O cuidar e o educar – um olhar a partir de diferentes abordagens

Escola da Vila - Abordagem Pikler

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Por Ana Paula Yazbek 

Há quinze anos, quando comecei o Espaço da Vila, o documento que inspirou boa parte de nosso Projeto Curricular foi o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNei), de 1998. E um dos textos desse documento tratava da questão do cuidar e do educar de uma maneira diferente da usual, não mais como uma polarização. Tornando-se um marco importante para o olhar sobre a primeira infância.

Nele, cuidar e educar eram considerados interdependentes, se entrelaçavam, rompendo com a dicotomia histórica, oriunda dos tempos em que o atendimento às crianças pequenas era de responsabilidade da assistência social. Quando não havia exigência de formação das pessoas responsáveis pelas crianças e a rotina estava na garantia dos cuidados básicos (alimentação, higiene e sono), enquanto as mães trabalhavam.

O termo cuidar durante muito tempo foi menosprezado pelos educadores, como sendo algo menor, pois considerava-se que o foco do trabalho deveria ser o educar, traduzido por oferecer propostas específicas às crianças para promover seu desenvolvimento, aprendizagem e inteligência. A educação infantil procurava se descolar da ideia de assistencialismo que o cuidar trazia consigo, até que os RCNeis trouxeram outro olhar.

Entretanto, ainda levou um tempo para que os educadores percebessem que o cuidar não era apenas garantir o bem-estar físico e emocional das crianças para que elas pudessem, assim, se envolver em propostas de aprendizagem.

As minúcias das situações de cuidado, a atenção aos detalhes, o trabalho delicado e sutil com as crianças não era foco de estudo dos educadores. Tornando muitas vezes a atuação mecânica, uma vez que o interesse destinava-se às reflexões sobre o que propor às crianças e como desafiá-las: quais histórias ler e como ler para elas; fazer um levantamento de propostas de arte; pensar em vivências musicais enriquecidas ou materiais diferenciados para a exploração das crianças, entre tantas outras coisas.

Muitas vezes, de uma forma muito bem-intencionada, os cuidados ainda eram tratados como algo menor. Até que começamos a entrar em contato com algumas abordagens focadas no trabalho com a primeira infância, principalmente com a Abordagem Pikler, que rompe completamente com a dicotomia entre o cuidar e o educar e traz a questão dos cuidados como algo primordial, que necessita ser estudado com muita atenção pelos educadores e cuidadores de crianças. Fazendo com que o olhar para essas situações ganhasse um foco bastante diferenciado, promovendo um salto na qualidade nas interações entre crianças e educadores. Ressignificando formas equivocadas de falar sobre os cuidados e o atendimento às crianças pequenas, como, por exemplo, a frequente queixa de que não estudamos tanto tempo para trocar uma fralda.

Na Abordagem Pikler é fundamental que se estude muito para realizar uma troca de fralda, é necessário redefinir quem é a criança, como interagir com ela, como falar, como esperar que ela corresponda ao que você está fazendo com ela. É preciso dar outro status para os diferentes papéis que adultos e crianças assumem nesse momento. Isto é, deve-se olhar para a criança e não para uma fralda suja que precisa ser trocada. É preciso se atentar ao tempo de espera, aos gestos que se fazem necessários, aos humores, numa sincronia de ações bastante diferente dos atos mecânicos que muitas vezes aconteciam e ainda acontecem nesses momentos de trocas de fraldas.

A partir do contato com essa abordagem, o pêndulo voltou-se preferencialmente aos cuidados e às ações genuínas das crianças pequenas, tornando as propostas sugeridas pelos adultos uma invasão ou interrupção em seus percursos.

Atualmente, no trabalho com as crianças pequenas, o pensar sobre seu cotidiano traz a urgência da integração efetiva entre o cuidar e o educar. Considero que devemos criar uma nova identidade para esse trabalho, uma identidade que efetivamente identifique o cuidar como algo primordial e identifique o acesso à cultura como um direito que devemos assegurar às crianças,

O desafio é conseguir integrar o cuidar e o educar de um modo efetivo e respeitoso, que considere quem é a criança à qual estamos nos dirigindo e considere os motivos pelos quais iremos oferecer-lhes contextos nos quais tenham acesso a histórias, situações de pintura, brincadeiras, momentos de construção e desconstrução, contato com a natureza, música, movimentos, junto com momentos dela consigo mesma num espaço coletivo. Esse é nosso desafio, e eu convido a todos que se dedicam ao trabalho com as crianças pequenas a enfrentarem esse maravilhoso desafio, porque quando a gente consegue parar para observar, interagir e refletir sobre as respostas das crianças, a gente aprende muito sobre o que fazer e o que propor a elas.

Uma ótima oportunidade para iniciarmos este diálogo será o encontro que acontecerá no dia 8 de abril: 0 a 3 em debate: reflexões sobre a Abordagem Pikler com os bem pequenos. Participem!

O que de especial tem este Centro?

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Por Fernanda Flores

“Uma cabeça bem feita vale mais do que uma cabeça bem cheia.” Montaigne

Na última semana de julho, o Centro de Formação da Escola da Vila recebeu, em sua programação de inverno, 320 profissionais da educação. Além da participação de parte significativa da equipe interna, foram muitos professores e professoras de cidades vizinhas e de outros estados que a eles se uniram para refletir e ampliar conhecimentos, alinhavando teoria e prática na construção permanente de uma escola que realmente mobilize e engaje os alunos e alunas a aprender mais, melhor e para a vida toda.

