Uma escola no museu!

Por Sonia Barreira e Luisa Furman

Uma escola dentro de um museu a céu aberto surpreende e encanta. Enquanto passeamos entre instalações instigantes de artistas reais, num amplo jardim com árvores imensas e generosas, pudemos conhecer também as instalações de uma Educação Infantil pouco comum.

Lincoln Nursery School, longe de ser uma nova experiência pedagógica, tem sólidas bases num projeto que nasceu há mais de cinquenta anos. Mais recentemente, inspiradas pela experiência educacional de Reggio Emilia, promoveram transformações em seus espaços, na forma de interação com as crianças e na proposta curricular. No entanto, não é isso o que mais impacta os visitantes dessa pequena cooperativa de pais e educadores, e sim o fato de estar instalada no mesmo espaço destinado a um amplo museu de arte contemporânea ao ar livre.

Por essa razão, as crianças convivem diariamente com as obras de arte espalhadas pelo grande espaço verde, com inúmeras árvores frondosas, altas e, nesta época do ano, floridas. Essa convivência íntima e rara permite um conhecimento de cada obra bastante consistente.

Ao contrário das crianças de outras escolas, que são levadas aos museus especificamente para poder ter esse contato, os quais se resumem, na maioria das vezes, a uma experiência  singular e efêmera. Nossa pergunta foi então: e que diferença isso faz para os pequenos?

Constatamos que a partir das várias vivências diárias, as crianças podem conceber a mesma obra de arte de muitas maneiras. Podem observar o efeito que a variação do clima (frio, chuvoso, quente, ensolarado) pode promover. Podem se aproximar delas por um lado ou por outro lado, de perto e de longe, por cima ou por baixo, às vezes até dentro ou fora e com isso constatar detalhes que surpreendem e permitem novas formas de interagir com elas. Podem, por isso, sentir a obra de diversas maneiras e construir certa empatia, preferência ou apego por esta ou aquela peça.

Outro aspecto que o convívio permite é o acompanhamento de diversos processos de manutenção das obras – a depender de suas características, maior compreensão sobre a diversidade de materiais, a fragilidade e, eventualmente, a dependência de certos cuidados. Constatam com facilidade que as peças precisam ser instaladas, que algumas podem mudar de lugar e, principalmente, que são feitas por alguém, por uma pessoa, um artista!

O programa de trabalho dessa pequena escola inclui a conversa e o trabalho conjunto com os artistas expositores, de forma que inúmeras vezes os pequenos estudantes podem entender que a obra é inventada, projetada, estudada e construída. E, dessa maneira, compreender de forma intensiva o processo de produção de arte.

Essas experiências acumuladas desmistificam a arte e são um convite para a criação, para a produção dos alunos, seja em função da experiência reiterada ou de propostas específicas de seus educadores.

A ampla variedade de instalações desse museu instigante enriquece o repertório das crianças e permite e construção progressiva sobre o que é a Arte e para que ela serve.

Por fim, a partir de uma proposta relatada pelos educadores da Lincoln School, compreendemos que aquele rico entorno permitiu também que os pequenos fossem convidados a se colocar no lugar de especialistas, conhecedores do acervo. Um dia, a partir da constatação de diversos problemas com os visitantes do museu, que insistiam em interagir com as obras de forma inadequada, os alunos decidiram fazer uma lista de propostas sugerindo o que e como os visitantes poderiam explorar cada uma delas, sem colocar em risco sua manutenção.

Em vez de simplesmente proibir com cartazes dizendo “não suba nesta escultura” ou  “não toque neste painel“, “não coloque sua criança sentada aqui”, eles preferiram propor  novas experiências tais como: olhe de diversos ângulos; tire uma foto, compare com a outra obra; veja de perto e depois veja novamente de longe, etc. A exploração constante das obras e de seu entorno permitiu a esse grupo de crianças uma visão bastante original de como relacionar-se com as instalações.

Os espaços das escolas fazem parte do estímulo ao conhecimento e à interação com a realidade e os desafios da vida real. Alguns, no entanto, são mais do que isso e se transformam em parte do currículo formativo.

Formar um pequeno acervo de obras de arte no espaço da escola não deixa de ser um estímulo semelhante ao que conhecemos nessa instituição. Na Vila, essa prática já acontece, mas ainda pode ser mais explorada e expandida. Que essa pequena escola nos inspire e estimule!

Descobrindo livros e habilidades leitoras

Amanhã, teremos a quinta edição da Vila Literária, celebração da literatura, da poesia, da metáfora e da arte. Momento de viver experiências artísticas que revelam um pouco mais do que somos, de nosso imaginário. Momento de entrar em contato com artistas que fazem do ato de inventar, escrever e contar histórias, recitar poemas ou criar oficinas seu principal caminho no mundo. Momento de celebração da literatura como linguagem que nos constrói, nos diverte, nos emociona e nos informa.

No espírito deste evento, convidamos a autora Maria Emília López, que gentilmente e em primeira mão, nos cedeu a publicação de um artigo de seu último livro “Un pájaro de aire. La formación de los bibliotecarios y la lectura en la primera infancia” em que nos convida a pensar sobre as funções da literatura na vida cotidiana e o quanto as mediações feita por leitores experientes na relação com esse mundo da ficção são essenciais à capacidade de imaginar.

Descobrindo livros e habilidades leitoras
Os relatos, o tempo, a escuta

Por María Emilia López

Os seres humanos precisam narrar; construir relatos não somente nos permite alinhavar a história da humanidade e nossa própria história pessoal, como também é a possibilidade de enlaçar a vida que nos acontece com a fantasia. Mas para isso é indispensável uma valoração poderosa da imaginação.

A cultura contemporânea pode nos deixar expostos a certo sofrimento quando falamos da fantasia. Se predomina a oposição entre fantasia e realidade, isso significa que realidade é o que existe e fantasia, o que não existe. Gianni Rodari, que sustentou uma postura crítica ante esta perspectiva em inúmeros textos e experiências criativas com crianças, se pergunta: “Por acaso os sonhos não existem? Os sentimentos não existem, porque não têm corpo? De onde a fantasia tiraria materiais para suas construções se não fosse, como realmente faz, dos dados da experiência, já que os únicos dados que entram na mente são aqueles da experiência?” 1Entretanto, na cultura da educação muitas vezes observamos uma forte ruptura entre o imaginário e a realidade; segundo essa perspectiva, existem conhecimentos mais e menos valiosos em função de sua racionalidade ou da possibilidade de serem comprovados. A literatura, e a arte em geral, podem ficar presas nessa falsa dicotomia, e é aí onde a experiência com os livros se empobrece, quando os relatos construídos graças aos frutos da imaginação acabam submetidos a certa lógica da racionalização ou à mera transmissão de informação, mesmo com crianças muito pequenas e em âmbitos não escolares, como nas bibliotecas.

