Coisas de criança

Escola da Vila

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Por Daniela Munerato

[...] na praia do mar de mundos sem fim, crianças brincam…
                                                                  Tagore¹

Se olharmos nosso cotidiano e observarmos as crianças poderemos perceber que há um limite bastante tênue entre o mundo da criança e o mundo do adulto. Mas, na verdade, essa reflexão nos leva a importantes desdobramentos. Por aqui, terão destaque apenas alguns, para iniciarmos a questão.

É bom ou divertido antecipar momentos? Acompanhamos em nossa sociedade adultos incentivando a criança a viver situações antecipadas, com agendas cheias de compromissos, celulares disponíveis nos momentos livres, com desafios propostos por jogos e situações solitárias, a ausência de brinquedos, de passeios a parques, de histórias com personagens que não aqueles sugeridos pela televisão. Precisamos ter a clareza dos ganhos e das perdas, a depender das condutas: incentivamos uma criança quando ela diz ter um namorado e lhe enviamos presentes? Deixamos as crianças decidirem pelos adultos? O que comer? Aonde ir? Em qual horário? Entre um jogo de tabuleiro e um computador achamos que o segundo estará a favor de mais aprendizagens? Compramos materiais duplicados para nossos filhos, evitando conflitos e/ou frustrações? Vale lembrar: o tempo passa muito depressa! O brincar e o conviver, com todos os desafios que isso representa, fazem a diferença.

A imitação, de forma geral, faz parte do brincar! A criança observadora e protagonista de múltiplas experiências identifica diferenças nas ações, fica curiosa em experimentar vozes, atitudes e gestos. Enquanto imita e brinca a criança compreende papéis e amplia sua visão de mundo. Também tem a oportunidade de mudar a realidade por meio da brincadeira, quando apresenta numa trama que vive habitualmente em sua vida um desfecho diferente, por exemplo. Nas brincadeiras as crianças desejam ser mães, pais, falam como seus professores ou repetem frases de seus filmes ou personagens preferidos. O brincar é universal, favorece o crescimento, conduz aos relacionamentos. A criança brinca, cria, imagina: coisas de criança!

Quem nunca calçou o sapato de salto alto de sua mãe ou vestiu a roupa enorme do pai, a camiseta de um time, uma gravata, um chapéu? E, depois, cuidadosamente, os guardou no lugar, não era seu, era “coisa de adulto”. Simplesmente brincadeira, algo que faz ser o outro durante um tempo… e quando os acessórios são suprimidos, a brincadeira é finalizada, e a criança volta a ser ela mesma. Mas quando a criança recebe um sutiã de seu tamanho, um sapato de salto alto de seu número, um batom ou esmalte de presente, que possa usar no dia a dia para ir a qualquer lugar, passa a não ser mais brincadeira. O que é do tamanho da criança diz ser feito para ela e a brincadeira passa a não ser mais tão almejada. Grande perda. Vamos pensar nas fontes deste mundo antecipado que ainda tenta nos fazer acreditar que este é o melhor para a criança. A mídia tem grande responsabilidade pelos inúmeros desejos passageiros nas ideias das crianças, pois são muitos os produtos apresentados, nem dá tempo de curtir algo que o desejo aparece de novo com uma novidade. E como todo dia é dia de ganhar algo em muitas famílias, é difícil ver uma criança com um brinquedo preferido, amado como um tesouro. Elas dizem PRECISAR ter tudo porque o outro tem? Ter em quantidade é um valor? Que tal conquistarmos o “ser”, pensando na formação de nossos pequenos! 

E como saber o que é de criança? Tudo aquilo que não a coloca em risco, físico ou psicológico, mas que favoreça experiências diversas. Roupa de criança é roupa confortável, que lhe permita ter segurança onde quer que esteja, sem apertar ou limitar ações. A escolha dos sapatos segue a mesma linha, de segurança e conforto, sem riscos. Batom de criança é um batom que ela possa usar para brincar, mas nenhuma criança precisa maquiar-se todos os dias antes de algum evento. 

Os lápis aquarela, por exemplo, são ótimos para pintar as unhas, desenhar no corpo e, com uma simples lavagem, podem ser retirados imediatamente. Quem orienta, decide, ajuda a criança na utilização adequada de materiais é o adulto. 

…Na praia do mar… As crianças precisam ter tempo, espaço e permissão para serem crianças, para buscarem e encontrar seus mundos sem fim. Temos a certeza de que os adultos, com tantas histórias para contar de sua infância, desejam o mesmo para seus filhos… e precisamos fazê-lo, apesar de a maré de consumo que invade a infância poder torná-la mais curta!


¹ Publicado no International Journal of Psycho-Analysis, v.48, parte 3 (1967).

Um momento de suspensão

Escola da Vila
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Por Tuna Serzedello

Olhos atentos observando filhos, alunos, colegas transformarem o espaço da escola em um lugar de sonho, lembranças, histórias, memórias individuais e coletivas.

A potência do teatro, latente nos alunos-atores, grande demais para ser contida em um corpo (ou vários) invade a sala e as mentes e os corpos dos espectadores, obrigada a seguir o elenco pelos espaços da escola, numa ação teatral que não fica presa a um só espaço da instituição, mas invade todos os outros.

Aqueles, pais e professores, acostumados a mostrar o caminho a ser seguido pelos jovens, neste momento de suspensão, se deixam levar pelos alunos-filhos-atores.