Sempre nos perguntamos como manter viva a energia que nos leva a deixarmos nossas férias e a nos dedicarmos a estudar e a compartilhar práticas, dúvidas e anseios. E, mais que isso, quais são os diferenciais daquilo que promovemos e que, há exatos 36 anos, segue atraindo e motivando um sem número de educadores a estarem conosco?

Consideramos, inicialmente, que somos uma instituição que entende o papel insubstituível do professor numa tríade entre o educador, o estudante e o conhecimento, na qual as perguntas, as propostas, os problemas, os desequilíbrios provocados e a crença nas capacidades individuais de aprender e avançar faz toda a diferença. E isso se lapida, se amplia e se compartilha.

Outro ponto sensível é que nossos professores formadores trabalham para criar espaços de formação, entendendo que devemos desenvolver contextos que promovam uma ideia defendida por Antonio Nóvoa[1], de que “cada educador assuma seu papel de formador inclusive de si próprio e dos colegas”.

Nem sempre as inovações no campo da educação se apoiam em práticas sustentadas em anos de vida escolar e produção autoral de conhecimento pedagógico, mas, no nosso caso, parece-nos que é essa construção de nossa equipe o que temos de melhor a oferecer aos profissionais que nos procuram.

Buscamos desenvolver, nos contextos de formação, aquilo que almejamos mais profundamente com nossos alunos e alunas, ou seja: provocar análises e trocas que fomentem as capacidades de estudar, de procurar, de pesquisar, de selecionar, de comunicar, de resolver problemas, pois consideramos inegociável que isso também componha as práticas de formação continuada para professores, seja qual o nível etário em que atuem.

Como defende Francisco Imbernón[2], a empatia, o trabalho em grupo e a comunicação com os professores são bidirecionais e extremamente importantes para que sejam compreendidas as situações a partir do ponto de vista dos professores que atuam em cena com seus alunos e alunas reais.

Entendemos ser esse o diferencial de quem busca oportunidades formativas em nosso Centro de Formação: profissionais que identificam nossos valores e crenças na formação do professor que reconhece a importância da prática sustentada em conhecimento didático, em estudo e, portanto, busca cursos e oficinas ministradas por quem pratica as ações sugeridas em seu dia a dia, por quem realmente entende a multiplicidade de desafios que nos envolvem no cotidiano escolar.

Assim, seguimos orgulhosos das ações que promovemos e certos de que, mesmo sendo mais árduo, este é o caminho que faz e sempre fará a diferença para quem acredita na formação continuada, autônoma e compartilhada.


[1] António Nóvoa é reitor da Universidade de Lisboa. Para saber mais sobre o que ele pensa acerca de escola e educação, segue entrevista para Carta Educação.

[2] Imbernón, Francisco. Formação Continuada de Professores. Artmed. Porto Alegre, 2010.

Para dar um passo adiante precisamos perder o equilíbrio

Reggio

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Por Andréa Polo e Juliana Karina

O título deste blog representa a fala de uma criança de três anos idade, que vive e frequenta uma das escolas de infância de Reggio Emilia, cidade ao norte da Itália, onde circula fortemente a ideia da criança competente, participativa, cidadã e detentora de direitos.

A cidade é um encanto! São árvores por todos os lados, praças públicas com espaço garantido para brincadeiras e descanso, construções antiquíssimas e bicicletas que transitam como veículo principal de transporte das crianças a seus “nonnos e nonnas”, que carregam em suas garupas seus “bambinos”.

Reggio

Essa cidade cultiva uma escolha pedagógica em seus mínimos detalhes quando acolhe em seu contexto político decisões que serão tomadas sempre em benefício da educação. Orgulham-se de sua história e contam-nos que pais e mães construíram as paredes das escolas com restos de tijolos e ferros retorcidos de casas bombardeadas durante a II Guerra, e com esses materiais fizeram a forte estrutura que apoia a construção das creches e escolas. Vimos que a maior força de sustentação está no grupo envolvido nos processos de trabalho: a cidade como um todo está plenamente convencida de que depois do sofrimento e da destruição causados pela guerra, só mesmo um esforço coletivo para recompor e dar significado ao que foi duramente retirado de cada família. Essas escolhas, principalmente as do investimento e respeito aos diretos da criança, garantem aos pequenos de hoje uma forte atribuição de sentido para as suas experiências e aprendizagens!

Reggio  Reggio

O que vimos nas escolas de Reggio, e que encanta educadores de todo o mundo, foram pessoas a serviço da comunidade, com o intuito de proporcionar múltiplas experiências às crianças, desde os seus primeiros meses de vida, e a desenvolver significativamente seus múltiplos sentidos. Educadores interessados nas interações, nas emoções, na sensibilidade e, acima de tudo, engajados para que as crianças assumam o controle de suas aprendizagens. Protegem-nas como num processo de construção partilhado, dão o tom a uma rotina que nos deixou maravilhadas. O encantamento também se dá por conta da forma como o respeito dos educadores ao tempo e ao processo de investigação infantil é valorizado. A criança é contemplada em suas falas, observações e buscas, ao mesmo tempo em que suas produções, ações e conquistas são evidenciadas e valorizadas.

Reggio

Em Reggio, o significado do que é exposto vai muito além da visualização dos trabalhos pela comunidade escolar. Por meio de inúmeras e delicadas investigações demonstram o valor e o espaço que o processo experimentado pelas crianças ocupa nesse ambiente.

Foi possível observar, ali, variadas linguagens artísticas e poéticas que falam por si, advindas das diferentes faixas etárias. Sem nenhum tipo de explicação dos educadores, nos vimos imersas num espaço de extrema criação de contextos! Foram dias para procurar caminhos impossíveis, menos óbvios. Em Reggio, pudemos reafirmar nossas convicções de que escutar uma criança não significa apenas ouvi-la, mas reconhecer todas as suas linguagens, e acima de tudo, confiar que ela é capaz de se expressar criativamente.

