, sua cultura, e seus participantes vão aprendendo e se identificando com o modo operante. Alguns se dão conta da cultura e se apropriam a cada dia, e para outros esse processo passa despercebido, principalmente para aqueles que estão na Vila há muito tempo e imaginam que aspetos da nossa cultura são inerentes a todas as instituições escolares.

A conscientização e a clareza dos aspectos que compõem a cultura institucional dependem da idade do aluno, da experiência e do conhecimento que tem do projeto pedagógico da escola para que se entenda que a troca da palavra recuperação para SMA não é um detalhe, sentar em dupla não é uma alegoria, criar questões norteadoras é de extrema relevância para a realização de sequências didáticas, ter sucessivas etapas de revisão textual é parte essencial do processo de construção da escrita. Mas, vale dizer que a identidade cultural não é um conjunto de valores fixos e imutáveis, sofre mudanças pelas novas pesquisas pedagógicas e educacionais, pelas novas experiências e conhecimento da equipe de trabalho e pelo grupo de alunos que traz inovações de comportamentos e pensamentos.

Na medida em que essa cultura institucional é incorporada é comum que alguns alunos passem a cobrar que todos, alunos e professores, sigam o modelo vigente. Assim, todos os anos ouvimos na coordenação e orientação dos diferentes segmentos alunos que se mostram indignados por atitudes e procedimento de alunos e professores que não seguem os “padrões”:

“Alguém precisa explicar urgente para fulano que aqui é importante compartilhar ideias!”

“O professor ciclano não socializa as hipóteses dos alunos. Você não acha que ele é de outra caixinha?”

Muitas vezes percebemos que estamos formando pequenos pedagogos que rezam em nossa cartilha. Eles entendem que em nosso enfoque metodológico é preciso que o professor construa situações didáticas em que o aluno chegue a reconstruir o saber socialmente constituído mediante aproximações sucessivas. Para tanto é necessário partir de uma situação-problema, criar formas dos alunos explicitarem seus conhecimentos prévios certos e errados, propor formas de socializarem as hipóteses dos alunos em dupla, em quartetos e no grupão, discutir as hipóteses comparando-as com o saber científico, reformular as hipóteses iniciais, enfim levar em conta oficialmente a construção do saber por parte dos alunos.

A construção de conhecimento pode parecer simples para os que não estão implicados diretamente no processo de ensino, mas há complexidade em todas as etapas. São muitos os desafios: criar a questão norteadora em que os alunos tenham conhecimentos prévios suficientes e ao mesmo tempo lacunas a investigar, organizar as duplas e quartetos com critérios consistentes que levem a avanços na aprendizagem, organizar a socialização das hipóteses, escolher o material e a forma de apresentar o saber socialmente construído, propor atividades que possibilitem aos alunos retomarem suas hipóteses iniciais. E é preciso considerar que a maioria dos professores estudou em escolas em que imperava o modelo de ensino normativo, portanto precisam se formar em outra concepção de ensino e aprendizagem. Esse modelo está centrado no conteúdo, em que a ação do professor é transmitir conceitos, apresentá-los, dar exemplos sobre o que está ensinando, enquanto a função do aluno é, basicamente, escutar as explicações do professor, estar atento e, em seguida, exercitar, aplicar àquilo que aprendeu. A concepção do saber vigente nesse modelo é a de um saber que está pronto e o professor faz a intermediação entre esse saber já elaborado e acabado para os alunos.

Se por um lado os alunos se apropriam da cultura da Escola de forma gradual e natural, por outro lado a modificação da concepção de ensino e aprendizagem de uma lógica centrada no conteúdo para a da construção de conhecimento exige um trabalho contínuo de formação da equipe pedagógica para que todos os profissionais sejam da mesma “caixinha”. Só assim é possível construir um projeto pedagógico consistente e sério em que há unidade em relação à cultura pedagógica.

Vila Literária: um evento, muitos autores!

Escola da Vila

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Por Vicente Domingues Régis

No sábado dia 21 de outubro tivemos a IV Vila Literária, evento que reuniu crianças, suas famílias, professores, funcionários e demais convidados, ao redor de livros, trocas, leituras, oficinas, exposições e apresentações.

Muito do que se viu é fruto dos valores da escola em ação. A autonomia, a cooperação e o conhecimento são o tecido que sustenta as aprendizagens e as experiências que têm parte de seu ápice no próprio evento, mas não somente, pois foram inúmeras as situações que o antecederam e que seguem permeando o cotidiano das salas de Educação Infantil e Fundamental 1 no fomento da formação leitora de nossos jovens.

Um dos aspectos centrais que queremos aqui destacar é o valor da autoria e do protagonismo. O evento é costurado a muitas mãos desde sua concepção, envolvendo equipes de professores que engajam alunos e alunas na criação e transformação daquilo que já fazem na escola em espaços expositivos, propositivos de experiências de fruição com a Literatura e a Arte.

Esses valores são percebidos nas muitas ações e exposições que tomam os espaços das unidades e do evento, em especial, traduzindo a essência do que entendemos por ter o aluno ao centro dos processos de ensino e aprendizagem.