São muitas as denominações para esses jovens, sem contar os papéis que assumiram na peça Terror e Miséria do III Reich, mas que, como quer o autor alemão, com distanciamento brechtiano, sem deixar de serem eles mesmos, de exercitar sua consciência crítica.

Empoderados da força das convenções teatrais, que como uma onda transformadora, como um “superpoder” adquirido, vão se transformando e transformando ao seu redor: escola vira palco, que vira cozinha, que vira hospital, que vira trincheira. Espaços imaginários que se materializam ali, naquele mesmo lugar, no qual durante o dia se aprende matemática, química e literatura: um grande espaço transformador.

O mundo é grande demais e cabe inteiro nas salas dessa escola, que processa e devolve o aprendizado por meio de seus alunos, em forma de ato: de teatro.

O protagonismo jovem se exercita nesse palco da escola, que permite ser transformada por eles e assim os transforma.

O ato de transformar é transformador” diz o homem de teatro Augusto Boal.

Que os aplausos que nos despertaram desse momento de suspensão nos façam perceber a grandeza do feito de todos os envolvidos ali: pais, professores, alunos e funcionários da escola.

Hoje, quando voltarmos à “normalidade” da vida escolar, jamais nos esqueceremos de que aquela sala, ontem, foi um tribunal do III Reich, e que aquele aluno, sentado ali, carrega em si um ator. E ator é aquele que age.

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Relato de Rafaela Sérpico

“A vida é o que fazemos com nosso tempo.
Eu gosto de fazer teatro, e pra mim, minha vida só começou de verdade no momento em que fiz a primeira aula, em que li o primeiro livro em forma de peça e fui em uma peça. Quando subi em um palco pela primeira vez, devo admitir, achei que meu coração ia sair pulando e roubar minha cena.
Esse ano, fiz uma das peças que mais me entusiasmou.
Às vezes, treinando no meu quarto e falando “Heil Hitler” dava vontade e até cheguei a chorar diante de tudo que esta expressão tem por trás…
Mas, ao mesmo tempo, eu consegui me conhecer mais, consegui perceber que mesmo com todo esse valor de “bem” e “mal” imposto pela sociedade, todos temos ambos os lados, e todos devemos expressá-los e não guardar e guardar dentro da gente, porque eu sei que uma hora isso precisa sair. E essa peça me ajudou por isso, porque ela me mostrou esse lado, de que é importante ser aquilo que você não é, falar aquilo que você mais despreza e simplesmente encarar isso mais do que tudo, como uma forma de aprendizado e justa oportunidade de poder dizer tais diferentes concepções, afinal, a realidade dessa peça não é a minha, eu disse coisas que jamais pensaria ou teria tal visão de mundo. Mas eu me senti mais leve e eu não estou dizendo que meu lado “mal” é nazista, porque eu não sou nazista de lado nenhum.
O que quero dizer com tudo isso é simplesmente que eu percebi com essa peça, que o teatro é a melhor forma de colocar o lado “mal” para fora e é também a ferramenta que mais me traz autoconhecimento.
“Terror e miséria do III Reich” foi uma experiência simplesmente incrível, e por mim eu sairia pelo mundo todo apresentando ela e falando esse texto maravilhoso, e que trouxe o que nenhum dos milhões de filmes sobre o nazismo que eu assisti jamais me mostraram e representaram.
Fazer essa peça e usar meu tempo pra ensaiar ela em casa ou na escola foi a experiência que me mostrou que, da minha vida, que é o que eu faço com o meu tempo, quero fazer teatro, afinal, não existe vida onde não há teatro.”

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Relato de Carolina Alayon

“Nós do Grupo de Teatro 2016 da Escola da Vila, realizamos a peça “Terror e a Miséria no Terceiro Reich” por Bertold Brecht, dramaturgo poeta alemão. Foi escrita entre 1935 e 1938, fazendo uso de recortes de jornal, notícias recebidas da resistência – Brecht vivia então na Dinamarca –, rádio, ou qualquer forma que pudesse levar a informação além das fronteiras do Reich, que se estabelecia. É um panorama da sociedade alemã sob o domínio nazista. Uma coleção de instantâneos saída de casas operárias e cortes judiciais, de trabalhadores socialistas e comunidades judaicas, de campos de concentração e aulas da juventude hitlerista. Mais do que retratar uma década mergulhada em equívocos, Brecht nos força a enxergar a decadência de toda uma sociedade, sufocada pelo terror.
Esta peça teatral composta de múltiplos quadros independentes, aparentemente desconexos, em que cada cena nos mostra uma faceta do regime, em que as personagens cumprem todo o seu papel numa aparição breve que contudo as não diminui nem lhes retira força, encontra a sua unidade no seu título.
Os atores confirmam a ênfase desafiadora do texto e do caráter trágico, violento, repressor e opressor de seus personagens. Para atingirmos a compreensão do ato fora necessário muito esforço da parte de todos e ensaios acompanhados da direção de Tuna Serzedello, que disponibilizou obras de referência para estudo do grupo. Este diretor, que contribui maravilhosamente trabalhando arte/teatro com jovens, nos orientou no processo de construção do personagem e de ocupação do espaço da Escola para a apresentação, processo que demanda foco, bom gosto e disciplina.A profundidade e clareza do teatro, que consuma o momento histórico retratado em uma situação prática, é forte devido a temática, espelhada no período da Guerra nazista, do facismo hitlerista. Sua força intensa atinge o espectador quanto ser observador e sentimentalista, provocando um dilema reflexivo entre conforto e incômodo referente às condições físicas e emocionais tanto do personagem, quanto dos atores e dele próprio.”