Reggio

Saímos de lá refletindo sobre as possibilidades que temos para tornar visível a essência da vida na escola! A cada dia, poder dialogar com quem não estava presente no momento − mas faz parte desta comunidade −, e revelar a potencialidade das crianças que observamos diariamente,seja por meio de suas falas, suas produções, seus gestos e ações…

Perdemos nosso equilíbrio, mas nunca nos sentimos tão fortalecidas para continuar cultivando o olhar sensível, atento às conquistas, à apropriação de novos conhecimentos, às curiosidades, às preferências. Um desequilíbrio que nos ajudará a revelar a persistência, o sentimento, o esforço das crianças em suas atividades que, diariamente, realizam na nossa escola.

Viagem a Reggio Emilia: Cem Linguagens da Infância

Reggio

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Por Daniela Munerato

Estivemos em Reggio Emilia, na Itália, participando de um grupo de estudos e visitando escolas de Educação infantil, com uma abordagem única criada por um jovem professor após a Segunda Guerra, Loris Malaguzzi, na qual o potencial intelectual, emocional, social e moral de cada criança é cuidadosamente fomentado e orientado, totalmente imerso na cultura da cidade.

A experiência de encontrar crianças em diferentes países é maravilhosa. Nossa observação aguçada evidencia a variedade nas condutas culturais, mas existe uma ideia que prevalece: criança é sempre criança e pode se expressar por diferentes linguagens!

Durante a viagem identificamos essa diversidade nos atos e nas produções das crianças e o desejo dos educadores em deixar claro o objetivo de favorecê-las. Estar atento à criança integralmente no seu desenvolvimento, observando sua individualidade, bem como acompanhando seus processos nos trabalhos em pequenos grupos.

Fala-se muito na escuta da criança, como o respeito a uma fase única e desconstruindo a ideia de um ensino em que o professor ensina e o aluno aprende, mas totalmente fundamentado nas relações, nas interações e no que pertence ao mundo da criança, sem antecipar condutas das crianças mais velhas. Ouvir com tempo, sem pressa, observar, tentar compreender, planejar “provocações que a façam avançar”.

A expressão, o sentimento, o olhar e a compreensão do mundo podem ser expressos por palavras, por meio das conversas, das músicas, da interação e no próprio cotidiano. Mas no mundo infantil a palavra tem um tempo, um tempo para acontecer, para ser elaborada, para ser compreendida. Quantas vezes o corpo fala primeiro, na linguagem do gesto, do carinho, da dança, da brincadeira e da representação. Não é assim que muitas vezes desvendamos nossos pequeninos? E não é este um dos caminhos pelos quais experimentam o desconhecido? O corpo que se move, pesa, equilibra, transforma, tem sombra…

Outra linguagem bastante utilizada e apreciada é a arte, na forma de pintura, de desenho, escultura, construção, realizada individualmente, em parceria ou coletivamente. Por intermédio dela a expressão e o registro de vivências, marcas e exploração de cada um no processo de aprendizagem que mostra um todo. Vale considerar que o planejamento, a gestão e a atuação dos educadores é fundamental. Observamos que variáveis como a luz natural ou artificial, o espaço organizado e o material proposto são importantes para a expressão das linguagens diversas.

O que é habitual passa a ser motivo de investigação e torna-se especial; a natureza é muito valorizada e observada. Como exemplo, cito um campo de margaridas, explorado por crianças de três anos de idade, que sentem a delicadeza das pétalas, observam como as plantas nascem, sua textura, seu volume no espaço em que habitam, e onde podem encontrá-las. O que podem aprender sobre uma planta comum na sua cidade? Como cuidar dela? Como oferecê-la sem arrancá-la? Como ter outros olhos para algo muito visto, mas nunca realmente observado, vivido!

Encontramos em Reggio muito em comum com o nosso trabalho, e muito também para acrescentarmos em nossa proposta. Seguiremos refletindo sempre sobre o nosso segmento para que a criança possa ser cada vez mais vista em sua totalidade, que a gente siga com o desafio de integrar socialmente escola e cidade e, quem sabe, começar pelo nosso bairro!

Experiências educacionais: High Tech High, Califórnia

Por Fermín Damirdjian

Em texto de minha autoria publicado neste blog, em março deste ano, fiz uma reflexão sobre o amplo contexto histórico e político no qual se insere a consolidação e a difusão da escola em seu formato convencional, tal como o conhecemos hoje. Sobre este formato, estou me referindo ao óbvio: a escola como um lugar com corredores que levam, como artérias, a seus órgãos principais, dentro dos quais se desenvolve seu bom funcionamento − as salas de aula, com os alunos todos voltados para uma mesma direção −, sendo o destino de seu olhar e ouvidos o professor que, auxiliado pela lousa, expõe verbalmente os conteúdos a serem aprendidos.

Mais do que qualquer descrição, há uma máxima que ilustra bem a situação: se um médico cirurgião de fins do século XIX adentrasse em uma sala de cirurgia atual não reconheceria o lugar; o mesmo não ocorreria com um professor: ele se sentiria em seu habitat sem maiores dificuldades. Não é uma imprudência afirmar que pouco ou nada mudou na escola desde o início da era contemporânea até os dias de hoje.