Essa autoria se transforma no protagonismo juvenil que movimenta os grupos de teatro dos alunos de Fundamental 2, Ensino Médio e o Núcleo de Produção Cultural, que deram ainda mais vida aos textos escritos pelos alunos de 2o, 3o, 4o e 5o ano, na cerimônia de premiação do concurso literário. Protagonismo este que também se pode notar quando os mesmos alunos se transformaram em personagens de Alice no País das Maravilhas e circularam pela escola anunciando para o público as atividades propostas.

É essa mesma autoria que enxergamos em nossos professores e professoras, preparando uma série de oficinas para receber nossa comunidade, incluindo contação de histórias, criação de personagens, teatro de sombras e tantas outras que tinham como foco a relação da literatura com as demais linguagens artísticas.

Esses valores também mobilizaram a formação de um grupo de música de câmara formado integralmente por pais da escola, que nos brindou com uma maravilhosa apresentação no auditório. Apresentação que contou com um belíssimo programa composto por obras de compositores como Heitor Villa-Lobos, Edmundo Villani-Côrtes, Chico Buarque e Alexandre Guerra, sendo este último pai de dois alunos da escola. Não poderíamos deixar de agradecer aEliane Tokeshi (violinista), Emerson De Biaggi (violista), Vana Bock, (violoncelista) e Alexandre Zamith (pianista) pela tarde que combinou sensibilidade e virtuosismo, aproximando a música erudita do imaginário infantil.

O valor de formação de propostas como essa é enorme, e aproveitamos para compartilhar o álbum de fotos do evento, com registros das diferentes atividades realizadas e, mais do que isso, da participação encantada de nossa comunidade!

Para finalizar, agradecemos a participação e o envolvimento de todos, em especial daqueles que contribuíram com seu trabalho e dedicação para que a IV Vila Literária ficasse, mais uma vez, marcada na memória das crianças e suas famílias.

O que é de todos e o que é de alguns

Escola da Vila

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Por Ricardo Buzzo, professor de Ciências Humanas do F2

No final do mês de setembro, o Supremo Tribunal Federal julgou uma ação que solicitava a explicitação de que as escolas públicas não poderiam oferecer disciplinas de ensino religioso de caráter confessional. O pedido, feito pela Procuradoria-Geral da República, precisa ser olhado com calma. O que o motivou, o fato de ter sido feito e, por fim, a decisão tomada pelo tribunal dizem muito a respeito da disputa por uma concepção de Estado, Democracia e República que não é recente na história do nosso país.

O que levou a procuradoria a iniciar a ação foi um acordo entre o Estado brasileiro e o Vaticano, que previa colaboração mútua para implementar o ensino católico, entre outras confissões, nas escolas públicas. A discussão proposta vai muito além do catolicismo. A decisão majoritária entendeu que, uma vez que a oferta dessa disciplina será facultativa, não fere o princípio do Estado laico, um dos ditames constitucionais.

A questão aí é até que ponto Estado e religião se misturam. A religião – no caso uma única religião – foi fundamental para a criação dos Estados, no início da Era Moderna. Boa parte do suporte ideológico fornecido aos primeiros reis vinha da igreja, e a teoria de que o poder real era de origem divina era bastante disseminada. Nesse contexto, aquele que não professava a religião dominante era um pária e seria perseguido tanto pela população intolerante quando pelo aparato estatal.

Com o advento do movimento filosófico que propunha a igualdade entre os indivíduos e um Estado voltado para os interesses comuns, essa ligação umbilical entre Estado e religião passou a ser questionada, radicalmente por alguns, suavemente por outros, mas entrou na ordem do dia, e as novas organizações estatais que surgiram no século XIX e XX tinham como princípio que sua legitimidade vinha da população que governava e não de qualquer outro lugar ou qualidade do governante.

No Brasil, o tema é particularmente sensível. Os reis ibéricos tinham tal ligação com a igreja católica que eram responsáveis pelo seu financiamento em seus territórios, e também eram considerados líderes religiosos: os clérigos de seus territórios deveriam responder a eles. No Brasil, durante o Império, essa instituição se manteve. Foi excluída apenas com a proclamação da República. Faz pouco mais de um século, portanto, que nosso Estado se separou efetivamente da religião, não sem deixar marcas. A constituição vigente, noventa e nove anos após a proclamação da República, foi promulgada diante de um crucifixo que permanece no Congresso Nacional e cita Deus em seu preâmbulo. Isso não quer dizer que, então, devemos nos curvar à presença da religião no aparelho estatal. Pelo contrário, essa é uma disputa ainda viva.

Ao Estado cabe gerir o bem público. Democrático, cabe a ele especialmente defender os direitos das minorias diante de uma maioria que busque lhe impor uma conduta que viole sua liberdade individual. No âmbito religioso, o máximo que o Estado interessado em garantir as liberdades individuais pode fazer é coibir a discriminação religiosa. Para além disso, a religião pertence ao foro íntimo. Se ocupa o espaço e principalmente o poder público, sua estrutura proselitista tende perigosamente à intolerância e violência, como já vimos durante a Idade Média e Moderna europeias, ou nos regimes religiosos do Oriente Médio, em comunidades coloniais norte-americanas, entre inúmeras outras.