Qual o papel da imaginação na linguagem cotidiana? O que um mediador faz com o texto literário quando tenta levá-lo ao terreno da explicação? O que as crianças recebem da linguagem quando os livros que colocamos à sua disposição são atravessados por imperativos escolarizados, que implicam “tirar o máximo proveito deles” em função de outros aproveitamentos, teoricamente mais vantajosos e úteis para a vida do que a possibilidade de habitar a ficção, de sentir o comichão não verbal do nosso ser? 

A verdade da ficção, a necessidade de imaginar

Diz Marina Colasanti: “E podemos entender que formar leitores não é sacar leitores de  dentro da manga, não é fabricar leitores a partir do nada, mas dar forma e sentido a um leitor que já existe, embrionário, dentro de cada um. E onde se esconde este embrião de leitor, que tantos se mostram incapazes de ver? Para quem sabe olhar, não se esconde. Está contido, a plena luz, em uma das primeiras necessidades do ser humano, a necessidade de narrações.”2

Pensar nos bebês e crianças pequenas que recebemos nas bibliotecas como leitores implica considerar, em primeiro lugar, essa necessidade narrativa como condição do desdobramento da fantasia e da linguagem e, ao mesmo tempo, constitutiva do desenvolvimento. As intervenções e os modos de aproximação aos livros que propusermos serão fundamentais para potencializar ou ofuscar essas construções.

Os livros como enigmas

Em sua veemente crítica àqueles que fazem da imaginação um bem secundário frente à realidade, Rodari afirma: “Existem dois tipos de crianças que leem: as que leem para a escola, porque ler é seu exercício, seu dever, seu trabalho (agradável ou não, tanto faz); e as que leem para si mesmas, por prazer, para satisfazer uma necessidade de informação (o que são as estrelas, como funcionam as torneiras) ou para pôr a imaginação em ação. Para ‘brincar de’: se sentir um órfão perdido na mata, pirata e aventureiro, índio ou caubói, explorador ou chefe de um bando. Para brincar com as palavras. Para nadar no mar das palavras conforme seus caprichos.” 3

Quando começamos a perguntar aos bibliotecários quanto às suas representações sobre a leitura, de modo geral encontramos olhares mais próximos às crianças que leem por dever, para obter informações úteis, para “exercitar” suas capacidades cognitivas. A leitura pela própria leitura — por curiosidade ou necessidade pessoal, pelo prazer que a literatura produz — não aparece em um lugar muito interessante; de modo geral, é secundária em relação ao ensino ou à incorporação de conhecimentos do mundo real (no caso dos mais novos, por exemplo, as cores, os nomes das coisas, os meios de transporte, as ações da vida fática) ou é vista como um mero entretenimento, de importância duvidosa. Iniciemos, então, o trabalho de despir-nos das concepções herdadas sobre a leitura.

Em geral, observamos que o exercício de dedicar tempo para ler e explorar os livros infantis não surge espontaneamente nos bibliotecários ou educadores. Por esse motivo, a maioria dos livros é desconhecida para eles.

Para atender a essas duas grandes questões — as representações prévias sobre a leitura e a escassa exploração dos acervos —, começo propondo uma grande mesa de livros. Dedicamos várias sessões a ler e pesquisar de que se trata esse material, que questionamentos produz, o que fariam com ele. Lemos individualmente e em pequenos grupos. Cada um no seu ritmo, com todas as interrupções que forem necessárias, com todas as pausas. Destaco a diferença entre “folhear” e “ler”. Muitas vezes os adultos apenas folheiam os livros para as crianças, como se não houvesse a necessidade de se aprofundar, como se os livros não oferecessem territórios de indagação, conflitos, desmesuras para as quais é preciso tomar um bom tempo de leitura.

A partir deste trabalho, são postas sobre a mesa as dificuldades, os julgamentos sobre certos livros e sobre as possibilidades ou limitações dos pequenos leitores, também a magia que produzem alguns livros, a alegria, o prazer e a surpresa de se encontrar com relatos e ilustrações inesperadas e maravilhosas. “Nunca imaginei que os livros de primeira infância fossem me fisgar assim”, diz Luis Ernesto Granados, bibliotecário, enquanto tenta sair — com sucesso relativo — do livro “Pinguim”4, porque estávamos por começar a conversa.

Este treinamento do olhar implica o encontro com outros usos da linguagem, além da informação, que nem sempre forma parte das expectativas dos adultos. Torna-se então necessário compartilhar pontos de vista e às vezes questioná-los, porque muitas vezes esses modos de olhar estão tingidos de preconceitos. Teorizamos sobre os livros, a arte, a literatura, a informação, com os materiais em mãos. Nos perguntamos o que significa imaginar a partir da leitura conjunta de “El trapito feliz” (The Happy Rag) 5, de Tony Ross, ou “Onde vivem os monstros” 6 de Maurice Sendak. Surgem especulações a respeito de até onde as crianças são capazes de interpretar uma imagem; ensaiamos leituras possíveis de “Onde está o bolo?” 7 ou de “Tenho medo”8 o livro do colombiano Ivar da Coll. Estes livros que cito são somente alguns pouquíssimos exemplos dos muitos títulos com os quais construímos problematizações. Essa tarefa implica uma série de relações de pensamento entre todos os participantes, leituras em voz alta, hipóteses, discussões e argumentações sobre cada ponto de vista. Então os modos de ver se expandem e os diversos gêneros e estéticas se transformam em tema de análise.

Sobre a variedade do acervo e seus conflitos

As coleções de livros que formam o material para o trabalho com a primeira infância oferecem uma amplitude interessante: livros de contos, de poemas, trava-línguas e charadas, feitiços, livros com música, livros-discos, livros-álbum, livros-álbum sem palavras (escritas), livros com repertório tradicional, livros de autor, livros informativos, científicos, livros-objeto, livros-jogo, livros para todos os gostos.

Entre os livros que provocam mais estranhamento estão aqueles sem palavras escritas, nos quais a ilustração tem um protagonismo especial; livros que muitas vezes deixam os adultos “mudos”, mas que são interessantíssimos para as crianças. “Chigüiro y el lápiz” (Capivara e o lápis)9 e toda a série Chigüiro, por exemplo, livros nos quais Ivar da Coll dá vida a seu personagem com elementos simples, e a brincadeira, o humor, como ingredientes fundamentais. A leitura desses livros deixa alguns desconcertados, a ausência das palavras parece um poço de águas escuras onde se submerge a potência do que vemos, porque é inegável que as ilustrações proporcionam uma grande quantidade de informações; contudo, para o adulto acostumado a se debruçar sobre as palavras, o relato da imagem não é suficiente. Por outro lado, é como se a palavra trouxesse consigo certa “fidelidade” ao sentido, relativizado diante de uma imagem que deve ser interpretada. Talvez esta dificuldade surja da crença em um sentido fechado dos textos, ou da complexidade de pensar que, com ou sem palavras, com ou sem ilustrações, a imaginação do pequeno leitor tem suas derivas próprias, suas fugas, e nunca será capturada por completo em nenhuma palavra, imagem ou sentido.