Dito isso, dando seguimento ao assunto, que está longe de se esgotar… Não faltam pensadores e experiências competentes ao redor do mundo que valham a pena ser consultadas e visitadas. Essa é uma das atividades promovidas anualmente pelo Centro de Formação da Escola da Vila. Dentre os diversos cursos e atividades de formação para educadores, há uma viagem anual para outros países da Europa, da América do Norte ou da América Latina a fim de conhecer algumas experiências que buscam um formato mais atual para a escola e a educação dos alunos deste século. Os quais diferem, e muito, daqueles garotos de cem anos atrás…

Em abril deste ano o Centro de Formação organizou uma viagem à Califórnia, onde se encontram algumas instituições expoentes de uma nova forma de conceber a escola. Visitamos escolas privadas e públicas, de diversos tamanhos e em diferentes âmbitos urbanos, em regiões centrais, em subúrbios, e em localidades mais distantes. Vou me concentrar na High Tech High Chula Vista, escola pública de modelo charter, localizada em San Diego, enquanto meus colegas estão abordando outras descrições neste mesmo blog.

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Há várias High Tech High na Califórnia. Todas elas gerenciadas segundo o modelo charter, o qual consiste em uma composição entre administração pública e privada. Grosso modo, trata-se de verba pública voltada a gastos estruturais básicos, os quais podem ir desde a construção do prédio até salários dos docentes, passando por custos elementares como energia e materiais essenciais. Por outro lado, há injeções inconstantes de fundos privados e oriundos de fundações destinados a projetos específicos. Isso pode variar, desde algumas centenas de dólares que saem dos bolsos das famílias para um breve trabalho de campo, até um programa de investimento tecnológico com duração de dez anos proveniente da Fundação Bill Gates. Em suma, os nutrientes essenciais são garantidos por fundos públicos, enquanto professores e diretores perseguem fundos específicos, garantindo constantes inovações didáticas.

Citarei um exemplo que permitirá melhor visualização do que foi descrito. The Tiny Home Project foi uma atividade realizada pelos alunos do ninth grade (14 anos) ao longo do ano letivo. A partir da constatação de uma carência urbana pontual, os alunos desenvolveram, com um escritório de arquitetura, projetos de casas de baixo custo a serem habitadas por artistas de San Diego. Em início de carreira, os futuros ocupantes carecem de um lugar para viver e produzir. Por outro lado, identifica-se um determinado bairro da cidade que tenha espaços favoráveis à sua ocupação, pelo êxodo de seus habitantes e abandono de algumas áreas. Os estudantes tomam parte nesse trabalho mediante o mapeamento dos hábitos e necessidades de seus futuros moradores por meio de entrevistas, para logo elaborarem o projeto gráfico, as maquetes e, por fim, a construção efetiva dessas casas. Isso envolve âmbitos de saber que vão das ciências sociais à geometria, passando por cartografia e questões urbanas. O andamento desse trabalho pode ser acompanhando no site Tiny Homes Project.

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Isso foi explicado pelos alunos que nos receberam. Sendo uma referência internacional de um novo modelo educacional, a High Tech High Chula Vista recebe milhares de visitantes todos os anos. A circulação pela escola é realizada com os alunos, que assumem o papel de ambassadors, e o visitante pode observar em detalhes o cotidiano da vida escolar por intermédio deles. Esses alunos têm referenciais importantes de como ouvir e falar com os visitantes, inclusive estrangeiros, mostrando-lhes a escola e seus projetos. Os alunos mais antigos vão treinando os mais novos ao longo do tempo, mantendo uma característica peculiar de apropriação da escola no corpo discente, independentemente de quais alunos compõem o grupo.

Há outros projetos que indicam um forte grau de apropriação do espaço escolar, aliado ao desenvolvimento de várias habilidades. Parte dos brinquedos do playground da ala infantil da escola, por exemplo, foi elaborada pelos alunos mais velhos. Isso envolveu observação de demandas dos alunos pequenos, bem como seus hábitos e carências no espaço físico da escola; invenção dos brinquedos para o parquinho, com respectiva pesquisa de materiais disponíveis no mercado, levantamento de custos e arrecadação de valores, segurança no uso, estética, resistência e manutenção dos materiais foram o trajeto desse trabalho.

A ocorrência de uma tragédia abriu caminho para um outro projeto bastante complexo. O padrasto de um aluno assassinou a este e a sua mãe, e em seguida se suicidou. Para além dos rituais possíveis para elaboração de tamanho impacto na comunidade, alguns professores desenvolveram com seus alunos uma ampla pesquisa sobre a violência na sociedade norte-americana. Além do valor intrínseco a uma pesquisa de cunho social e antropológico em torno de tema tão complexo, produziu-se um documentário e um memorial nos jardins da escola. Um mural com a descrição desse projeto pode ser visto em “How can we reduce the violence on US?”

Nessa instituição, com fortes características de aplicação prática do saber, não faltam salas de aulas e lousa. No entanto, é importante destacar que a disposição das mesas e cadeiras não é uniforme, nem voltada para um mesmo lado, mas em geral dispostas para a formação de grupos. Não faltam, também, mesas nos corredores da escola e nos jardins. Não é mero detalhe o fato de que todas as carteiras têm rodinhas, e muitas das mesas são dobráveis, de modo a abrirem grandes espaços livres em sala sem grande esforço. A disposição física é, de fato, adaptável aos propósitos de cada turma, de cada disciplina, de cada projeto. O objetivo didático é o que prevalece sobre o formato das atividades, e da escola como um todo.