Dito isto, se uma instituição religiosa decide, por exemplo, constituir uma escola e nessa escola decide oferecer aulas confessionais, tendo toda a sua comunidade de pais voluntariamente matriculado seus filhos nesta instituição, temos aí a ação de agentes privados, usando dos meios de que dispõem para reproduzir sua fé. Se uma instituição estuda e ensina a seus alunos a história das doutrinas religiosas, a organização dos diversos pensamentos teológicos de diferentes religiões atreladas a diferentes filosofias, certamente estará contribuindo para uma sociedade aberta e plural.

Outra situação, muito diferente, é uma instituição sustentada por recursos públicos ocupar o papel de quem propaga alguma fé, mesmo que a fé predominante na comunidade em que se insira. Ao Estado, na verdade a qualquer instituição de ensino republicana, cabe fomentar a tolerância, a compreensão de que o outro, mesmo minoritário ou distante, é um cidadão igual a todos, a despeito da crença, raça, classe social. Se, ao contrário, dedica espaço, tempo, recursos para que uma doutrina específica se dissemine, caminha mais para a direção de afirmar que aquilo que não está sendo ensinado não é válido. Mais do que isso, nesse caminho que visa tratar a confissão religiosa como pertencente ao âmbito privado, de forma distinta e separada do Estado, vivemos um pequeno retrocesso, uma pitada de padroado em pleno século XXI.

Num contexto em que discursos xenofóbicos ganham espaço, manifestações de ódio perdem a vergonha de existir, mais do que valorizar a sua própria religião, caberia ao estado garantir que o aluno valorize a religião do outro, apontando para a construção de uma comunidade política em que todos se reconheçam e se legitimem em seus pensamentos e crenças. Se, ao contrário, o bem comum serve a um grupo, perdem aqueles que defendem o Estado como comunidade política de iguais.

Sentidos e Sensações. Assim, como deve ser.

Escola da Vila
As fotos do evento estão no Flickr da Vila.

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Por Cecilia Galoro, mãe de alunos da unidade Granja Viana

Dar a mão para o outro na roda, misturar, deixar espontâneo. Partilhar o sabor das frutas, ter na seleção de músicas um chorinho para ouvir de manhã, posar com sorriso para a foto, criar e se expressar por meio da dança. Tão boa a educação assim, leve, solta, de verdade…

No último sábado, a Escola da Vila – unidade Granja Viana – partilhou com a comunidade um evento lindo. “Sentidos e Sensações”, uma manhã de experiências para vivenciar esses prazeres. Pais e filhos, famílias, amigos, trocando um bom-dia, dividindo emoções simples que despertam quando damos aquele empurrãozinho diferente na nossa vida cheia de atribulações e rotina.

Oficinas de culinária, fotografia, pintura e dança embalaram momentos e fizeram a gente se lembrar de que todos nós carregamos o entusiasmo, natural da criança que se deixa levar pelas sensações. E aí fica gostoso sentar no chão, experimentar o doce e o azedo da mandala de frutas, aprender a registrar e guardar imagens e fotos nos monóculos, requebrar no frevo e girar na ciranda.

Deixar tudo correr sozinho, só permitindo que as sensações se expressem.

Essa lembrança é mais um aprendizado que tiramos da espontaneidade dos pequenos. O entusiasmo salta da cama com eles e por ali vai ficando junto dos cinco sentidos que, sabiamente, permitem explorar durante todo o tempo. Tudo é visto mesmo, eles nunca passam apenas os olhos. Tudo tem sabor. Tudo se ouve e se registra. Tudo se mexe, se sente. Tudo faz sentido.

Promover essas oportunidades e esses momentos de troca entre adultos, jovens e crianças ajuda a gente a retomar o fôlego e construir dias melhores e pessoas mais felizes. Ajuda a não esquecer como é bom participar das escolhas dos nossos filhos e dar um tempo para fluir a simplicidade que a vida tem.

Juntos e livres.

Valeu, Escola da Vila. Foi uma manhã incrível.

A oralidade posta em prática: participação de alunos do 8º ano no 3º ICLOC Jovem

Por Juliana Giannini, professora de LPL do F2 

Aconteceu, no dia 7 de outubro, a terceira edição do ICLOC Jovem, congresso organizado pelo Instituto Singularidades que tem como objetivo a divulgação de trabalhos e projetos realizados por alunos do Ensino Fundamental 2, Ensino Médio e graduação. A proposta, segundo o instituto, é valorizar produções que tiveram impacto nos âmbitos da ética, da política e da educação, tanto dentro como fora de sala de aula. 

Escola da Vila
Os alunos Davi Manzini, Tiago Soriano, Maria Fernanda Almeida e Gabriela Fernandes apresentam o trabalho “O desastre da publicidade brasileira: o sexismo nas peças publicitárias

Dentre os diversos grupos, das mais variadas instituições de ensino de São Paulo e de outras cidades do Brasil, dois grupos de alunos do 8º ano da Escola da Vila se apresentaram no ICLOC. O primeiro grupo, formado pelos alunos Davi Manzini, Gabriela Fernandes, Maria Fernanda Almeida e Tiago Soriano, apresentou o trabalho “O desastre da publicidade brasileira: o sexismo nas peças publicitárias”, que foi produzido no primeiro trimestre deste ano, nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura, como resultado do Projeto Publicidade. Em uma mesa cujo tema central era a reflexão sobre a publicidade e as suas consequências éticas e políticas na formação do sujeito, eles tiveram a oportunidade de dialogar com outros alunos, bem como com outros projetos didáticos e conhecer semelhanças e diferenças nos estudos realizados nas diferentes instituições de ensino. Além disso, a habilidade de conseguir falar em público e organizar um discurso propriamente oral, um dos objetivos de formação no âmbito das práticas de linguagem que faz parte do percurso escolar desde bastante cedo na Escola da Vila, foi colocada em prática, mas dessa vez para um público externo.