XI Festival de Poesia. Tempo, espera e silêncio

Festival de Poesia da Escola da Vila
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A missanga, todos a veem.
Ninguém nota o fio que,
em colar vistoso,
vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta:
um fio de silêncio costurando o tempo

Mia Couto

Por Vicente Domingues Régis 

O que faz com que mais de mil pessoas se encontrem e destinem grandes porções de seu escasso tempo à poesia, uma prática tão antiga e tão distante dos atuais traços da sociedade contemporânea, marcada pela velocidade, pela voracidade e pelo consumo? Qual força sobrepuja o desejo quase incontrolável, que nos direciona diariamente para a frente das telas de nossos dispositivos eletrônicos, fazendo com que direcionemos nossa atenção para uma, duas ou três pessoas que declamam lentamente textos de Mel Duarte, Mário de Andrade, Mayakovsky ou Wislawa Szymborska? Por que insistimos em nos sentar na grama, em silêncio, durante tanto tempo, envolvidos pelas vozes daqueles que ousam derramar íntimos sentimentos em um antigo coreto, embalados pelos maxixes, choros e marchinhas de compositores como Anacleto de Medeiros, nascido há cento e cinquenta anos?

Como resposta a estas questões, nos reunimos no sábado, dia 29 de outubro, em frente ao coreto do Parque da Chácara do Jóquei para a realização do XI Festival de Poesia: “A poesia na rua, a rua na poesia”. Foram seis horas intensas de declamação, música, performance, oficinas, exposições de trabalhos, e encontros. Seis horas de protagonismo dos jovens que frequentam nossa escola, das suas famílias, de seus professores, e dos demais membros da nossa comunidade.

O espaço para a realização desse evento foi gentilmente cedido pela administração do parque, mediante a contrapartida de esgotamento da fossa de um dos banheiros e pintura do coreto e da área externa do redondel, realizados pela escola. Tivemos um público estimado de 1.200 pessoas durante o evento, que contou com o concurso de poesia falada, no qual foram declamados poemas de Vinicius de Moraes, Ana Cristina Cézar e Solano Trindade, entres muitos outros autores, e mais uma série de ações. Dentre estas, destacam-se as oficinas de criação de pôsteres, origami, criação de proposta de arte visual baseada em poema, o show dos Batutas do Coreto em homenagem a Anacleto de Medeiros, compositor carioca de importância fundamental para música brasileira, e, ainda, as apresentações dos grupos de teatro do Fundamental 2 e do Ensino Médio. Como encerramento do evento, alunos do Ensino Médio criaram uma performance relacionando o conto Soroco, sua mãe, sua filha, de Guimarães Rosa, com as canções Trenzinho Caipira, de Villa-Lobos − que ganhou letra de Ferreira Gullar e Terceira Margem do Rio − canção homônima do conhecido conto de Guimarães criada por Milton Nascimento e Caetano Veloso. Tudo isso aberto ao público que frequenta o parque.

Vale ainda lembrar que os mais de 150 poemas inscritos no concurso de poesia escrita, assim como as oitenta inscrições para o concurso de poesia falada são, em grande parte, ecos de uma proposta pedagógica que valoriza a sensibilidade, a subjetividade e o diálogo. Reverberam de uma proposta pautada na autonomia e na cooperação, como pode-se observar no belíssimo e fundamental trabalho dos mestres de cerimônia: Carlos Navas, Daniel Innecco, Gustavo Torres, Gabriel Sampaio, Mariana Assef, Sabrina Cardoso e Yuri Carvalho − que se organizaram para tocar o evento e precisaram de pouquíssimo auxílio do setor cultural e dos demais profissionais da escola envolvidos na organização do festival.

Certamente, são muitos os motivos que concorrem para que destinemos tanta energia e tempo num festival como este. Entretanto, são estes de natureza tão subjetiva, singela e variada que não cabem ser resumidos aqui. Vale concluir: sentimos a necessidade do encontro em torno do fio que vem sendo tecido em silêncio pelos poetas há tanto tempo.

Aproveitamos o momento para parabenizar mais uma vez os vencedores dos concursos de poesia escrita e falada:

Poesia Falada

Categoria A

1o lugar: Bento Sipahi Pires Gonçalves dos Santos.

2o lugar: Alice Rossi, Lola Aguiar, Dora Mariani, Sofia Camargo.

3o lugar: Majoí Sotero Costa.

Menções honrosas: Frederico Kipnis e Luis Fernando Souza Dória.

Categoria B

1o lugar: Antonia Vilas Boas Cardoso de Oliveira, Cecilia Neves Nannini, Marina Gregori Tokita, Manuela Arruda Pinto Lima, Paola Franceschini Giovanolli.

2o lugar: Lorena Polo.

3o lugar: Giulia Guarrera Zanetti.

Menção honrosa: Helena Veliago Costa e Laura Santanda.

Menção honrosa: Sofia de Carvalho Galvão e Fernanda Contarelli Lima

Categoria C

1o lugar: Median Aurea Trigo Grotti Vidal Costa.

2o lugar: Juliana Giannini, Luiza Moraes e Clarice Barreira.

3o lugar: Paula Lisboa e Teresa Lisboa.

Menção honrosa: Noam Rafael Kramer.

Poesia escrita

Categoria A

1o lugar: João Pedro Sequeira Rocha, “Infinito”.

2º lugar: Benny Sadka, “Marola”.

3º lugar: Bruno França, “Amor aleatório”.

Menções honrosas:

Nicolas Fernandes, “Negritude”.