O ingresso dos alunos à instituição é feito por sorteio simples, para uma área da cidade que abrange bairro e distritos muito distantes entre si. São contempladas comunidades muito diferentes, tanto no plano socioeconômico quanto cultural. Os professores têm salários mais baixos que os das escolas públicas convencionais, mas sentem-se mais livres para criar e percebem uma vivência mais autêntica por parte dos alunos no que diz respeito a seu processo de aprendizagem. Foi o que me disse uma professora enquanto fazia um piquenique com os alunos, atividade semanal que lhe permite um contato extraclasse para tratar de assuntos pessoais ou coletivos com o grupo que está a seu cargo. Bem longe da lousa.

Uma viagem, um jardim

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Por Priscila Maria Sbizera

Segunda-feira, 25 de abril, desembarco em Guarulhos com a cabeça a mil. Não, pelo menos não desta vez, belas paisagens de viagem ocupavam meus pensamentos enquanto caminhava pelo aeroporto e navegava de volta na cidade do caos. Desta vez o que não parava de latejar, como uma dor pulsante que incomoda, era a experiência de imersão nas escolas americanas ao longo de sete dias. A busca pelo novo e incessante conhecimento sendo atendida. As palavras, não só as dos educadores que nos atenderam, mas também as dos alunos em suas apresentações, ecoavam em minha memória.

Se fosse para descrever tudo o que me tocou nessa viagem, esse relato talvez demorasse a ter fim, pois quase como uma história que puxa a outra, haveria sempre muito mais para contar. Por essa razão, escolhi aqui relatar exatamente o que mais permeava as minhas reflexões durante o longo caminho de volta e que, confesso, até agora, quase vinte dias após as visitas, ainda me mobiliza.

Dentre outras escolas, visitamos duas unidades da escola High Tech, uma em Chula Vista e outra em Point Loma, dois lugares muito distintos de San Diego. A proposta pedagógica dessa escola tem como um dos princípios o trabalho por meio de projetos, organizados e encabeçados pelos professores, nos quais o protagonismo dos alunos é assumido como grande essência.

Ao entrarmos em ambas as unidades, após sermos brevemente recebidos pelos profissionais responsáveis, fomos apresentados a grupos de alunos que nos tutoraram. Na primeira unidade, um grupo de alunos do Ensino Médio foi responsável por nos apresentar a escola e nos explicar as diversas facetas do trabalho desenvolvido, bem como nos informar sobre a estrutura da unidade. Já na segunda, quem se ocupou dessa tarefa foi um grupo do Ensino Fundamental II. Soubemos, por exemplo, como as turmas são divididas, os projetos são elaborados, as questões disciplinares são tratadas, os professores são selecionados, e como funciona o sistema de avaliação. A prática de apresentar a escola para visitantes (de quaisquer cantos do mundo!), está tão incorporada pelos alunos, que os mesmos tratam sobre temáticas diversas da escola com muita propriedade, naturalidade e de maneira bastante didática, que quase nos esquecemos de que são, ainda, jovens alunos. Achei lindo de se ver! E eu, que sou professora de Ensino Fundamental I, fiquei ainda mais encantada quando, em um momento de observação livre pela escola, Fernanda e eu entramos em uma classe de 3º ano que estava vazia e fomos surpreendidas, em determinado momento, pela tutoria de três pequenos alunos.

Estávamos observando os registros afixados nas paredes da sala acerca do projeto que estava acontecendo na turma. Vimos muitas anotações, gráficos, histórias e outras produções sobre bichos de jardim. Enquanto íamos costurando o que víamos para entender o que se desenvolvia, professora e alunos entraram na sala. Ela nos cumprimentou e, vendo que estávamos interessadas em compreender o projeto, perguntou quem dos alunos gostaria de apresentá-lo. Praticamente todos os alunos se candidataram e, sem muitos critérios, a professora designou a tarefa para três crianças. Mas eles eram tão pequenos… Enquanto a professora e os colegas seguiram para o parque, com uma desenvoltura ímpar, os três se apresentaram, perguntaram os nossos nomes e nos conduziram até a área externa da escola, de encontro a um lindo jardim. Nele, cada pedacinho era destinado a uma espécie de animal. Havia plantas e objetos específicos para cada bichinho. Vimos até um parquinho de diversões construído com sucatas especialmente para as minhocas! Naquela doce mistura de conhecimento e imaginação, ficaram nítidas as intenções didáticas da professora e, sobretudo, que o planejamento do trabalho e as decisões envolvidas foram sendo tomadas pelas crianças. Elas sabiam explicar muito bem o motivo das coisas, como controlar toda aquela engenharia e o que haviam aprendido fazendo tudo. Mostravam-se donas da situação, falavam com muito orgulho e autonomia, tanto dos problemas como das virtudes que viam no projeto. E eram tão pequenas… E eram tão autoras de tudo aquilo…

Pois bem! É nessa educação que acredito. Talvez seja por isso, especificamente, nessa situação que tanto me mobilizou. Enquanto eu via e ouvia aquelas crianças, mesmo de longe, era como se eu visse e ouvisse os meus alunos. Aos poucos, consegui pensar em quantas coisas os meus alunos (desse e de outros anos) decidiram e assumiram, e em quantas outras eles ainda terão de se decidir e assumir pela escolaridade afora: Para quem vou escrever o meu texto? Onde encontro informações sobre os povos pré-colombianos? Como construo o meu planetário? Como desenvolvo uma campanha pelo consumo consciente da água? Quem pode me ajudar a entender melhor essa estratégia de divisão?

Tomada pelo ofício diário e por todo o embasamento teórico indiscutivelmente necessário, talvez eu tenha (re!)encontrado nessa experiência (tão singela e ao mesmo tempo tão grandiosa!) a beleza daquilo que vivo diariamente e tenha me certificado de que do nosso jeito singular de ser escola, de ser a Escola da Vila, queremos e lutamos para que os nossos alunos sejam os principais atores da aprendizagem, criem e vivam intensamente cada um de seus diferentes, particulares jardins.