Escola da Vila
As alunas Yolanda Monaco, Rosa Hellmeister e Alice Vilas Boas apresentam o trabalho “Reflexões sobre a obra Capitães da Areia”

Diferentemente do primeiro grupo, o segundo, composto pelas alunas Alice Vilas Boas, Lorena Schaeffer, Rosa Hellmeister e Yolanda Monaco, apresentou o trabalho “Reflexões sobre a obra Capitães da Areia”, produzido especialmente para o congresso. Ao longo do primeiro e do segundo trimestres, a leitura e as discussões sobre o romance de Jorge Amado foram frequentes e resultaram na produção de um trabalho escrito, autoral, sobre um dos temas principais que se desenvolvem na obra. Para o congresso, as alunas se reuniram e elaboraram uma apresentação que expôs o percurso do trabalho com o livro, tanto em sala como em casa, tal como introduziu as suas próprias análises e interpretações. Em uma mesa sobre Literatura, a reflexão sobre um dos clássicos da literatura brasileira possibilitou conversas bastante interessantes a respeito das obras contemporâneas e, também, sobre os rumos ou as perspectivas para o ensino da Literatura nas escolas. Novamente, os desafios que envolvem a preparação de um discurso fundamentalmente oral e o intercâmbio com um público externo à escola se colocaram como situações de aprendizagem muito significativas. 

A experiência certamente foi engrandecedora, tanto para os alunos quanto para aqueles que estavam assistindo. Professores, coordenadores, pais e até mesmo colegas tiveram a oportunidade de ver os alunos e as alunas apresentando falas coerentes, bem fundamentadas e envolventes, que, sem dúvida, provocaram reflexões e debates aprofundados sobre esses temas, tão diversos, mas ao mesmo tempo tão importantes para o pensar sobre a escola e a sociedade brasileiras. 

Entre o devaneio e a realidade

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

Numa breve viagem de metrô, entre as estações Butantã e Luz, aprendi muito numa conversa com uma criança de seis anos e sua mãe! Estávamos sentados próximos, e ele, supertagarela, perguntou primeiro:

- Você vai trabalhar?

- Eu não, e você, pra onde vai?

- Eu vou para o trabalho da minha mãe e depois vou para a escola!

- Ah! Você fica com sua mãe um pouquinho?

- Não, a gente só passa lá e vai para a escola. Depois ela me pega!

Para mudar o rumo da prosa, já que o garoto era bem conversador, resolvi perguntar se ele gostava de andar de metrô:

- Quando eu “era” criança eu gostava mais, porque achava que estava dentro de uma nave espacial!

- Você pode achar que está numa nave ainda! O metrô tem cara de nave espacial pra mim também!

- Eu não acho, não é, mãe? Agora eu sou grande, tenho seis anos, ó… e rapidamente me mostrou os cinco dedos de uma mão e um da outra.

A mãe, nada tagarela, olhou para mim com simpatia e mexeu a cabeça com um sorriso afirmativo.

- Ah, mas eu não acho que seus seis anos te impedem de pensar que o metrô pode ser uma nave e que estamos indo para outro planeta…Você quer ir pra onde?

- Eu? Eu… quero ir para Saturno! Rapidamente ele “embarcou na brincadeira”.

- Então vamos fazer de conta que estamos indo? Como num passe de mágica, aquelas propagandas eletrônicas que ficam do lado de fora do trem, mostraram uma nova versão do filme do Super-Homem e a imagem que víamos à nossa frente era do herói voando para atingir uma “bola de kriptonita” no espaço!

- Olha, ali! Estamos quase chegando a Saturno, eu disse.

Percebi o quão maravilhado o garoto estava por voltar a pensar, dentro de sua lógica de seis anos, que poderia sim fazer de conta que o metrô era uma nave, ou qualquer coisa que ele bem entendesse. Nunca quis tanto permanecer por mais tempo numa linha de metrô…

A mãe do menino, ao se despedir de mim, comentou:

- Ele é superprecoce, deu para perceber? A gente incentiva muito que ele cresça e entenda as coisas como elas são, mas agradeço a atenção que você deu para a “criancice” dele!

Nesse momento, o sorriso sem jeito foi meu! Não tive tempo suficiente para dizer para aquela mãe que a fantasia, o devaneio e a criatividade andam de mãos dadas com as crianças e que cabe aos adultos oferecerem elementos para que elas se sintam capazes de criar suas próprias teorias sobre “as coisas”!

Escola da Vila

Para as crianças, o mundo está repleto de objetos misteriosos, de acontecimentos incompreensíveis e figuras indecifráveis. Longe da lógica adulta, já ouvi muita poesia construída por gente pequena:

- Sabe aquelas plantas que ficam na beira da areia? São os cabelos do mar…

- Eu dei uma voltinha e fiquei tonta… se eu der uma voltona eu vou voar…

Eu descobri que nessa pontinha da caneta tem muita tinta, parece um pincel preso.

