A leitura compartilhada nas classes de fundamental I.

Por Andréa Luize (coordenadora do núcleo de práticas de linguagem)

A leitura de textos literários ocupa um espaço bastante significado no trabalho com práticas de linguagem, aqui na Vila, ao longo de toda a escolaridade. Formar leitores autônomos, com um amplo repertório de critérios de escolha e com possibilidades de analisar e de falar sobre literatura é a meta que temos. E é justamente para atendermos a essa meta que, nas salas de aula, tantas são as entradas dos textos literários: as leituras feitas pelo professor para as crianças, as visitas à biblioteca, as rodas de biblioteca, as reescritas e escritas de versões e as leituras compartilhadas. Essas últimas, a partir do 1º ano, passam a ser atividades habituais na rotina das crianças: acompanhar, em seu próprio exemplar, a leitura de um título a ser feita pelo professor.

As leituras compartilhadas destacam-se como situações favoráveis à reflexão e à discussão sobre o lido. São momentos dedicados à apreciação, à troca de impressões e opiniões e ainda à análise de elementos literários, entre eles, o papel do narrador, as mudanças vividas por um personagem central, as motivações de personagens para determinadas atitudes, a linguagem usada pelo autor para se referir a um evento ou mesmo para descrever personagens e situações, o tempo em que se passa a história e o tempo em que é contada, etc. Para que ampliem suas possibilidades de compreensão e apreciação é fundamental que contem com a mediação do professor,  que tem a função de favorecer e instigar a observação de aspectos da obra que passariam despercebidos e que se colocam como necessários para a atribuição de sentidos e de significados. Do mesmo modo, contam com a oportunidade de confrontar diferentes interpretações, já que há um grupo de alunos debruçando-se sobre um título.  Trata-se, assim, de um espaço também oportuno para colocar as crianças em contato com obras e autores mais desafiadores, digamos assim, em comparação aos livros que elas tendem a ler sozinhas, afinal, contarão com o apoio de um leitor bastante experiente, um mediador: o professor.

Ter o livro em mãos permite retornos individuais e sistemáticos ao que já foi lido, apoiando discussões, já que as crianças buscam na própria história exemplos e pistas para construir suas argumentações ou mesmo para formular perguntas. Também o professor propõe questões para discussão que demandam essa retomada de trechos já conhecidos. Ao longo da escolaridade, a leitura compartilhada passa, gradativamente, a ser dividida entre a leitura em classe e a leitura individual: alguns capítulos são encaminhados para leitura autônoma e, depois, discutidos nas aulas. Estamos, assim, trabalhando para que as análises feitas em classe contribuam para a compreensão do texto por parte de cada aluno.

A seleção de títulos para estas propostas é algo feito a partir de múltiplos critérios. É essencial considerarmos a progressão de desafios ao longo das séries: se iniciamos com títulos com várias histórias que podem ser lidas, cada qual, numa única sessão (como Mitos Gregos, no 1º ano, Contos de bichos do mato  e Ielena, a sábia dos sortilégios, no 2º ano) avançamos para histórias entrelaçadas, com narradores diversos e complexos, como em As mil e uma noites ou em Minha querida assombração,  títulos trabalhados no 5º ano.

Além da progressão, procuramos eleger títulos que oportunizem análises amplas, favorecendo a construção de novos conhecimentos por parte dos alunos. É assim, por exemplo, que Manolito, entra no 3º ano, permitindo a discussão sobre o narrador e seu ponto de vista: será realmente que tudo o que é dito e descrito por esse narrador personagem é mesmo assim? Como será que o mesmo fato seria contado por um colega de Manolito ou por sua professora? Será que usariam a mesma linguagem, veriam as mesmas coisas? Aqui, está em jogo, aprender a ler textos narrados por um personagem e aprender a ler além do que ele nos conta.

Há ainda outros critérios que influenciam nossas escolhas: mesclar autores brasileiros, como Ricardo Azevedo, Tatiana Belinky, João Carlos Marinho e Reginaldo Prandi, com autores estrangeiros, ocidentais, como Edith Nesbit e C.S. Lewis, e orientais, como Linda Sue Park; apresentar clássicos, tendo autores como Monteiro Lobato e Jack London ou histórias da mitologia grega.

A escolha das obras é feita a partir de várias leituras, de vários olhares; professores, coordenadores, orientadores e profissionais da biblioteca podem atuar na seleção de um corpus inicial, na discussão sobre cada obra e suas possibilidades e na pertinência dos títulos a cada momento da escolaridade e ao currículo. Contamos também com o apoio de olhares de especialistas, apresentados em resenhas críticas, como as que compõem a Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil (1), afinal, precisamos selecionar títulos de qualidade, desafiadores e interessantes para nossos pequenos e jovens leitores.

As leituras compartilhadas, assim como os demais espaços destinados ao contato com a literatura, contribuem para a participação dos alunos numa comunidade escolar de leitores, na qual avançam não apenas em suas competências para enfrentar obras e autores diversos, mas também em suas possibilidades de refletir, analisar e argumentar.

4 ideias sobre “A leitura compartilhada nas classes de fundamental I.

    • Ler para os alunos é algo fantástico mesmo, vc tem razão. E isso vale, inclusive, para quando são maiores e podem ler muitas coisas autonomamente. Há sempre livros que poderão ser mais apreciados pelos alunos com nossa mediação.
      Um abraço,

      Andrea Luize

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