Impactos da viagem pedagógica 2016

Por  Sandra Baumel Durazzo 

Visitar escolas em outros contextos é sempre uma experiência transformadora. Como já relatado pela Fernanda Flores, na recente viagem à Califórnia, o grupo teve o privilégio de conhecer projetos educacionais fantásticos. Entre muitos aspectos que os fazem ser merecedores desse adjetivo, destaco três que me chamaram a atenção: o protagonismo dos alunos em seu próprio percurso de aprendizagem, o valor da exposição dos produtos dos projetos e a formação dos professores.

A primeira escola visitada, Brightworks, em San Francisco, nasceu da observação de um engenheiro de software, sem filhos, de que as crianças de hoje são muito “protegidas”. Por protegidas ele entende “sem a possibilidade de experimentar perigos, desafios manuais e intelectuais, porque são mantidas em espaços fechados, constantemente supervisionados por adultos, que não permitem que eles vivenciem situações de rua”. Inicialmente trabalhando com cursos de férias e propostas extracurriculares no formato de oficinas makers, ele decidiu ampliar essa proposta para uma escola. Juntou-se com uma educadora, diretora de escola pública, que estava insatisfeita com as propostas educacionais para seus três filhos, e instalaram uma escola dentro de um galpão que já havia sido uma fábrica de maionese e um estacionamento de táxis. Sem construir salas com paredes, fizeram casas de madeira, no estilo “casa da árvore”, e ali começaram, com 19 alunos, uma proposta que pretende promover experiências ricas para esses estudantes. Hoje, com 64 alunos e crescendo a cada ano, a escola organiza o currículo em grandes temas, que são os mesmos para todos os grupos, e geram diferentes questionamentos e projetos abarcando os conteúdos de todas as áreas. O período (aproximadamente um trimestre) começa com a apresentação do tema e de propostas investigativas colocadas pelos professores, o que leva a desdobramentos liderados pelas perguntas, pesquisas, dúvidas e novas propostas dos alunos. Ao final da primeira fase, são as crianças e os jovens que devem elaborar uma forma de expressar o aprendizado por meio de algum projeto. Esses projetos são submetidos à aprovação dos diretores da escola e, com isso, ganham enorme seriedade tanto do ponto de vista da confecção quanto do rigor acadêmico.

brighthouse

brighthouse

Percebe-se que o aluno toma para si a responsabilidade por aprender. Tanto no início, quando participa e tem voz nas investigações e estudos, quanto no momento de tomar consciência de seu aprendizado e ainda elaborar uma forma de transmiti-lo. Os projetos são depois expostos e muitos deles, como é comum em tantas escolas que visitamos, saem da escola e buscam interlocução na cidade, na comunidade ou no bairro.

O grande desafio para uma proposta como essa, a meu ver, é a formação da equipe de professores. Todos os adultos da escola se envolvem na tarefa de fomentar o aprendizado por meio de experimentação, e isso só pode acontecer se houver intensa atividade formativa nesse sentido. Em todas as escolas que visitamos, os professores são preparados usando estratégias similares àquelas que usarão com os alunos: instâncias de reflexão sobre a prática; discussões abertas buscando não uma verdade única, mas possibilidades de questionamento e aplicação de saberes das disciplinas; vivência na metodologia usada; e muitas revisões de decisões ao longo do caminho, tomadas sempre em equipe.

Outras escolas mostram o protagonismo do aluno de forma diferente. Na Summit, uma rede de escolas públicas, todo o currículo das disciplinas é trabalhado por meio de uma plataforma online. As aulas são virtuais e contam com tudo o que as nossas aulas tradicionais têm: exposições do professor; propostas de pesquisa e discussão a partir de um input dado, como um documentário, um filme, um texto, uma palestra; exercícios de prática e ampliação do conteúdo; etc. Só que cabe ao estudante organizar seu tempo e passar pelas várias “aulas” de cada disciplina. Ele tem que cumprir o programa, mas organiza seus estudos como achar mais adequado. Ao final de cada sequência, ocorre a avaliação, e a próxima etapa só fica disponível se o desempenho for adequado na anterior. Na organização do tempo escolar, há um horário definido para trabalhar na plataforma. Nós chegamos a uma unidade Summit exatamente nesse momento – Personalized Learning Time – e foi impressionante vê-los trabalhando. Em primeiro lugar, há um silêncio enorme na escola. Não se ouve um ruído a não ser vozes muito baixas trocando ideias, ou teclas sendo apertadas. Além disso, eles se comportam exatamente como jovens de qualquer lugar: sentam-se no chão, em duplas, sozinhos, nas mesas, enfim, onde acham que o espaço é adequado para seu estudo. Nesse momento, os professores atuam como orientadores, acompanhando também virtualmente o caminho do aluno e chamando-o para oferecer-lhe ajuda em qualquer coisa de que precise: na organização do tempo, na distribuição de tarefas pelas várias disciplinas, dando apoio em uma matéria ou conteúdo específico que o aluno demonstre não ter aprendido, analisando seus resultados nas avaliações.

Summit_personalized_learning_time

Além desse momento, os alunos participam de projetos que são liderados pelos professores, os quais abarcam os diversos conteúdos aprendidos nessa plataforma, mas são totalmente guiados pela investigação e pela ação dos alunos. Como nas outras escolas, a aprendizagem baseada em projetos está em prática e requer tanto a implicação dos alunos como a preparação dos professores para liderá-la. As paredes são tomadas por produções dos alunos, avisos de apresentações, frases que traduzem conclusões ou indagações sobre os projetos.