Existe uma suposição de que as crianças pequenas só conseguem perceber o que se propõe em imagens figurativas, cores plenas, estéticas realistas. É surpreendente observar, se paramos para fazer um seguimento de suas leituras, a quantidade de elementos que eles descobrem antes do adulto em determinadas ilustrações, ou como relacionam elementos aparentemente desconexos para o olhar do pai, mãe, bibliotecário ou professora. Crianças pequenas são naturalmente surrealistas, têm a capacidade de estabelecer lógicas alternativas a partir da liberdade com que circulam suas imagens mentais e associações.

Os mundos paralelos da leitura

Diz Roland Barthes: “Nunca aconteceu, ao ler um livro, de você ir parando constantemente ao longo da leitura, e não por desinteresse, pelo contrário, por causa de uma grande afluência de ideias, excitações, associações? Resumindo, nunca aconteceu de você ler levantando a cabeça?”10

Que interessante se aplicamos esse pensamento às crianças. E os bebês, quantas vezes será que as ressonâncias desses livros que os bebês leem, ou que lemos para eles, os deixam cheios de ideias simultâneas? Quantas vezes eles levantam a cabeça e não percebemos? Ou haverá modos de perceber? Se estamos em uma relação de intimidade e compromisso para com a criança, é provável que notemos mais claramente seus estados de ânimo, seus pensamentos, mesmo sem palavras capazes de transmiti-los, e partindo desse ponto de vista é mais provável deixar fluir o processo próprio de leitura da criança. Quando a intervenção do adulto é estereotipada ou impõe um ritmo ou uma única forma de ler, provavelmente a criança sente uma rejeição do que pensa, percebe ou rememora quando lê ou quando leem para ela.

No começo é o adulto que passa as páginas do livro, mas rapidamente o bebê passará a exercer esse poder por si mesmo. A leitura em voz alta dos textos que acompanham as imagens, apontar as imagens em conjunto com o que se lê, é parte fundamental do processo leitor, que atribui significado à escrita transmitida pela oralidade em relação à imagem. Essa ação também colabora para a discriminação entre leitura e escrita.

Por isso, ao desenhar um projeto de leitura para crianças pequenas, é indispensável pensar na formação dos mediadores de leitura que vão acompanhá-los, sejam professores, pais, bibliotecários, todos nós que, de algum modo, transmitimos nossos próprios modos de ler, arraigados em nossa experiência pessoal.


Este artigo foi extraído do livro “Un pájaro de aire. La formación de los bibliotecarios y la lectura en la primera infancia”. Buenos Aires: Editorial Lugar, 2018.

Tradução de Patricia Moura e Souza


1 RODARI, G. La imaginación en la literatura infantil. Revista Imaginaria, Buenos Aires, n. 125, mar. 2004.

2 Colasanti, M. Fragatas para terras distantes. Rio de Janeiro: Record, 2004.

3 Ibid.

4 DUNBAR, P. Pinguim. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

5 ROSS, T. El trapito feliz. México: Fondo de Cultura Económica, 1999. (A la orilla del viento)

6 SENDAK, M. Onde vivem os monstros. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

7 TJONG-KHING, Thé. ¿Dónde está el pastel? (Onde está o bolo?, não publicado no Brasil). México: Castillo, 2007.

8 DA COLL, I. Tenho medo. São Paulo: Iluminuras, 2015.

9 DA COLL, I. Chigüiro viaja en chiva (Capivara viaja de ônibus, não publicado no Brasil). Bogotá: Ediciones Babel, 2012.

10 BARTHES, R. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

Projeto Zero – quando a pesquisa encontra a sala de aula ou vice-versa

Por Sonia Barreira e equipe da Vila em Boston

Um tour pelas salas do Projeto Zero, em Harvard, realizado com um grupo de educadores evidencia como a pesquisa acadêmica, que busca entender os fenômenos da aprendizagem interessam e nutrem aqueles que vivem a escola. O simpático Daniel Wilson, atual diretor, nos contava a história dessa iniciativa, que tem mais de 50 anos, e em cada corredor nos atualizava sobre as linhas de pesquisa em vigor.

O grupo todo, ainda que avisado que todo o material estava disponível no site, não se continha com as fotos e os registros; todas as linhas de pesquisa nos interessavam: os dilemas sobre o uso da tecnologia na escola, as diversas formas de avaliar, o papel da arte na formação das crianças e jovens, etc., uma após a outra, uma singela apresentação trazia à tona nossas convicções, dúvidas e vontade de aprender mais.

Por isso, foi importante ouvir, logo depois do tour – de Edward Clapp, investigador senior Learning Communitier – que é preciso cuidado quando se toma conhecimento de outras formas de entender ou de promover o desenvolvimento humano, pois, para além das estruturas pedagógicas, há os contextos em que esses processos ocorrem e que devem ser considerados. Em suas palavras:

Nenhuma estrutura pedagógica deve ser aplicada mecanicamente sem algum tipo de “tradução” para seu contexto sociocultural. Deve-se perguntar: essa proposição foi feita por quem e para quem foi desenhada? Mas, neste mundo diverso e complexo, é preciso entender as origens destas estruturas pedagógicas antes de assumi-las sem crítica ou contextualização. Edward Clapp – Learning Communities.

Ainda neste mesmo encontro, Benjamin Mardell, responsável pela linha de pesquisa que investe em tornar a aprendizagem visível – reforçou: o valor da viagem de vocês, neste contexto cultural distinto do brasileiro, é ter novas ideias e inspirações, claro, e isso é bom, mas acima de tudo estar em um ambiente diferente é bom porque os coloca num espelho – cada um pensando e examinando as novas ideias a partir de sua reflexão sobre seus próprios conhecimentos e práticas.

Importante ressalva que tenta evitar que os resultados das pesquisas virem moda e sejam aplicados de forma inconsistente e sem a devida adaptação e ressignificação por parte das equipes das escolas.

Daniel Wilson destacou os motivos pelos quais o PZ continua produzindo pesquisas que interessam aos educadores: “os nossos pesquisadores estão interessados no potencial humano: criatividade, pensamento, aprendizagem, ética. São as capacidades que nos definem como humanos. Uma das razões para o Projeto Zero ter vivido durante mais de 50 anos é porque tem feito perguntas sobre este potencial. E este potencial é perene, por isso as questões são ainda relevantes, apesar da mudança de contexto e da mudança do mundo.”

Ao falar sobre o futuro do PZ, Daniel Wilson prevê: “Um dos tópicos mais importantes para o futuro do Projeto Zero é a questão da Ética. Se há algo de positivo no surgimento de movimentos radicais nas sociedades democráticas é a chamada para nos voltarmos para o entendimento do que significa ser ético ou antiético. Temos de trabalhar com as crianças, os adultos, as comunidades – Já há muito bons trabalhos sendo realizados no mundo.