Anne Hirata, “O tempo”.

Categoria B

1º lugar: Beatriz Bannwart Novaes, “sem título”.

2º lugar: Catarina Simonetti de Mattos, “Epinaufraga”.

3º lugar: Lua Bonduki de Sousa, “cena estática”.

Menções honrosas:

Bruna Duarte Savietto Frati.

Júlia Menezes, “A menina de cá”.

A política, os adultos e os jovens: qual é a interseção?

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian 

Há quem diga que estamos vivendo um momento histórico na vida política do país. Inclusive, algo que acompanhe certo ciclo cronológico e geracional, ao menos desde o golpe de 1964, passando pelas “Diretas Já” e pelo impeachment de Fernando Collor. Para muitos, é um momento promissor, pois mudaram os atores de uma política incorreta, enquanto, para outros, mudaram apenas os atores, e tudo segue igual. Também estão os que entendem que era preciso fazer algo, mas não têm muita clareza sobre, justamente, o que deveria ser feito. As opiniões, enfim, são muito variadas. Pode-se concordar em algum aspecto genérico, mas, quando são aprofundadas as análises, as diferenças aparecem. Isso quando as pessoas têm opiniões sólidas, o que nem sempre acontece, especialmente em um momento que permite tantas especulações.

Mas o que opinam e o que fazem aqueles que ainda sequer votaram em uma eleição? O fato de não terem ainda idade para votar ou que estrearam seu título eleitoral em outubro deste ano turbulento, não significa que estejam alheios ao que ocorre. Se bem que é verdade que, por um lado, parecem ter opiniões contundentes em uma situação tão peculiar; por outro, é louvável que estejam em busca de algo a ser feito no mundo político. Dizemos louvável porque, se nós, eleitores adultos deste Brasil gigante, chegamos a concordar com alguma coisa, por mais vaga que seja, provavelmente concordaremos que algo precisa ser feito. Só não somos unânimes – ou não sabemos – o que deve ou pode ser feito.

Pois bem! Eis que muitos alunos têm manifestado opiniões políticas. As formas como isso tem ocorrido foram muito variadas: assertivas ou vagas, em pequenos agrupamentos, em grupos diminutos, individual ou isoladamente; com contundência ou com ar de desamparo; algumas vezes, com matizes violentos; outras, com diálogos extensos e inconclusos. Em certo aspecto, nada tão diferente do que também pode ser identificado no mundo adulto. Neste texto, no entanto, tentaremos nos ater justamente a algumas características que possam diferir das manifestações políticas entre eleitores velhos e, digamos, eleitores estreantes.

Talvez a melhor forma de encontrar as características próprias da vida política de um adolescente seja muito mais o papel que as atitudes dessa natureza cumprem em sua vida, e não tanto o conteúdo de suas opiniões. Para entender melhor, vale a pena nos determos para observar o que é que se exige desses adolescentes no mundo de hoje. Esta é uma maneira, ainda que limitada, de tentarmos nos colocar na pele deles.

Uma das coisas que os adultos mais cobram de um Homo sapiens de 16 anos de idade é que ele seja, de uma vez por todas, autônomo. Afinal, ele já tem dimensões anatômicas adultas, é fisicamente capaz de se vestir, arrumar o quarto, locomover-se pela cidade, estudar, praticar esportes e, por que não, pensar sobre o próprio futuro. Para não falar no direito ao voto. Em todo caso, quando não faz nada disso, nos surpreendemos, e lhe perguntamos o que está esperando para realizar qualquer uma dessas coisas. Afinal, o “mundo lá fora” não é mole e ele não poderá passar a vida entre os “seriados” e a geladeira cheia de guloseimas.

Há inúmeras formas de esse sujeito mostrar, justamente, que pode fazer muitas coisas que os adultos fazem. Ele pode beber cerveja, por exemplo. Ou pode também fumar cigarro. Pode andar pela cidade de madrugada. Os exemplos pelos quais ele sente que pode se aproximar da vida adulta é flertando, muitas vezes, com situações arriscadas – e, não raro, com uma imprudência fabulosa. Certo tempo atrás, publicamos, neste blog, um texto sobre o papel da discussão política entre pais e filhos. Tudo indica que vale a pena retomar esse assunto, inclusive por um viés que, agora, nos aproxime das organizações de adolescentes e jovens que têm como fim a ação política.

A política é, portanto, uma forma de participar da vida adulta. Curiosamente, os jovens costumam encontrar aí, com bastante frequência, forte resistência dos adultos que os rodeiam, sejam eles pais ou educadores, que agem diretamente com eles, sejam aqueles que os observam de longe. Os adultos que se deparam com os argumentos de um rapaz de 16 anos de idade o olham com indignação. Tal sentimento pode derivar basicamente de dois fatores: por um lado, ou porque esse adulto se espanta de como alguém dessa idade pode estar tão convicto do que diz, tendo ele argumentos a princípio ingênuos e pouca experiência de vida; e, por outro, um aspecto que pode se somar ao que acabou de ser relatado, mas que é ainda mais perturbador: o adulto se desespera porque o filho ou o aluno estaria “virando” algo muito ruim, politicamente falando. Estaria ganhando uma identidade que é totalmente diferente daquilo que o pai ou o educador esperam que ele seja.