O que chama a atenção em todas as escolas que visitamos e na conversa com os alunos é o orgulho que eles têm de suas produções. A relação dos alunos com o produto exposto é real, e é o grande motivador da aprendizagem. Eles não fazem para tirar nota, mas porque o produto existe e será entregue a um destinatário

Visitamos também uma escola na região da Bay Area, a Lighthouse, escola que conta com um Creativity Lab. Lá nós passamos por um workshop que é usado na formação dos professores: Vivenciamos um momento de exploração, usando a ideia de aprendizado centrado em colocar a mão na massa, chamado de making-centered learning. Nós passamos pela mesma experiência que os alunos, percebendo que fazer realmente traz enormes possibilidades de aprender, e que esse aprendizado é totalmente apropriado pelo aprendiz que faz. A aprendizagem é dele, para satisfazer as necessidades e/ou as curiosidades dele! Parece óbvio, mas só vivendo a experiência para saber a dimensão dessa vontade de saber mais que é despertada ao literalmente desmontar um headphone!

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E todas essas escolas contam com resultados excelentes. Seus alunos entram nas faculdades para cursar o que eles chamam de 4-year-college, ou seja, para conseguir uma graduação relevante (major degree). Sua média de aprovação e retenção nas faculdades é muito acima da média do estado e do país (aproximando-se ou alcançando 100% de seus alunos), especialmente em meio à população atendida pelas escolas públicas, que são filhos de imigrantes, latinos em sua maioria, com pouca ou nenhuma história de estudo na família.

É assim que se vence a desigualdade. E só.

Anotações de Viagem

Por Fernanda Flores

Esta semana iniciamos um período de publicações no blog da Vila para compartilhar nossas impressões sobre as experiências pedagógicas, que conhecemos na viagem à Califórnia, realizada há duas semanas.

Foram quatro pessoas representantes da Vila, e com nossas lentes pessoais procuraremos traçar um panorama daquilo que mais nos cativou e mobilizou durante os cinco dias de visitas, nos quais conhecemos cinco projetos pedagógicos arrojados, instigantes e consistentes.

Para começar, apresentamos um sobrevoo pelas escolas visitadas e selecionamos imagens que possam mostrar um pouco do DNA de cada instituição. Já nos próximos textos, destacaremos aspectos que especialmente nos fazem pensar em possíveis diálogos com o nosso projeto pedagógico.

Brightworks

Ficamos impressionados com o senso de grupo e a apropriação do espaço escolar pelos alunos, que organizam os espaços de aprendizagem na medida das necessidades dos projetos, contando com uma oficina de construção que é o coração da escola.

A ideia de escola democrática, na qual as crianças encontram espaço para seus projetos coletivos e individuais há de ser destacada. Como uma escola nova, surgiu de um forte compromisso com a inovação e a criatividade, marcas visíveis em cada detalhe, que pudemos constatar.

Summit Schools

Em parceria com Mark Zuckerberg (fundador do Facebook), as escolas Summit têm um dos mais arrojados projetos de diferenciação de ensino, por meio da PLP (Personalized Learning Plan), uma plataforma de ensino individualizado, que organiza a vida do estudante para que este possa ajustar suas demandas ao projeto coletivo de trabalho em curso, dando ênfase à diferenciação dos processos de aprendizagem quanto ao ritmo e à profundidade. Muitíssimo interessante, e temos de nos debruçar para entender seus usos e possibilidades!

Lighthouse

A ideia de aprendizagem em profundidade e de pôr a mão na massa é muito forte nessa instituição. Fomos recebidos por estudantes em seu último ano, contando de sua experiência, vindos de uma comunidade muito desacreditada social e economicamente, e têm clareza do impacto do projeto da escola em suas trajetórias. Destaca-se a clareza dos valores institucionais e, sobretudo, o diálogo com projetos de autoria tutorados pelos professores.

Evergreen

Essa escola de Educação Infantil se destaca pela qualidade das reflexões da equipe de professores e de sua diretora. Por meio da abordagem “acreditar e duvidar” como guia das conversas com as crianças, trabalham com projetos, onde arte, linguagem e ciência são centrais. O manejo do tempo cotidiano e os registros das crianças são marcas centrais inspiradoras para repensarmos pontos no trabalho com os pequenos.

High Tech High

Passamos três dias visitando, observando e trabalhando com a equipe dessa fantástica escola. Primeiramente, os princípios de trabalho tão evidentes em todos os corredores e nas falas entusiasmadas de professores, alunos e alunas. Grandes ou pequenos, não se cansam de mostrar seus projetos e contar o que estão aprendendo! Mas, além de tudo isso, um projeto consistente, rigoroso, com marcante autoria do professor e dos estudantes. O enfoque metodológico é visível nas várias mostras das produções intelectuais, compartilhadas como processos e produtos de muito investimento pelas turmas, organizadas de múltiplas formas para garantir o princípio da cooperação e da diversidade, centrais também em nosso projeto.

Nos próximos textos exploraremos mais detidamente variáveis comuns a esses projetos, pelo viés de análise que conversa com a experiência de cada um dos viajantes da Vila. Acompanhem!!!

Viagens pedagógicas 2016/2017

Viagem pedagógica

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Por Sônia Barreira

Na primeira vez que estivemos com um grupo de educadores na Califórnia não sabíamos o quanto aquela vivência nos impactaria. É claro que imaginávamos que veríamos coisas interessantes, boas propostas, uso de tecnologia, e também novos pontos de vista sobre o trabalho pedagógico com os alunos de diversas idades. Mas não tínhamos ideia do tamanho da surpresa!