O grupo de educadores da Vila trocou olhares significativos depois deste destaque, pois a questão da ética e da formação moral de nossos alunos sempre foi uma preocupação central em nosso projeto. Que alívio! Mudamos as maneiras de encaminhar essa formação ao longo dos anos, mas mantivemos a mesma preocupação de quando começamos: escola é muito mais do que conteúdo disciplinar. Por isso concordamos emocionadas com as colocações de Daniel, que encerraram nosso encontro:

“Temos a responsabilidade moral como educadores de relembrar à nossa comunidade que as escolas são mais do que um lugar para se conseguir futuros empregos! Se olharmos a história das escolas, elas foram fundadas com a vocação de formar cidadãos. E agora é a hora mais do que necessária de lembrar isso a nossas comunidades e também mostrar a elas este trabalho.”  

Estamos mais do que nunca com esta convicção e com esta motivação! ______________________________________________________________________________

A equipe que representou a Vila foi composta pelos seguintes profissionais:

Sonia Barreira, Fernanda Flores, Beatriz Mugnani, Juliana Karina, Veronica Bochi e Luisa Furman

O lugar da escola e o lugar do sonho

                                                                                              Equipe da Vila em Boston

Quando viajamos com um grupo de educadores de outras escolas para conhecermos tendências e possibilidades novas para o trabalho educacional, vivemos um curto e intenso período de trocas, reflexões e sonhos.

Sonhamos uma escola melhor do que a que realizamos. Sonhamos superar as nossas dificuldades e restrições. Sonhamos formar de maneira mais ampla e consistente nossas crianças e jovens. E acreditamos no sonho porque pensamos que, ao voltar, vamos arregaçar as mangas e rapidamente colocar em prática uma educação mais criativa, mais colaborativa, mais significativa para todos.

Mas lembramos também que os projetos estão em curso, os planejamentos já foram realizados e que a equipe está preparada para a escola real, cotidiana, verdadeira. Lembramos que a escola real tem amarras poderosas nos tempos predefinidos e organizadamente separados de uma em uma hora. Nos processos previamente definidos e articulados entre si: ensina, avalia, comunica; ensina, avalia, comunica; ensina, avalia, comunica! Amarras da seriação já analisada e criticada, mas ainda validada pelos órgãos oficiais e muito presente na representação das famílias. Amarras do contrato profissional definido há muitos e muitos anos, sem atualização nem adaptação às demandas da escola sonhada. Amarras da uniformidade que leva a uma luta diária para atender à diversidade.

Como desatar os nós das amarras e abrir espaço para os sonhos de reorganização curricular que incluam projetos mais arrojados, livres, menos controlados? Como mobilizar todos: famílias, professores e alunos para uma escola mais criativa, menos normativa e mais significativa? 

Mas, entre o sonho e a realidade, há a construção diária de um projeto formativo. Há o meio do caminho: aquela escola que idealizamos e que, ao mesmo tempo em que nos fornece a ilusão utópica, nos garante o rumo, o destino, o traçado de um caminho fértil. 

Nesse caminho encontramos as belezas de um projeto que estimula a curiosidade dos pequenos com as experiências intensas com as coisas da natureza: água, plantas, cores, texturas, frutas, sons, espaços. Um projeto atento às conquistas e à construção das linguagens, das relações, dos sentimentos, das narrativas. Um projeto que valoriza a cultura e incentiva a responsabilidade. Uma equipe que recentemente assumiu com coragem e competência os grupamentos intersséries, tão potentes para as aprendizagens que oferecem aos outros segmentos um modelo a ser seguido! 

Encontramos as escritas espontâneas, o espaço para o erro, as coleções queridas, o sentimento de pertencimento a um grupo. O início da compreensão sobre o espírito da lei, os motivos das regras e as justificativas para ceder. Vemos a valorização da memória e o resgate da história familiar e a descoberta da ciência. Vemos crianças enfrentarem, com disposição, a complexidade dos cálculos, as armadilhas da ortografia e a necessidade de regras para o convívio grupal. Observamos brotar a alegria de participar, com originalidade, de uma grande rede do saber ou de inventar, projetar e construir incríveis seres imaginários.   

Ainda na nossa escola, vemos florescer a capacidade de pensar no outro e  o autoconhecimento; vemos a cooperação genuína tomar seu lugar no trabalho em duplas e em subgrupos. Vemos nossos quase adolescentes aprenderem a debater, argumentar e serem convencidos. A educação digital se expande ainda que tenhamos que lutar para separar os espaços das práticas de estudo em meios digitais do entretenimento superficial e do uso precoce das redes sociais. O envolvimento com as causas coletivas começa a ganhar espaço. A diferenciação entre o público e o privado começa a ser manipulada pelas jovens mentes críticas e autônomas. Um grupo de professores que já descobriu há muito tempo que não basta ensinar os saberes disciplinares, é preciso educar para a autonomia, para a cooperação e para a resolução de problemas.

Depois certamente vemos brotar a cidadania ativa, a consciência moral e os desafios concernentes ao futuro. A capacidade intelectual aumenta a ponto de termos de enfrentar a onipotência juvenil. O futuro adulto, crítico, sensível, autônomo e cooperativo está delineado. Ele nos dá orgulho! Briga por suas ideias, mas sabe ouvir. Valoriza seus pares, mas respeita seus professores. Tem suas contradições, mas as reconhece e procura superá-las.

Viajar com um grupo de educadores de outras escolas, para conhecermos tendências e novas possibilidades, olhando escolas inspiradoras e debatendo seus projetos e espaços, faz com que nos vejamos num espelho invertido, que nos obriga a reconhecer que já realizamos parte do sonho, mas que ainda é possível sonhar mais e ir além!

A Vila viajou para Boston representada por Juliana Karina, Veronica Bochi, Fernanda Flores, Luisa Furman, Beatriz Mugnani, Sonia Barreira e Sandra Durazzo.

A personalização das aprendizagens é uma necessidade, mas ainda engatinhamos

Por Sonia Barreira, Direção Geral da Escola da Vila

Desde o surgimento das pedagogias ativas no começo do século passado, inaugurou-se no ambiente educacional a preocupação e a busca de colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem, valorizando suas atividades mentais e físicas para o sucesso das aprendizagens.

No entanto, ainda que essa premissa tenha sido apropriada pelo discurso educacional, não chegou a produzir concretamente mudanças substantivas no cenário brasileiro. Experiências isoladas e projetos pilotos, influenciados por essa ideia, ofereceram excelentes referências práticas, mas que não foram suficientes para que esse paradigma se tornasse dominante nas escolas brasileiras.

Algumas escolas de vanguarda, grupos educacionais de excelência e projetos de inovação em algumas redes públicas construíram boas práticas, mas a maioria das salas de aula no país seguiram tendo um professor à frente, “falando e explicando” os conteúdos para um grupo de alunos sentados individualmente, anotando ou fazendo exercícios de fixação, padronizados.