Ambas as situações desprezam uma série de elementos fundamentais, que vale a pena enumerar. Em primeiro lugar, podemos pensar que, para além de buscar uma exposição física a um determinado risco para mostrar sua potência – como poderia ser o de abusar das drogas ou dirigir em alta velocidade, ou acampar em um lugar estapafúrdio, ou surfar em um mar revirado, por exemplo – estamos diante de alguém que busca um combate em uma via infinitamente mais madura. No caso do envolvimento político, trata-se de esgrimir argumentações que exigem repertório e articulação.

Também tratamos de valores, ética, ideias e ideologias, elementos abstratos que buscam apoio no concreto, no intuito, sem dúvida alguma, de uma melhoria que escapa tanto da qualidade do wi-fi para seus seriados quanto dos quitutes na geladeira: uma melhoria nada menos que do mundo em que se vive.

A ação política, se, por um lado, é um exercício de convivência em um grupo de fortes afinidades subjetivas, por outro, impele ao inferno das negociações para conviver e construir algo junto com os outros. O grêmio escolar é um típico exemplo disso.

Em suma: se queremos que nossos alunos e filhos ganhem autonomia para mostrarem a sua potência em âmbitos razoavelmente sofisticados e construtivos, precisamos abrir espaços para a contestação política dentro do respeito e da boa argumentação. O momento político do país é muito propício para isso.

Educação, política e desconforto

Escola da Vila

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Por Fermin Damirdjian

Há um princípio no ensino construtivista que afirma ser necessário tirar o aprendiz de sua posição de conforto no que diz respeito a seu conhecimento de mundo. No fundo, trata-se de uma tendência inerente ao ser humano: um bebê passeia seus olhos por seu entorno, e qualquer coisa que lhe chame a atenção já lhe causará um desequilíbrio interno, o qual pode variar desde uma pequena atividade mental até querer alcançar esse objeto fisicamente.

Em outras situações, o desconforto surge internamente, por exemplo, quando esse bebê sente fome, o que lhe causa irritabilidade e, em condições normais de temperatura e pressão, isso será reconhecido por aqueles que o assistem e, assim, aquele choro, aquela cara, aqueles movimentos serão interpretados e vão gradualmente se transformando em formas de comunicação. Em estágios seguintes, a palavra vai tomando o lugar desses sinais físicos.

No caso de um educador, o que ele pode fazer é provocar um sutil desconforto nos alunos de acordo com o repertório que eles já têm, e assim oferecer um desafio intelectual que os mobilize a especular e a buscar respostas, construindo boas perguntas. Ocorre que, em muitos casos, os alunos mesmos trazem indagações por sua própria conta e voracidade intelectual, a partir de um repertório já adquirido que lhes permite observar o mundo e querer interpretá-lo. Aqui já não estamos falando necessariamente de estudantes, mas sim de jovens em geral, cuja curiosidade e inquietação se expressam vinculadas ou não à sala de aula. Nos referimos àqueles que colocam em ação suas dúvidas, tanto no papel de alunos como no de filhos ou cidadãos, sem distinções entre esses âmbitos. Devemos considerá-los, em última instância, sujeitos.

Ocorre que essa contemplação do processo educativo e sua relação com o desconforto também deve levar em conta a mobilização de outra figura: aquele que educa. Pai, mãe, padrinho, professor, orientador, não importa: se há alguém ali que se vê apropriado de seu papel, seja no momento de ouvir um choro e alimentar, seja ao se deparar com perguntas ingênuas, substanciosas, assertivas ou vagas, se esse sujeito educador é de fato receptor de tais mensagens, ele se vê e convive em situação de desconforto.

Um casal que busca oferecer à sua criatura certo grau de previsibilidade em horários de sono e refeições, para assim regular o ritmo fisiológico e dar a ela certa segurança psíquica, tem seu mérito, tanto como um professor que antecipa a rotina a seus alunos, seja de uma aula, seja do complexo percurso acadêmico ao longo de um ano. Antecipar o ouvinte é prepará-lo. Do mesmo modo, em um processo antecipatório de ordem menos racional, as expectativas daquele que educa e cria são fundamentais, pois estão carregadas de desejo e afeto, elementos que andam juntos e são determinantes na constituição da subjetividade.

Nessa dinâmica, porém, ganha corpo uma premissa paradoxal: é necessário estar preparado para o imprevisível. Podemos, e talvez devamos, antecipar o que pode ocorrer na vida, o que é natural fazermos, visto que, no mais das vezes, tal antecipação é fruto de ansiedade e desejo de realização, já que projetamos muito nos jovens aquilo que gostaríamos que com eles ocorresse. No entanto, eles nos surpreendem, sempre.

A situação política atual, que ainda nos custa delinear e interpretar com clareza, é palco fértil para a ação dos jovens. Não esqueçamos que eles já são aptos em termos físicos, psíquicos e culturais para elaborar questionamentos e projeções nutridas com forte carga de desejo e transformação. O que fazer diante disso, como pais e educadores? Passemos a outro âmbito para especular a partir dessa pergunta.

Com frequência, o ex-jogador, médico e colunista Tostão nos oferece observações sobre a dinâmica do futebol que transitam entre a amplitude das reações humanas e as ações de um jogador, um técnico ou um time em campo. Para além de analogias baratas, é possível encontrar o papel da previsão e do imponderável que, em última instância, estão no âmago do trabalho de um técnico. A técnica se prestaria a dominar justamente aquilo que é impossível de controlar: o surpreendente.

Expulsões, contusões, erros de árbitros, bolas perdidas, acasos, que não sabemos onde e quando vão ocorrer, e tantos outros detalhes e instantes fugazes mudam a história de uma partida, de um campeonato, ainda mais em jogos mata-mata. Por muito pouco, por muitos quases, fazemos isso ou aquilo, somos uma coisa ou outra, ganhamos ou perdemos. “Viver é um descuido prosseguido” (Guimarães Rosa).