Quando eu durmo, acontecem muitas coisas que não acontecem quando estou acordada…

 - Quando eu canto essa música, é como se uns flocos de neve saíssem da minha boca…  

- Dá pra colar com cola, com fita crepe e com o pensamento. O pensamento é um tipo de cola que gruda o que a gente sabe.

-  O sol é bem mole…

- Você já tocou nele para saber se é mole?

- Não, mas ele me tocou, me deixou bem ardido, então ele deve ser bem mole para chegar até aqui!

Adoro colecionar pensamentos filosóficos das crianças, dedico tempo especial para escutar e sempre saio maravilhada com o que ouço! Borges, escritor argentino que eu amo, diz que “estamos rodeados de beleza, estamos rodeados de poesia, só se trata de poder vê-las”. As crianças dão conta de fazer isso por meio da brincadeira, da literatura, das narrativas que constroem enquanto elaboram explicações para o “indizível”.

Escola da Vila

A criatividade não é dada por nós às crianças como herança genética, ela é construída com muita escuta e confiança. Eles precisam acreditar verdadeiramente que suas ideias têm valor, e essa dimensão criativa ganhará outras proporções na vida adulta, quando forem capazes de olhar a realidade com olhos investigativos, questionadores e solidários, sem perder a capacidade de embarcar em devaneios e sonhos, que cá pra nós, não foram esses que nos trouxeram até aqui?

Escola da Vila

Concurso culinário e experimentação de saladas: dos estudos à ação

Escola da VilaEscola da Vila
Vencedores do concurso culinário: Caio Marcondes de Barros, Catarina Miranda Almeida, Luiza Gregori Tokita, Sofia Maria Rechi Aguiar, Juliana Ogihara Greco e Lívia Maria Papolo Colombero.

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Por Elaine Occhialini e Celina Moraes

Como anda a alimentação de nossos adolescentes? O estudo de Alimentação e Saúde dos 8ºs anos possibilitou aos alunos fazer uma reflexão sobre seu consumo alimentar perante suas necessidades nutricionais, isto é, se dar conta do que comem e quanto comem e avaliar se o que consomem atende ao que um adolescente necessita em termos nutricionais e energéticos. Os alunos registraram todos os alimentos consumidos, em medidas caseiras, ao longo de uma semana, incluindo os horários de consumo, e depois quantificaram em porções para realizarem comparações a partir de parâmetros dados pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Organização Mundial da Saúde.

Algumas tendências que são observadas na alimentação dos adolescentes brasileiros (como aquelas relatadas na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, PeNSE) também puderam ser constatadas entre muitos de nossos alunos, como o baixo consumo de verduras e legumes, a diminuição no consumo de feijões e leite e um aumento significativo (para nosso público) no consumo de doces, especialmente em versões industrializadas, como bolachas e chocolates.

Aqui cabe uma reflexão sobre a organização do dia alimentar dos nossos alunos. Ao analisar os registros alimentares produzidos, verificamos que muitos não planejam as refeições para atender satisfatoriamente suas atividades e necessidade nutricionais: ainda é frequente que muitos venham para a escola sem café da manhã assim como também destinam pouco tempo para o consumo de uma maior quantidade de alimentos na hora do almoço.

Para ajudá-los a enfrentar as barreiras que cada vez mais corroboram com esse preocupante quadro alimentar, realizamos duas atividades diferenciadas nas quais os alunos puderam vivenciar aspectos mais subjetivos e sensoriais relacionados à alimentação: a experimentação de saladas e o concurso culinário de lanches. O concurso já acontece há alguns anos, cada vez com maior adesão dos alunos, mas a experimentação de saladas foi a novidade da vez.

Como observado nos registros alimentares, legumes e verduras continuam sendo os grupos de alimentos menos consumidos pelos adolescentes. Como são alimentos que oferecem uma quantidade menor de calorias, os adolescentes buscam “matar a fome” com alimentos mais energéticos e de baixo valor nutricional, como chocolates, doces, sucos adoçados e refrigerantes. No entanto, consumir regularmente verduras e legumes é extremamente relevante, visto o fornecimento de fibras, vitaminas e sais minerais proporcionado por esses grupos de alimentos.

A aula de saladas foi desenvolvida para estimular a experimentação de alimentos dessa ampla categoria, com a oferta de alface, rúcula, tomate, cenoura, brócolis e pepino. Nesse dia, os alunos também foram convidados a preparar molhos variados para temperar suas saladas: o clássico de limão, azeite e sal, outro de coalhada seca e hortelã, um de mostarda e mel e outro ainda com shoyu.

O resultado foi surpreendente! A maioria dos alunos mal se continha para começar o ataque gastronômico! Vários alunos experimentaram alimentos que achavam que não gostavam, outros se aventuraram nos diferentes molhos para buscar novos sabores, havia aqueles que incentivaram os colegas a provar suas combinações favoritas… Vamos deixar que nossas alunas Manoela e Lorena apresentem um pouco mais essa experiência:

Percebemos, assim, o quanto é importante manter a experimentação de novos alimentos mesmo para essa faixa etária e evidenciamos como é possível estimular o consumo de verduras e legumes com medidas simples, como a oferta de novos temperos.