Quando o Centro de Formação organiza uma viagem pedagógica tem a intenção de promover experiências relacionadas a temas tratados em seus programas formativos, e não, necessariamente, conhecer escolas de vanguarda, inovadoras. A ideia é promover uma imersão em contextos distintos dos habituais. Nesse sentido, não importa se o que encontramos pela frente é fantástico e poderemos reproduzir, se é discutível porque não condiz com nossos princípios, ou se é instigante, mas não aplicável. Os três tipos de vivência são importantes para nossa reflexão e para o aperfeiçoamento de nossas práticas!

O subproduto é a troca intensa que o convívio prolongado permite entre profissionais de escolas diferentes. Bem, nem sempre diferentes porque já temos um grupo fiel, que participa com muita frequência dessas viagens. Então, nesses casos, aprofundamos nosso relacionamento profissional e pessoal.

Na viagem do ano passado, para Nova Iorque, fomos bombardeadas pelo grupo que insistia para que promovêssemos novamente a viagem para a Califórnia, dado seu potencial formativo. Essa avaliação foi ao encontro da nossa, e, apesar da alta do dólar, decidimos voltar a San Diego, São Francisco e Santa Mônica.

O grupo, menor que o de costume, compõe-se de 13 profissionais. Todos eles com o compromisso de, na volta, reproduzir para suas equipes tudo o que conheceram e, mais ainda, com reflexões a respeito do que viram.

Enquanto o grupo parte para sua aventura pedagógica, nós, que ficamos por aqui, já estamos dando tratos à bola para planejar a viagem do próximo ano. Dois temas nos inspiram − o escolhido como nosso tema anual – a construção de um ambiente favorável às aprendizagens; e a organização curricular, derivada das discussões sobre a Base Nacional Comum, que deve circular entre nós em sua versão final ainda este ano.

Austrália e Nova Zelândia? Chile e Argentina? Espanha e Inglaterra? Ainda não sabemos, mas as pesquisas estão a todo vapor.

Sugestões?

Por que professores precisam fazer cursos online?

cursos online

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Por Zélia Cavalcanti

Em 2001, quando a Escola da Vila se aventurou em ações de formação online e criou a Escola de Professores¹ com quatro cursos relacionados à alfabetização, a internet era discada, acessível a poucos professores, e muito menos a escolas, as ideias relacionadas ao papel das TIC nos processos de ensino e aprendizagem começavam a ser desenvolvidas, e ainda não se ouvia falar em ensino híbrido. Mesmo assim, algumas dezenas de educadores, a despeito dos reduzidos recursos de comunicação que seus computadores ofereciam, se aventuraram por uma região ainda praticamente deserta. Foram pioneiros numa modalidade de atualização profissional que, de lá para cá − e lá se vão 15 anos −, se tornou uma necessidade inegociável.

Qualquer pessoa − um familiar ou um professor − que deseje ou precise educar crianças e jovens nascidos na era digital  tem de conhecer e saber usar o amplo espaço de possibilidades que o universo online coloca à disposição de quem tenha acesso a algum dos diferentes aparelhos disponíveis: conhecer por meio de navegações exploratórias, pelas veredas digitais oferecidas em diferentes formatos − sites de conteúdos ou de busca, redes sociais, múltiplos aplicativos etc. −  e saber utilizar de forma consciente, isto é, a partir de uma atitude de análise crítica sobre o valor educacional dos espaços a que crianças e jovens poderão ter acesso em casa ou na escola. Em outras palavras, quem pretende educar precisa ser mais que um “habitante” desse universo: tem de saber intervir, limitar, orientar, sugerir, acompanhar seus rebentos ou alunos.

Porém, diferentemente dos pais, os professores devem ir mais além: precisam conhecer o universo online como espaço de aprendizagem. Saber, sobretudo, das vantagens e desvantagens que oferece frente à experiência das situações de ensino e aprendizagem presenciais, e aprender a utilizar aquelas que beneficiarão sua docência.  E, para isso, não basta ler sobre o tema, ouvir palestras sobre as vantagens e desvantagens das TIC em sala de aula, e identificar as diferenças entre as “velhas” e as “novas” formas de ser um bom professor, sem dúvida, procedimentos importantes, mas não suficientes. Os professores têm de colocar “a mão na massa”, ou melhor, os dedos no teclado e os olhos nas telas.

Quero dizer que acredito não haver melhor maneira de o professor aprender como se ensina e se aprende utilizando as mídias digitais, colocando-se no lugar do aprendiz, experimentando ser um aluno online. Isso porque, enquanto se atualiza em um tema que considera importante para a prática pedagógica, o professor pode refletir e aprender sobre a qualidade das propostas e interações que um ambiente virtual de aprendizagem pode promover, conhecer seus recursos e desafios específicos. Além de, pelas próprias características da modalidade, poder gerenciar com muito mais autonomia os tempos e espaços que disponibilizará para essa atualização, característica não menos relevante diante das numerosas responsabilidades da tarefa docente.

Se lá pelos idos dos anos 2000 nossos “pioneiros” na formação online tiveram de enfrentar o desafio de incipientes recursos tecnológicos para a realização de propostas, a grande maioria dos professores, hoje, não tem mais esse problema, inclusive porque não vive sem as funcionalidades oferecidas pelos Smartphones.  Ou seja, os professores têm à mão (literalmente) aparelhinhos suficientemente inteligentes para se transformarem na porta de entrada para o presente e o futuro de sua profissão.

Por isso, não é negociável.


¹ Ambiente construído em parceria com um portal de fornecimento de conteúdos para a sala de aula.