Nos anos 70/80, o construtivismo chegou ao Brasil, ainda incipiente, em propostas de escolas alternativas, majoritariamente privadas, ou coletivos de profissionais que estudavam de forma autônoma. Com a publicação da pesquisa de Emília Ferreiro sobre como as crianças aprendem a ler e a escrever, o construtivismo se popularizou. Muitas tentativas foram feitas de levar práticas pedagógicas de base construtivista para as escolas públicas, algumas com sucesso. Os Parâmetros Curriculares Nacionais, por exemplo, publicados no final dos anos 90, e os programas formativos decorrentes deles foram um grande impulso para a mudança de paradigma. Mas as mudanças no cenário político, sejam em redes municipais, sejam no Ministério da Educação, se encarregaram de garantir a descontinuidade dos avanços do partido político anterior.

Assim, para aqueles que assumiram o marco teórico construtivista, a ideia de que as aprendizagens não se dão da mesma maneira para todos os alunos, mas que, antes, dependem diretamente dos conhecimentos prévios dos aprendizes, as consequências foram imediatas: os professores precisavam diversificar suas propostas de ensino para garantir a aprendizagem de todos. A variabilidade didática, as distintas modalidades de aprendizagem, os apoios ajustados são exemplos da concretização dessas preocupações em mecanismos diferenciados de ensino. As palavras-chave desse modelo pedagógico foram naquele momento: atendimento individualizado, respeito ao ritmo de cada aluno, currículo flexível.

Paralelamente, a sociedade de modo geral passou a considerar a necessidade de incluir todos os cidadãos, em diversos campos da vida social. Com o avanço da discussão sobre inclusão, luta de grupos ativistas e novas legislações, as crianças e jovens com algum tipo de deficiência passaram, progressivamente, a serem aceitos e integrados nas escolas regulares. Esse movimento obrigou todos os coletivos de educadores profissionais a se dedicarem a ampliar a oferta de ajudas ajustadas (apoios pedagógicos diferenciados) e a trabalhar aceitando diferentes tempos de aprendizagem (ritmo do aluno), o que demandou melhor preparo profissional para o atendimento à diversidade. Muito embora a equidade ainda não esteja completamente garantida até hoje, esse processo histórico pressionou a transformação de muitas escolas brasileiras, mas até o momento o atendimento a diversidade apenas ganhou espaço no discurso pedagógico.

Processo semelhante de idas e vindas, sem uma mudança real no cenário educativo, viveu a Catalunha, alguns anos à nossa frente. Atualmente, fruto de novos estudos, escolas e educadores catalães deram um passo importante no que se refere ao atendimento às necessidades educacionais de cada aluno e têm considerado fortemente outras variáveis que impactam diretamente nas aprendizagens das crianças e jovens. Essas intervenções têm sido chamadas de personalização das aprendizagens.

Para Cesar Coll, a “personalização das aprendizagens situa-se na tradição das pedagogias centradas no aprendiz pois implica uma continuidade em relação a elas, mas também um salto qualitativo nesta tradição”. Este salto refere-se principalmente em se considerar fortemente as características pessoais, sociais e culturais do aluno, e também seus interesses, objetivos e opções de aprendizagem.  

De acordo com Cesar Coll, as propostas de personalização “partem do reconhecimento e da aceitação da capacidade do aprendiz para tomar decisões sobre seu próprio processo de aprendizagem, incluindo aspectos relacionados ao o que (conteúdos), ao como (atividades, materiais e apoios) e ao quando (sequenciação) aprender”. Em outros termos, a personalização deve garantir aprendizagens que façam sentido e que tenham um valor pessoal para aquele que aprende. Para esse autor, uma aprendizagem com sentido e valor contribui de forma mais ou menos significativa para a construção de sua identidade.

Importante destacar que esse tipo de preocupação surge num contexto em que se considera uma nova ecologia das aprendizagens, isto é, um novo jogo de forças entre os diferentes contextos nos quais se aprende, incluindo o universo digital. A escola deixa de ser o único espaço social no qual acontecem as aprendizagens úteis e relevantes e os demais contextos passam a contribuir de forma indiscutível com trajetórias pessoais, muitas das quais são frutos de escolhas pessoais.

Ora, os currículos escolares padronizados têm cada vez menor espaço para escolhas, e mesmo em experiências pedagógicas mais arrojadas nas quais se trabalha com projetos vinculados a problemas reais, estes últimos são estruturados de maneira a garantir um determinado conjunto de saberes e procedimentos.

Por outro lado, as escolas em busca de inovação e resposta à questão do sentido e da  motivação ampliam o leque de ofertas extracurriculares, disciplinas optativas, como um acréscimo ao currículo regular, sem conseguir dar o salto qualitativo na proposição curricular como um todo.

Entender em que medida os diferentes alunos atribuem valor pessoal a certas opções de aprendizagem não é tarefa fácil, mais complexo ainda seria apoiar a articulação das aprendizagens que ocorrem em distintos contextos da vida de cada um deles. Trata-se de grande desafio para os educadores.

No entanto, com o aumento da desmotivação por parte dos alunos para os processos propostos pelas escolas, pela falta de sentido crescente que os currículos escolares oferecem e pela progressiva vinculação dos alunos com outras atividades, é preciso organizar as ações pedagógicas e educacionais de modo a dar mais voz e escolha aos alunos, apoiar trajetórias individuais e ajudar a articulação das experiências e vivências em contextos distintos. Isso é muito mais do que criar um cardápio de cursos extras.

Nas palavras de Cesar Coll, “a personalização das aprendizagens escolares não é uma opção e sim uma exigência do momento”.

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Referência Bibliográfica:

Coll, Cesar org. (2018) “La personalizacion del aprendizaje” – Dossier Graó

Democracia, um valor inegociável

Com uma sociedade cindida, sem ideias novas e elegendo jovens políticos, teremos um país mais democrático?

Escola da Vila
Tabata Amaral na Escola da Vila

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Por Susane Lancman, direção do Ensino Médio

No blog de fevereiro, um dos textos tinha como título “Sustentabilidade, um valor inegociável: sem canudinhos, com segunda-feira sem carne e andando de bicicleta, salvaremos o planeta?”. A intenção era divulgar a palestra do professor Edson Grandisoli feita para os alunos do Ensino Médio sobre sustentabilidade, além de gerar na comunidade Vila mais reflexões sobre o assunto tão sério e complexo. Muitas ações têm sido pensadas, inclusive foi criado o grupo SustentaVila com professores e alunos, para que nossa comunidade seja mais sustentável.

Outro assunto extremamente caro para trabalharmos no espaço escolar é o conceito de democracia, mais um valor inegociável. No ano passado, realizamos algumas ações, como as atividades da Mostra de Trabalhos do Ensino Médio, que versava sobre essa temática, e neste ano já fizemos algumas ações para dar continuidade. Assim, objetivamos ampliar o conhecimento dos alunos em relação ao conceito de democracia de modo a qualificar o discurso e aprimorar as atitudes de nossa comunidade a fim de nos tornarmos uma escola cada vez mais democrática.