O concurso culinário foi também um grande sucesso! Entre tortas, sanduíches e barrinhas de cereais tivemos 23 preparações, resultado do empenho de 45 entusiasmados cozinheiros! Fomos mais uma vez presenteados com muitas gostosuras e animação. Na defesa de seus pratos, relatos dos testes, da busca de receitas, das histórias de família e das preferências individuais. Ao final, o compartilhamento com toda a classe do resultado de seus talentos culinários. Nosso distinto grupo de jurados contou com a participação de alunos de cada turma (vagas disputadíssimas!), professores queridos (mais disputas!) e a presença ilustre do chef Caio Carbognin em algumas das classes. Aproveitamos este espaço para mais uma vez agradecer essa participação tão especial!

É difícil descrever o quanto essa atividade envolve os alunos e contribui para que explicitemos a alimentação como algo complexo, que envolve não apenas a composição nutricional de cada alimento, mas também afeto, memória, técnicas e muito mais. O apoio e o incentivo das famílias são também um ingrediente essencial nesses pratos. Que nossos adolescentes sigam se aventurando na cozinha e buscando uma alimentação saudável, saborosa, compartilhada com amigos e cheia de histórias.

Vasto mundo

Vila Literária

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Por Vicente Domingues Régis

“Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo.”
Clarice Lispector

É com grande satisfação que chegamos ao lançamento de mais uma revista com os textos de alunos de 2º a 5º ano do Ensino Fundamental da Escola da Vila, produzidos para o IV Concurso Literário. Este concurso é mais uma das ações que compõem a Vila Literária, evento voltado para os alunos de Educação Infantil e Fundamental 1 com o propósito de festejar a literatura e sua relação com a música, o teatro e as demais linguagens artísticas.

Nesta edição, contamos com mais de cem textos que nos brindam com diversos personagens, conflitos, emoções e enredos, formando um grande retrato que revela a potência criadora do imaginário infantil. Ao passo que o leitor passeia por esse vasto mundo e suas histórias que só os olhos das crianças são capazes de contar, pode também vislumbrar as ferramentas que vêm sendo construídas ao longo da escolaridade por nossos alunos.

Convidamos, portanto, o leitor a percorrer esse caminho poético pelo imaginário infantil, para se deparar com uma bruxa que tinha os dentes muito sujos, mas que podia comer quatro pessoas de uma vez. Nesse caminho também se encontra uma curiosa explicação para a origem da raiva, que tem início lá no país das emoções, por conta de uma confusão entre uma bruxa e dois príncipes. Além de um planeta chamado Grhouland, que é habitado pelos Grhouls, que eram a raça mais triste que já existiu, assim como muitas outras possibilidades que só são possíveis por conta da inventividade e autenticidade dos nossos pequenos escritores.

Toda essa profusão criativa consiste num grande desafio para o júri do concurso. E, para contar um pouco dessa experiência, convidamos Claudia Aratangy, ex-professora da Vila, atual diretora pedagógica da Bahema, escritora de blog e leitora voraz, que participou do júri na categoria Histórias de Infância, do 4º ano.

Missão jurada

Ao ser convidada para compor o júri do VI Concurso Literário da Vila, além de honrada, fiquei um pouco receosa – como avaliar de forma justa os textos dos alunos? Seria eu capaz de fazer isso?

Escrever não é tarefa simples. Quando eu era criança, escrever na escola era um tormento. Por mais bem-intencionadas que fossem as professoras, o que nos propunham eram as chamadas redações, que tinham como tema datas comemorativas, passeios, férias ou o mais complicado de todos: o tal “tema livre” que nos aprisionava e torturava no enorme vácuo da falta de ideias. A indicação do gênero textual também não tinha limites claros: combinávamos relato, memória e até divulgação científica – uma salada. Para o bem ou para o mal, nossos leitores resumiam-se à professora e, em alguns casos, mães e pais. Fazíamos o que estava ao nosso alcance para tentar escrever algo que correspondesse às expectativas de leitores tão importantes. O resultado era pífio.

Hoje as propostas escolares são bem mais estruturadas, também porque são mais fundamentadas – os alunos leem e analisam os gêneros que irão escrever, aprendem a organizar suas ideias, planejam a escrita e, além disso, podem ter diferentes leitores para seus textos, pois não ficam mais restritos a uma folha de papel ou aprisionados em um caderno – o mundo é o limite, já que temos a web.

Assim, embora escrever continue a ser uma tarefa árdua, hoje há mais conhecimentos e recursos didáticos disponíveis, e os alunos se beneficiam deles. Ao que parece, quando nos deparamos com os textos do concurso, podemos concluir que, na Escola da Vila, escrever transformou-se em um desafio que meninos e meninas estão dispostos a enfrentar espontaneamente e com sucesso.

Como nunca havia sido jurada em um concurso dessa natureza, optei por participar em apenas uma das categorias – Narrativas de Infância – me arrependi depois, pois gostaria de ter lido mais textos.

Foi inspirador passear entre as memórias vividas ou inventadas das crianças. Observar como começam a estar atentas às escolhas que faz um escritor: busca de palavras para tornar o texto mais engraçado ou mais comovente, frases encaixadas para criar suspense ou empatia, a evidente preocupação com a cumplicidade do leitor.