“Instantes fugazes” – Folha de São Paulo. 30/08/2015

Apesar de tanto estudo e experiência, tanto seu time como o de seu adversário surpreendem o técnico com pequenos acasos e acidentes que alteram dramaticamente o que tinha sido previsto. Para muito além de grandes esquemas táticos, os pequenos elementos que permeiam a ação nos 90 minutos são as faíscas de riqueza e tensão que caracterizam e encantam em qualquer esporte.

A ação educativa não é diferente. Não faltam especialistas de toda ordem que estudam à exaustão e opinam sobre as variáveis que compõem a situação sobre a qual discorremos. Psicólogos, psiquiatras, professores, pedagogos, neurologistas, fonoaudiólogos, psicopedagogos e as respectivas especialidades de cada um desses âmbitos de conhecimento, para não citar mais, têm, muitas vezes, opiniões assertivas sobre como proceder. E, é claro, estão os pais, que não são menos sábios do que todos esses. Ao contrário, muitas vezes há um saber que não está em prancheta alguma, em livro algum, e que se manifesta em lances quase imperceptíveis no convívio cotidiano.

O psicólogo Júlio Groppa Aquino, justamente, procura se apresentar mais como um especulador do que como um especialista, e costuma atentar em suas apresentações e estudos para aquilo que há de improvisado no gesto educativo, e que talvez seja o principal momento de calor no ato de educar. Há reações e contrarreações entre alunos e professores, ou entre filhos e pais, que muitas vezes são frequentemente mais efetivas que ações pensadas previamente. Momentos compartilhados que apresentam o mundo em seu potencial criador, frustrante ou realizante. Isso não ocorre sem a surpresa não apenas da criança ou do jovem, mas também de pais e educadores que, sem deixar de se surpreenderem, conseguem, quase que por acidente ou de forma intuitiva, absorver inquietações e dar-lhes contorno. Mas isso não ocorre sem sair da previsibilidade do conforto.

Na atual conjuntura social e política, o mínimo que podemos esperar são reações juvenis que apresentem perguntas contundentes e propostas incisivas, denunciando o que eles encontram de disfuncional nas estruturas institucionais que aí estão, construídas supostamente para viabilizar a devida participação popular na vida pública. Reagir de modo a fazer um jogo raso e truncado não resolve nem permite a criação de novos caminhos. E esperar comportamentos previsíveis, por outro lado, seria ingenuidade.

Precisamos ter não necessariamente respostas, mas disposição para viver no acidente, na surpresa, oferecendo aos jovens contraposições firmes que estimulem não a ausência de criação, mas sim diálogos consistentes. Há valores tais como conhecimento, colaboração e autonomia que devem estar garantidos – e, para mérito desta escola, das famílias e dos próprios jovens, podemos afirmar que tais valores estão bastante presentes. Para além disso, esperar que esses jovens respondam de modo inquestionável um roteiro meticuloso previamente elaborado por pais e educadores seria não apenas ingenuidade, mas também um sinal de que alguma coisa está saindo errada em nosso projeto de formar sujeitos pensantes.

Programa Scholas Cidadania reúne jovens para discutir a solução de problemas da comunidade onde vivem

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Por Francisco Eduardo Bodião

Desde segunda-feira, um grupo de alunos da Escola da Vila participa de um encontro entre escolas públicas e particulares – Scholas Cidadania. Esse é um programa desenvolvido pela Fundação Scholas Occurrents, criada pelo papa Francisco enquanto era bispo na Argentina, e que agora está sendo desenvolvido em vários países da América Latina. Pela primeira vez no Brasil, o programa conta com o apoio do Instituto Olga Kos e da Prefeitura de São Paulo.

O objetivo dessa atividade, no CEU Cidade Dutra, em Interlagos, até a próxima sexta-feira, é aproximar adolescentes e escolas da cidade, de bairros e de realidades distintas. Os estudantes vão discutir problemas comuns das regiões em que moram ou estudam, valorizando a cultura do encontro por meio do compromisso de participação cidadã a favor do bem comum, com ênfase, também, ao pluralismo social, cultural e religioso, em uma cidade tão diversa como a nossa.

As atividades são intensas. Os adolescentes, em sua maioria de 1ºs e 2ºs anos do Ensino Médio das escolas participantes, escolheram temas de pesquisa e debate semanas antes de a atividade começar, e durante esses dias estão seguindo uma metodologia de trabalho que começou com a identificação de hipóteses, a elaboração de instrumentos de coleta de dados e entrevistas. Sairão a campo para entrevistar especialistas e população. Produzirão documentos e propostas com a intenção de impactar a reflexão de autoridades e sugerir a criação de políticas públicas para as demandas pesquisadas e debatidas.

Nossos alunos estão experimentando dias de muito trabalho e convivência, que também são muito especiais nos momentos de “recreio” e descontração.

Tem uma criança que incomoda meu filho. O que vocês estão fazendo para “contê-la”?

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

É muito comum que pais e mães queiram propiciar a seus filhos um ambiente onde jamais sejam submetidos a qualquer tipo de incômodo. No entanto, mais cedo ou mais tarde, estes serão expostos a provocações e a questões impostas por diferentes maneiras de agir e de entender as relações interpessoais.