Iniciamos o ano com as equipes de professores relacionando em seus currículos os vínculos com o conceito de democracia e planejando atividades que poderiam gerar mais discussão e ação entre os alunos. Em uma sociedade cindida em que as nuances entre esquerda e direita parecem não existir, em que as caricaturas proliferam e o diálogo é interrompido, é preciso achar um ponto em que seja possível haver escuta, assim pensamos que a chave poderia ser o trabalho mais profundo com o conceito de democracia.

Uma feliz coincidência foi a possibilidade de a deputada federal Tabata Amaral estar em uma aula aberta com todo o Ensino Médio. Independentemente de partido, estamos em busca de apresentar ideias novas e dar esperança aos nossos alunos com relação à possibilidade de construir um país mais justo e sustentável. Temos percebido um sentimento de ceticismo por parte de muitos jovens (e de nós adultos), o que é temeroso, já que é da juventude que costuma sair a mola propulsora para a mudança. Assim, temos a intenção de oferecer atividades, como palestras com políticos, que vão ao encontro desse sentimento, não para criar um falso ou vazio otimismo, mas para que nossos jovens percebam que podem ser parte da solução dos problemas.

Para “aquecer” os alunos para o encontro com a deputada e sabendo que seu foco é educação, apresentamos em algumas classes gráficos relacionados ao processo de escolarização no Brasil, redução do analfabetismo e resultados do PISA. Em outras classes, o foco foi na compreensão do funcionamento da Câmara de Deputados com a utilização de vídeos feitos pelos ex-alunos do 3o ano depois do trabalho de campo de Brasília. A partir disso, os alunos criaram questões para a convidada, foram algumas:

1) Relacionadas ao Movimento Mapa Educação:

a) Quais são os critérios usados pelo movimento para a definição de “educação de qualidade”? Qual é o “cidadão” que esse projeto busca formar?

b) Que boas propostas de melhoria da educação foram mapeadas pelas pesquisas realizadas pelo Movimento Mapa Educação? Na avaliação de Tabata, por onde é preciso começar para que haja uma transformação efetiva no cenário educacional brasileiro?

c) Como estudantes de escolas particulares podem atuar na construção de um projeto de educação pública para o Brasil?

2) Relacionadas à atuação e aos posicionamentos de Tabata Amaral como deputada federal no contexto do atual governo federal:

a) Como ela enxerga a afirmação do ex-ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, de que a “universidade não é para todos”? Como deputada, como atuará em relação à visão de educação expressa nessa fala?

b) Como ela enxerga o Programa Escola sem Partido? Como deputada federal, como pretende atuar em relação às propostas defendidas pelo programa?

c) Como ela enxerga os valores de “meritocracia” e “equidade”? Na sua visão, qual é o lugar que esses valores devem ocupar nas políticas educacionais brasileiras?

O encontro gerou muitas discussões, que repercutem até hoje na sala de aula e fora dela, muitos pensamentos sobre os desafios e conquistas para que nosso jovem país seja de fato cada vez mais democrático.

Vale também ressaltar que desde o início do ano temos um mural no Ensino Médio com materiais relacionados com a temática “democracia”, inclusive com o preâmbulo da Constituição de 1988, que foi trabalhado no ano passado com os alunos, bem como o índice de toda a Constituição para que se tenha ideia da sua abrangência. Além disso, o Grêmio tem ampliado a sua atuação, tentando se fortalecer com o grupo de alunos e está organizando para a 1a SAD (Semana de Atividades Diversificadas) uma sessão de cinema do filme Eleições, de direção de Alice Riff. Enfim, há muito que fazer dentro e fora dos muros da Escola, pois queremos que a nossa garotada seja cada vez mais interessada em política para que possamos construir o país que almejamos. Então, continuaremos caminhando no sentido de formar alunos que percebam a democracia como um valor inegociável, para que se percebam como agentes de mudança com ideias inovadoras em um espaço de escuta e diálogo.

Pedalar: por que sim?

Prezadas leitoras e leitores,

Destacamos em nosso blog, o texto de Sasha Hart, pai da Vila, entusiasta e “bikeanjo”, que gentilmente aceitou nosso convite de enfatizar o quanto devemos todos nos engajar e aderir a meios de deslocamento ativos e limpos. Com dados muito interessantes, vemos o quanto as bicicletas ganham espaço e importância em nossa cidade.

Contribuindo para essa conscientização, esse sábado teremos nossa esperada Bicicletada dos 7ºs anos, no Parque Villa Lobos! Esperamos que escola e famílias juntas promovam, cada vez mais, a experiência de nos deslocarmos via bike!

Pedalar: por que sim?

Escola da Vila

Por Sasha Hart, hidrogeólogo, pai e Bike Anjo

Bicicleta é coisa de criança, adolescente, adulto e idoso. Todos têm o direito de pedalar, seja para lazer, para melhorar a saúde, como esporte, para fazer entregas ou para sua mobilidade. Na cidade de São Paulo, centenas de milhares de pessoas pedalam diariamente e, seguindo a tendência global, cada vez mais. Por exemplo, a ciclovia da Av. Faria Lima, em poucos anos desde sua instalação, já é uma das mais usadas do mundo[1] [2]. Na Av. Eliseu de Almeida, chama a atenção o fato de que, após a instalação da ciclovia, também cresceu muito a porcentagem de ciclistas crianças e mulheres[3].

Mas… é seguro pedalar em São Paulo? A cidade está desafiadora para todos os tipos de mobilidade, entretanto, é notório que, onde foram instaladas ciclovias ou ciclofaixas, os riscos diminuíram muito (para ciclistas, bem como para pedestres e motoristas). Além dos ciclistas passarem a ter um espaço exclusivo, tipicamente ocorre ali um efeito que os especialistas chamam de Acalmamento de Tráfego (inclusive porque permite um aumento na visibilidade entre pessoas na rua e na calçada). Os dados históricos[4] mostram também que o número de vítimas em todos os modais (menos motociclistas) já apresentava antes uma tendência geral de diminuição (possivelmente relacionado a melhoras na legislação e fiscalização, diminuição de velocidade, entre outros fatores). Outra boa notícia é que a Prefeitura divulgou que pretende até o ano que vem fazer novas ciclovias e ações para melhorar a segurança[5]. Vamos cobrar (inclusive nas iminentes audiências públicas – abertas a todo mundo) para que melhorias ocorram logo, de forma eficiente e também perto de escolas.

Ainda assim, há muito a ser feito (por todos!) para melhorar o trânsito, inclusive sobre o respeito e a educação. Soluções existem[6], mas não pense duas vezes: pedale sempre com capacete e muita atenção, de preferência acompanhado (avalie ficar próximo de outros ciclistas que estejam fazendo o mesmo caminho).