Não foi simples eleger as narrativas para serem premiadas – gostaria de homenagear todos que se empenharam nessa tarefa! Como isso não era possível, busquei seguir as orientações da organização do concurso. Li, me deixei levar pelo impacto causado pela história e, em seguida, analisei em que medida a narrativa apresentava um fato de infância, caracterizava ambientes e personagens, temperava com pitadas de humor ou emoção e surpreendia com desfecho inusitado. Combinando critérios mais objetivos com outros um pouco mais subjetivos, fiz minha classificação. Curioso observar que nenhum jurado fez a escolha exatamente igual ao outro – o que confirma que muitos textos eram dignos da premiação. O resultado final é uma composição dos pontos em comum entre as várias escolhas. Acredito que fomos tão justos quanto possível!

Acredito que a experiência de um concurso – independentemente de ser premiado ou não – propicia aprendizagens preciosas e, espero, que cada ano mais alunos se atrevam a encarar esse desafio. Espero, também, poder participar novamente da difícil – mas prazerosa – missão de ser jurada.

O papel da leitura na vida das pessoas

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Por Fernanda Flores, diretora pedagógica da Escola da Vila.

Recentemente, recebemos Marcela Carranza, professora e especialista pela Universidade de Barcelona em Livros e Literatura para crianças, para uma conversa e oficina com professores de nossa escola e de outras, para pensarmos nas relações entre Arte, Brincadeira e Literatura.

Deixou-nos um texto escrito recentemente para provocar reflexões sobre o papel da leitura na vida das pessoas, sejam elas pequenas, médias ou grandes. Esse texto, em seu original, está publicado pelo Laboratório Emília, que esteve, com o CEDAC, em parceria com nosso Centro de Formação, na promoção de ações formativas que deem suporte a práticas pedagógicas comprometidas com a formação crítica e integral das novas gerações.

Uma janela aberta para A Terra do Nunca
(sobre a literatura de arrebatamento) de Marcela Carranza[1]

El arte, la poesía siempre pensé es la continuación de la infancia por otros medios.
(…) la escritura es eso, como volver a jugar.
En realidad estás jugando
con el lenguaje.
María Negroni

A literatura nos aproxima da infância. É uma maneira de restaurá-la. Quem se deixa levar pela literatura seja como escritor ou como leitor, a distinção não importa aqui, é capaz de restaurar maneiras de pensar próprias das crianças, especialmente das pequenas, e isso, para um mundo todo estruturado e que se quer previsível, é perturbador, desestabilizador, pouco tolerável e no mínimo incômodo, para não dizer, perigoso.

A Terra do Nunca, para onde nos levam as brincadeiras, os livros e também outras experiências culturais, é um país onde há outras possibilidades para o mundo em que vivemos, para a própria vida. É um mundo a construir, um mundo de aventuras e riscos. As garantias que se pressupõem de um mundo seguro se esvaem.

Não deixo de me perguntar por que a escola, em particular, e a sociedade em geral se esmeram com tanto afinco em querer domesticar a literatura: por que custa tanto à maioria dos adultos aceitar a indocilidade, a incontrolabilidade quando se trata de literatura para crianças. Penso que o problema, quem sabe, resida aqui: o imprevisível, o aberto, o não dado, a possibilidade de pensar completamente de outro modo, isso assusta, ainda mais quando se trata de crianças. Mas por quê? Porque elas ainda não assumiram as nossas verdades como únicas e insubstituíveis.

Tudo deve ser útil? A literatura na escola deve ser útil, servir para algo, ter alguma finalidade imediata? Se pensarmos um pouco, quando alguém lê um conto para uma criança pensando que deixa pra ela algum ensinamento, uma mensagem positiva, então não está depositando o devido valor na experiência mesma de ler, de brincar com as palavras, com as imagens, com os sonhos, a imaginação e a fantasia que esse texto pode provocar na criança leitora, mas pensa em algo que está fora dela. E isso não ocorre somente para textos mais tradicionais, que deixam ensinamentos ultrapassados, livros que vergonhosamente seguem vigentes; mas isso ocorre também para livros e leituras produzidas e destinadas a ensinar valores atuais, como a solidariedade, a paz mundial, o cuidado com o meio ambiente, o respeito às diferenças, os direitos feministas, etc. Livros que pretendem guiar passo a passo a transformação do leitor-criança segundo os desígnios do adulto.

“A literatura não é utilitária, tem relação com outras coisas, com uma espécie de busca que se faz por meio da linguagem. A linguagem é um meio e o que faz é uma coisa muito mais sutil. A escrita desmonta as maneiras convencionais de olhar a realidade, desmonta, desconstrói. Então cai por terra qualquer possibilidade de pensamento autoritário. E, quando digo autoritário, não me refiro somente ao discurso político, e sim a qualquer discurso, porque todos são políticos, todos são, o discurso íntimo também o é. O discurso que diz “isso é assim”, em definitivo, é autoritário, venha de onde vier”.
María Negroni. 

“Se invisto tempo e esforço na leitura de um conto para uma criança, devo esperar algum resultado.” – pensam muitos adultos.

Há necessidade de um vazio prévio para a criação. E a leitura é criação, não resta dúvida. Um bom texto não nos diz como devemos lê-lo. Podemos dar às crianças materiais para brincar, oferecer-lhes um espaço, quem sabe uma orientação inicial, mas será a criança quem irá brincar, o único protagonista da brincadeira, e fará o que quiser com ela.