Se em muitas casas o diálogo sempre prevalece, e isso basta para orientar e organizar a “bagunça”, na casa do vizinho outras estratégias podem ser usadas, e, sem dúvida, as crianças trarão esse conhecimento para o espaço escolar. Muitas vivências encontram-se nesse ambiente educativo, e vale lembrar que tanto uma família quanto a outra escolheram o mesmo projeto pedagógico para seus filhos. Nesta escola, as diferenças são acolhidas, vividas e experimentadas diariamente e, a partir delas, o trabalho acontece de forma concreta.

Frequentemente, ouvimos as seguintes falas de crianças pequenas:

- “Meu pai falou para eu empurrar de volta se alguém me empurrar”.

- “Meu pai disse que se eu bater eu perco a razão e fico igual a quem me bateu”.

- “Minha mãe me disse que eu preciso avisar a professora antes da briga começar”.

- “Minha mãe falou que eu não posso me meter em confusão, de jeito nenhum”.

Em meio a opiniões divergentes e a questões que fazem as crianças pensarem não apenas sobre seu próprio ponto de vista, mas a partir de uma ótica que procura incluir o ponto de vista do outro, e tendo como ponto de partida o princípio do respeito mútuo, planejamos diversas abordagens para nossas ações: encorajar e fortalecer o grupo para tratar dos incômodos como algo que merece dedicação e tempo é uma das ações que favorece e responsabiliza cada criança.

Escolhemos o diálogo para tratar das regras de convivência como ponto de partida para toda e qualquer situação, sobretudo no fórum coletivo. As partes envolvidas têm o direito de falar enquanto os adultos encaminham o conflito demonstrando respeito pelos valores de cada um, demarcando limites claros. Os professores são reconhecidos como pessoas que possuem autoridade moral, capazes de negociações justas. A partir da observação de muitos exemplos de diálogo, em diferentes contextos, as crianças vão se instrumentalizando para atuar com crescente autonomia em situações semelhantes.

Para pensar e agir diante de pressupostos democráticos, é fundamental que o grupo seja o foco principal e ofereça elementos para que o indivíduo manifeste desagrado quando se sentir prejudicado. Dessa forma, os alunos que “incomodaram” atuando de forma inadequada podem perceber as consequências de suas ações atreladas ao conjunto de crianças que se opõem e não isoladamente.

Aprender a lidar com os próprios desejos e frustrações e entender que os desejos dos outros podem ser bem parecidos ou muito diferentes, controlar a própria raiva e saber falar sobre o que está sentindo é também aprender que, diante de uma provocação, a indignação é aceitável, reconhecendo o que não é permitido, como, por exemplo, os atos de agressão.

As intervenções processuais em ambiente escolar, com a clareza dos valores que organizam a rotina e o zêlo por todos neste espaço, permitem o fortalecimento de sentimentos de pertencimento ao grupo e de potência na resolução de contendas, o que permite que as crianças sigam buscando umas às outras em suas afinidades para brincar e aprender juntas.


Reedição de texto publicado dia 28 de abril de 2014.

Projetos de 6º e de 7º ano: mais leitores e mais leitura para os textos de nossos alunos

Escola da Vila

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Por: Aline Evangelista, Erica Santos, Fabiana Carneiro, Luiza Moraes
e Natalia Zuccala

Diante da situação de produzir um texto, somos sempre guiados por perguntas centrais, que determinam toda a tomada de decisão: o que preciso escrever? Com que finalidade? Para que destinatário? Essas questões delineiam os parâmetros da situação comunicativa e orientam o processo de composição.

Em geral, a tarefa é difícil, mesmo para adultos experientes. Não raro, quando temos de escrever, consultamos materiais, buscamos modelos para tomar como referência, pedimos a outros leitores que opinem sobre a clareza, o tom, o grau de formalidade etc. Não há dúvida de que se trata de uma tarefa complexa, que nos impõe uma série de desafios. Sendo assim, fica  evidente que, se a escola pretende conservar, tanto quanto possível, a complexidade e as características das práticas sociais de leitura e de escrita, é preciso assumir que os projetos didáticos criados para esse fim exigem tempo e investimento: a preparação, a realização e a avaliação demandam muitas etapas, muitas idas e vindas, até que se tenha em mãos um material pronto para ser publicado.

Esse esforço se justifica por diversas razões, dentre as quais destacamos as seguintes:

- a redução da dicotomia entre leitura e escrita – nos projetos, os alunos escrevem para ler melhor e leem para escrever melhor;

- o sentido da atividade, uma vez que o produto final vislumbrado (um livro, uma apresentação, um blog, um site, uma revista etc.) possibilita a construção de horizontes de expectativas e cria boas condições para que o aluno tenha consciência sobre os objetivos de aprendizagem;

- os modelos analisados oferecem parâmetros claros, que ajudam a construção compartilhada dos critérios de avaliação;

- a oportunidade de trabalhar com textos desafiadores, cuja produção requer investimento e promove avanços consideráveis na competência escritora.

- o prazer de ver os textos produzidos circulando, sendo lidos, discutidos, comentados e apreciados.

É sobre a última das razões citadas acima que queremos conversar hoje. Alguns dos produtos finais dos nossos projetos estão prontos para serem compartilhados com a comunidade escolar:

- o site de literatura fantástica, produzido pelo 6º ano

- a Re-vista , produzida pelo 7º ano.