Para quem não sabe pedalar ou tem algum receio, sugiro checar a plataforma Bike Anjo. Ela é uma rede de apoio (gratuita) que foi criada há quase 10 anos em São Paulo. Desde então ela cresceu para 739 cidades (em 34 países) e já ajudou dezenas de milhares de pessoas. Após o cadastro, a plataforma faz a ponte entre quem precisa de ajuda e possíveis voluntários/as (que ensinam a pedalar, fazem companhia no seu percurso, dão recomendações sobre rotas e muito mais). É bem capaz que o, ou a, ciclista more próximo de você.


[1] ecopublic.com

[2] cetsp.com.br

[3]ciclocidade.org.br

[4] cetsp.com.br

[5]vá de bike

[6]bikeelegal.com

Adaptados? Crianças e familiares nas idas e vindas do processo de adaptação

Por Andréa Polo, Coordenação da Educação Infantil

Para falar sobre adaptação, aguçamos todos os nossos sentidos, especialmente aqueles que nos fazem ver o que não é explícito, ouvir o que não é dito e tocar no que, até então, para alguns, era território exclusivo da família. Esse período é marcado por muitas situações que são previstas para a equipe de professoras e professores, mas que, para a maioria das famílias, apresentam-se do mais improvável ao mais surpreendente em frações de segundos:

Passados os primeiros meses, compartilhamos algumas experiências:

– Nossa! Ela estava tão bem, agora fica agarrada desse jeito!

– Não acredito! Não chorou na adaptação e agora que já conhece todo mundo chega à escola e começa a chorar?

– Fico insegura quando o deixo na escola e não encontro a professora…

– A professora estava atendendo outra criança e nem deu atenção pra ela…

– Só vou ficar escondida aqui um pouco para saber se ele ficou bem!

– Tenho que olhar para a adaptação do meu filho, um dia de cada vez, pode ser que amanhã as coisas mudem, pode ser que amanhã ele esteja mais firme ou volte a chorar…

Todos os comentários foram partilhados na escola durante os meses de fevereiro e março, quando as famílias estão imersas no processo de “entrega”, cada uma com seus questionamentos, dúvidas, choros e toda a sorte de sentimentos ambíguos provocados pelas manifestações de seus filhotes.

Com o passar dos dias, os vínculos afetivos entre as crianças e seus professores se concretizam, assim como as famílias também passam a identificar e a compreender alguns princípios que regem determinadas ações dos educadores. As dúvidas abrem caminho para observar as novas relações estabelecidas pelas crianças. O que era uma grande preocupação ou uma incerteza passa a residir num território mais seguro e confiável.

A entrada na escola ou a mudança de instituição representam múltiplos desafios vividos nos campos emocional, social ou acadêmico. Quantos sentimentos que as crianças não sabem e nem podem nomear, mas que são de extrema importância neste percurso de desenvolvimento! Para passar pelo período de adaptação das filhas e dos filhos e construir uma boa parceria com a nova equipe de professores, é importante:

– Saber que num dia a criança chega sorridente e no outro pode desabar num choro enorme – as reações ao novo variam muito, e os pequeninos precisam da garantia de que os adultos estão firmes e seguros no propósito de mantê-los na escola.

– Entender que a tranquilidade dos familiares é um fator necessário para que as crianças se aproximem de outros adultos, com os quais estão começando a estabelecer vínculos, e que, portanto, ainda ficam titubeantes diante deles, especialmente se os responsáveis por elas titubearem também.

– Deixar claro para as crianças que todos os combinados estabelecidos com seus professores serão cumpridos – hora de buscá-las, locais de espera, objetos guardados.

– Não oferecer nenhum tipo de recompensa (presentes), nem fazer alguma troca para que a criança deixe de chorar ou deseje ficar na escola – mesmo com todas as dificuldades que existem no período de adaptação é necessário que esse tempo seja vivido, chorado e comemorado como meio de compreender as demandas infantis e os avanços nas relações com pessoas diferentes daquelas já tão conhecidas.

– Conversar com outras famílias que já passaram por essa etapa da escolaridade dos filhos, porque a experiência ajuda a ponderar e a fazer previsões.

– Buscar apoio com a equipe da escola (coordenação, orientação e docentes) que explicitam algumas decisões e orientam certas práticas para favorecer diálogos nos momentos de maior fragilidade das crianças.

Assim, completando nosso segundo mês na escola, observamos novos encontros, acolhimentos e experiências. A maior parte das crianças já navega muito bem por aqui, apropriadas das pessoas, dos espaços e de todas as possibilidades, representando as trajetórias singulares de integração na Escola da Vila.

A alfabetização de nossos tempos

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Por Miruna Kayano, coordenação do Fundamental 1

Depois de quase um ano de trabalho intenso e conversas constantes em um grupo no qual a alfabetização é um dos focos de investimento, a professora organiza uma roda com todas as crianças e distribui algumas folhas que, para surpresa da classe, não estão em branco.

Alguém já escreveu aqui!“, uma das crianças comenta.

Tem nome, espera, é o meu!“, outra observa.

Pessoal, esta folha foi feita por vocês no começo do ano. Será que lembram? Vocês tinham que escrever uma lista dos cinco animais de que mais gostavam. Se não lembrarem eu posso ajudar vocês. Será que mudou alguma coisa na escrita que está aí no papel?“.

A turma toda se agita, começa a conversar, e uma verdadeira investigação se instaura na sala de aula. “Eu acho que aqui eu escrevi CACHORRO, mas eu não sabia que tinha o H no CHO…“, “Eu aqui escrevi MACACO, mas eu coloquei só o A, mas eu sei pelo nome da MARCELA que é o M e o A!“. “Nossa, eu escrevia muito estranho!!!!!“.

Colocar crianças no início de sua formação leitora e escritora diante de uma proposta que lhes ajude a tomar consciência de seu percurso de aprendizagem antes de chegarem a escrever de forma convencional faz parte de uma concepção que considera a alfabetização como algo que vai muito além de uma mera ação de decifrar um código, desvendar fonemas ou combinar sílabas. Esta e muitas outras propostas partem de uma ideia na qual todo processo de aprendizagem é resultado de um processo ativo e consciente do sujeito que aprende, e que, quanto mais consciente dos desafios, dos caminhos, das idas e vindas até aprenderem algo, mais poderão utilizar as novas habilidades construídas para estabelecer as aprendizagens subsequentes.

É possível alfabetizar “mostrando” sons, fonemas, sílabas isoladamente? Sim, é possível. É o mesmo que alfabetizar considerando as hipóteses das crianças, dialogando com suas ideias, mesmo que distantes provisoriamente da escrita convencional? Não, não é o mesmo. Porque ainda que, ao final, a escrita da palavra MACACO seja a mesma, ou seja, possível de ser lida por todos, o que a criança pode fazer com esta palavra, para além de escrevê-la por pedido de outro, dependerá inteiramente do percurso trilhado dentro e fora da escola.