Com a leitura, acontece algo parecido. Felizmente, ninguém pode ler pelo outro nem dizer ao outro como se deve ler um texto, nem sequer o próprio autor. No entanto, muitos adultos querem guiar a leitura das crianças, dizendo o que e como devem ler, obrigando a coincidir suas leituras com as da escola. Muitos adultos, muitos professores, entendem a leitura como uma entre tantas formas de acatar a autoridade, ao que a sociedade nos tem tão tristemente acostumado. É o outro que tem a verdade, o outro que conhece a leitura correta do texto, e eu devo reproduzir. Isso está longe do brincar, de criar, de descobrir e de pensar.

A literatura é uma luta contra o dogma, do “certo e indiscutível” que pode se manifestar de formas variadas, uma delas, a mais sutil e talvez eficaz e efetiva, são as formas cristalizadas da linguagem. O dogma da palavra estabelecida. Por isso, brincar com a linguagem, transgredir suas regras, pôr em evidência seus lugares comuns, revelar clichês, como fazem com maestria Caroll, Cortázar, entre outros, é uma passagem para a liberdade.

Segundo María Negroni, ao desmontar as formas convencionais de olhar a realidade, em sua busca por meio da linguagem, a literatura deita por terra qualquer possibilidade de pensamento autoritário. Na linguagem literária falamos de liberdade, porque as palavras se libertam de sua servidão como instrumento de sentido.

Por isso, para permanecerem apegados aos conteúdos, os temas em livros infantis não deixam de ser uma maneira a mais de limitar a linguagem da literatura de seu poder libertador.

Jacques Derrida diz que quando as palavras começam a ficar loucas é quando se conectam com as outras artes:

“Assim quando estou realmente enamorado das palavras, e como alguém encantado pelas palavras, as trato sempre como corpos que contêm sua própria perversidade – sua própria desordem regrada. E quando isso ocorre, a linguagem se abre às artes não verbais. Quando as palavras começam a enlouquecer dessa maneira e deixam de comportar-se respeitando o discurso é quando têm mais relações com as demais artes.”

Viver uma experiência estética que nos permite sermos outros para voltar a pensar e pensar-nos, uma experiência que nos rapta deste mundo, nos distancia do tempo e do espaço, para nos devolver transformados, irreconhecíveis. Se não cremos em fadas, as fadas morrem. E com elas morre uma parte de nós mesmos, aquela que nos conecta com a infância, com nosso modo de estar no mundo durante a infância.

A brincadeira, a arte, a literatura compartilham um mesmo lugar na vida das pessoas, esse lugar da espera, da negociação com o mundo, com seus limites e suas exigências. No espaço da brincadeira, da literatura, diz Graciela Montes, há gratuidades, há liberdade absoluta.


[1] Tradução livre, de versão reduzida pela própria autora. Para ler na íntegra seu texto em espanhol, clique aqui.

Parecer da Escola da Vila sobre Alfabetização na BNCC

Escola da Vila
Produção em dupla realizada por alunos do 1º ano para o Projeto Mitos Gregos

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Por Fernanda Flores, diretora pedagógica da Educação Infantil e Fundamental 1

No meio educacional, passamos por processo de imensa importância, a definição de uma base nacional comum curricular com implicações diretas na organização dos currículos das escolas, ou seja, uma lei nacional sobre os objetivos gerais de aprendizagem, aquilo que se pretende que se ensine na educação básica para todos os brasileiros e brasileiras em território nacional.

A alfabetização é um aspecto chave na inserção e na construção de vínculos de todo ser humano com sua cultura de origem. É um ponto central, a partir do qual se decide quem são os que terão mais ferramentas para comunicar o que pensam, compartilhando um acervo social e cultural, assumindo-o como próprio, e quem ficará à margem, sem os meios suficientes para participar de forma qualificada da cultura escrita.

Quando há risco de a alfabetização voltar a ser vista como uma etapa mecânica e isolada dos processos de aprendizagem da leitura e da escrita, precisamos dedicar todas as forças para nos opor, para marcar posição contrária e, certamente, para unir vozes que impactem uma revisão da versão que se encontra em discussão no Conselho Nacional de Educação.

Vimo-nos convocadas a situar uma e outra vez, quantas forem necessárias, que o documento da BNCC em sua terceira versão apresenta uma visão reducionista dos processos relacionados à aprendizagem da leitura e da escrita, aumentando a distância entre os que têm acesso a práticas pedagógicas que consideram a formação do leitor e escritor como um aprendiz de um ofício, que aprende porque está imerso, desde o primeiro dia na escola, em contato frequente e sistemático com contextos de leitura e escrita; e os que menos têm acesso, ou simplesmente são introduzidos ao mundo da escrita via a aprendizagem isolada dos nomes das letras, das sílabas e de (pseudo) textos que dizem nada a ninguém, esvaziados de sentido porque são meros pretextos para ensinar letras, sons e sua combinatória.

Vimos aqui publicar nosso parecer crítico, enviado em 11 de setembro ao Conselho Nacional de Educação, e expressamos nosso compromisso com a educação pública, com o valor da educação como direito primordial, em condições de equidade e qualidade garantidas pelo estado. Valorizamos, assim, a oportunidade de participar em discussões que deem suporte ao avanço qualificado das políticas educacionais de nosso país.

Para conhecer o Parecer na íntegra, clique aqui.