Assim, alfabetizar não é considerar as crianças como sujeitos totalmente carentes de conhecimento sobre o alfabeto, os sons, as letras. Não é deixá-los esperando autorização de outros para escrever, não é dizer que só podem escrever palavras com estas ou aquelas sílabas que já conhecem. Alfabetizar é incentivá-los a analisar escritas, a pensar sobre estes registros com seus colegas, a olhar palavras com letras semelhantes, a tentar entender como as mesmas se organizam. É convocá-los a escrever, escrever, escrever, muito, e ler, ler, ler muito também, mesmo que de forma diferente daquela que nós adultos alfabetizados conseguimos entender.

Um processo de alfabetização que vai além de oferecer sons e sílabas considera que é essencial que as crianças saibam consultar todos os tipos de portadores escritos: listas, rótulos, tabelas, bilhetes, palavras, para que localizem a informação que desejam. Esta consulta tem o suporte constante e planejado do professor, mas não como alguém que possui exclusivamente o saber, mas como alguém que acompanha e desafia a encontrar mais e novas fontes de conhecimento, porque confia na potencialidade de cada um. O professor alfabetizador não é alguém que entrega informação, mas alguém que ajuda as crianças a estabelecerem relações, profundas, entre o que sabem, e o que o entorno lhes apresenta, para assim poderem tomar sua posição sobre como escrever.

Todo sujeito escritor precisará tomar uma posição. Se deseja escrever com estas ou aquelas palavras. Se usará tal pontuação. Se vai citar este exemplo ou deixará uma descrição. Se vai realizar perguntas ou registrar respostas. O sujeito alfabetizado é este, não o que reproduz algo que alguém lhe mostrou, mas um escritor que analisa todo o processo no qual está imerso e decide, de posse de inúmeras informações, quais utilizará para escrever o que deseja.

Assim, pensamos que alfabetizar é considerar não apenas as crianças de agora, mas também os sujeitos leitores e escritores que serão no futuro. Alfabetizar significa valorizar não só a escrita final convencional, mas tudo o que foi feito no percurso até que fosse alcançada. Porque tomando consciência do processo é que esses sujeitos podem reutilizar as habilidades construídas para outras situações e desafios a que a cultura letrada os convocará. Confiar em que podem investigar, buscar, que podem produzir mesmo sem ter certeza, pois o conhecimento pode ser ampliado por meio dos muitos recursos que existem à disposição. Uma verdadeira alfabetização sabe que não se trata de ter a informação, mas de saber de que forma utilizar toda a informação para aquilo que se deseja.


Artigo escrito para o Grupo Critique, e publicado em seu BLOG, em 21 de março.

Esta é a alfabetização de nossos tempos.

“Livros são para sempre”: O Centenário de Tatiana Belinky

Escola da Vila
Tatiana Belinky na biblioteca que leva seu nome, na unidade Butantã.

Por Fernanda de Lima Passamai Perez, mediadora de leitura e assistente de biblioteca

“Por que a criança não gosta de estudar?”
Na hora eu respondi: a criança não quer estudar, ela gosta de aprender. Estudar vem depois. A criança estuda o tempo todo: o ambiente, a vida, o mundo, ela estuda sem saber, mas o que a criança gosta mesmo é de aprender. Livro não é castigo, não é tarefa, não é chateação.
É uma delícia quando você o descobre.
Tatiana Belinky[1]

Há quase seis anos atrás, em 16/6/2013, leitores de todo Brasil se despediam da escritora Tatiana Belinky, que estava com 94 anos à época. Apesar da despedida, suas obras não deixaram e não deixam a melancolia tomar conta de seus leitores. Ao contrário, apesar da aparência frágil no fim da vida, essa senhora de opiniões contundentes e provocativas sempre demonstrou muita paixão pela vida, pelas histórias e não se deixava abater facilmente.

Vinda de São Petersburgo, na Rússia, passando por Riga, na Letônia, Tatiana chegou ao Brasil aos 10 anos. O primeiro texto em português que chegou às suas mãos foi Jeca Tatuzinho, de Monteiro Lobato, autor que conheceu pessoalmente e cujas obras a encantavam, tanto é que, já adulta, em parceria com o marido Júlio Gouveia, roteirizou para a televisão a primeira versão do Sítio do Pica-pau Amarelo, que Lobato não chegou a ver. Ao todo, foram 360 programas, ao vivo![2]

Tatiana, que falava russo, alemão e letão – idiomas aprendidos nos tempos em que morou em Riga, onde as placas de rua traziam informações nos três idiomas – traduziu várias obras escritas originalmente nesses idiomas para o português, como O Caso do Bolinho[3], um conto tradicional bastante conhecido e querido da criançada.

O Limerique[4] também era marca registrada da autora, que adorava brincar com as palavras. Inspirada pelo poeta Edward Lewis, que desenvolveu o Limerique a partir de um estilo de verso típico da cidade de Limerick, na Irlanda, Tatiana trouxe diversos temas para além do universo infantil nesse estilo bem peculiar de poesia, pois para ela “a criança pode ler o que quiser” (2012).

Para nós da Escola da Vila, e principalmente da Biblioteca Tatiana Belinky na unidade Butantã, manter viva a memória de nossa patronesse é fundamental. Diariamente somos inspirados por sua imagem (para quem não sabe, temos uma foto dela ao lado da porta de entrada) e seu legado, buscando desenvolver atividades que divirtam os leitores, mas que também estimulem seu desejo de investigar, de aprender e de compartilhar seus saberes.

Logo, como não poderia deixar de ser, o Centenário de nascimento de Tatiana Belinky tem que ser comemorado! Sim, 100 anos! E mais de 50 anos deles dedicados à literatura, ao teatro e a seus leitores.

Por isso, a partir de hoje, começaremos uma série de homenagens à autora nas três bibliotecas de nossas unidades, por meio da leitura de suas histórias, exposição de seus livros (muitos deles autobiográficos) e um Muralique — sim, ela também inspirou o nome de batismo de nosso mural — com informações e curiosidade sobre a autora.

Aguardamos toda a comunidade da Vila para uma visita!

Morrer é só despedida.
Não vale ficar nervoso.
Porém não curtir a vida,
Não viver… é horroroso![5]


[1] Em Livros são amigos para sempre. Entrevista a Marcos Beltramin. Cidade Nova, mar/2012, n. 3 (p. 23-25) disponível em:

[2]Em TV sem VT e outros momentos Tatiana Belinky descreve como foi produzir programas ao vivo, sem cortes diante de situações inesperadas. Tatiana Belinky. TV sem VT e outros momentos. São Paulo: Paulinas, 1997.

[3]Tatiana Belinky. O Caso do Bolinho. São Paulo: Moderna, 1990.

[4] Segundo a autora, “É uma fórmula de verso com cinco linhas: as duas primeiras formam rima entre si. A terceira e a quarta também rimam entre elas. A última linha rima com as duas primeiras”.

[5]Tatiana Belinky. O segredo é não ter medo; ilustração de Guto Lacaz. São Paulo: Editora 34, 2008.