O fato de as publicações serem virtuais amplia a possibilidade de circulação desses textos, o que nos anima bastante. Afinal, é gratificante saber que o fruto de tanto empenho pode ser compartilhado com muitos leitores. Cada um dos textos publicados nos sites e na revista traz consigo uma longa história de planejamento, produção de muitas versões, discussão, revisão e reelaboração. Ao longo desse processo, os alunos aprendem muito sobre os gêneros estudados, sobre os procedimentos do escritor e sobre a língua. Todas essas aprendizagens são fundamentais e centrais no nosso projeto pedagógico.

Acrescentamos, ainda, um aspecto que, no nosso entendimento, precisa estar sempre bem presente quando se pensa no ensino de língua portuguesa na escola: ao ver seus textos circulando e sendo lidos, não apenas pelo professor, mas por uma variedade de leitores, os alunos tomam consciência de que são capazes de “dizer por escrito, colocar a própria palavra por escrito e, por meio dessa aprendizagem, compreender melhor a estrutura, a força elocutória e a beleza dos textos que outros produziram”¹.

Assim formamos leitores e escritores: cidadãos que circulam com tranquilidade e segurança pela cultura letrada, com a certeza de que, pela palavra, podem participar ativamente da sociedade de que fazem parte.

É com muito orgulho que apresentamos aqui o resultado de um trabalho árduo e cuidadoso, levado a cabo pelos alunos de 6o e de 7o ano.

Re-vista: um novo olhar para o mundo 

Literatura Fantástica

Boa leitura!

PS –  Entre novembro  e dezembro serão lançadas as publicações impressas: o livro de contos do 8º ano e o livro de poemas do 9º ano. Aguardem!


¹ FERREIRO, Emilia. “Sobre as não previstas, porém lamentáveis consequências de pensar apenas na leitura e esquecer a escrita quando se pretende formar o leitor”. São Paulo: Centro de Formação da Escola da Vila, 2010.

Parte desse texto foi publicada em:
MARTINS, Aline Evangelista. “Avaliação da produção escrita: desafios e possibilidades”. Artigo produzido para o Simpósio Interno da Escola da Vila, no ano de 2012.


Reedição de texto publicado dia 23 de outubro de 2013

Simpósio Interno da Escola da Vila

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Por Fernanda Flores

No último sábado, dia 8 de outubro, tivemos a abertura do Simpósio Interno da Escola da Vila. Como parte de nossa história, mais uma vez, contamos com a apresentação de oitenta trabalhos de professores que atuam da Educação Infantil ao Ensino Médio - divididos em 23 mesas temáticas -, com apresentações que se estendem a mais duas reuniões pedagógicas, até o dia 18 de outubro.

Segundo Ivone Domingues, coordenadora pedagógica de Fundamental 2, “como a memória é algo sempre em reconstrução, vale a pena retomar os principais motivos que levaram a Escola da Vila a criar esse evento anual. O maior propósito do Simpósio é fomentar algo que consideramos central para todos os profissionais da educação: a prática da escrita reflexiva. O Simpósio foi criado para isso. Para promover o que Donald Schön (1983) denomina de reflexão sobre a ação, uma análise a posteriori realizada pelo professor sobre as características e os processos do seu trabalho.

Espera-se que cada membro da equipe procure refletir sobre o seu trabalho, usando a escrita como meio de tomar distância da sua prática pedagógica e possa problematizá-la, dispondo-se a dialogar com seus pares a partir dessa produção. Sabemos que o estudo, a teoria, quando tomados com sentido, são sempre necessários para avançar, mas é preciso dizer, também, que tão ou mais importantes são as ideias próprias, é a problematização do que se vive no ambiente escolar, pois é a partir desse debate que o conhecimento coletivo se constrói.”

A Escola da Vila tem tradição na valorização da escrita, no debate e na criação de espaços de construção coletiva do conhecimento, algo inerente à sua dinâmica. Estamos em clima efervescente, debatendo ideias, discutindo opções didáticas, propostas, inovações, e nos aproximando mais das maneiras de pensar o trabalho em outros segmentos. Enfim, consolidando novamente, também na equipe de professores, alguns dos princípios centrais de nosso projeto pedagógico: a autonomia e a cooperação intelectual.

Como ápice de toda essa produção, com muito orgulho, aproveitamos esse canal para compartilhar a revista Conversa de Professor, que chega à sua 5ª edição, divulgando os trabalhos de nossa equipe, selecionados do Simpósio de 2015.

Boa leitura!

A leitura compartilhada nas classes de fundamental I

Escola da Vila

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Por Andréa Luize 

A leitura de textos literários ocupa um espaço bastante significado no trabalho com práticas de linguagem, aqui na Vila, ao longo de toda a escolaridade. Formar leitores autônomos, com um amplo repertório de critérios de escolha e com possibilidades de analisar e de falar sobre literatura é a meta que temos. E é justamente para atendermos a essa meta que, nas salas de aula, tantas são as entradas dos textos literários: as leituras feitas pelo professor para as crianças, as visitas à biblioteca, as rodas de biblioteca, as reescritas e escritas de versões e as leituras compartilhadas. Essas últimas, a partir do 1º ano, passam a ser atividades habituais na rotina das crianças: acompanhar, em seu próprio exemplar, a leitura de um título a ser feita pelo professor.

As leituras compartilhadas destacam-se como situações favoráveis à reflexão e à discussão sobre o lido. São momentos dedicados à apreciação, à troca de impressões e opiniões e ainda à análise de elementos literários, entre eles, o papel do narrador, as mudanças vividas por um personagem central, as motivações de personagens para determinadas atitudes, a linguagem usada pelo autor para se referir a um evento ou mesmo para descrever personagens e situações, o tempo em que se passa a história e o tempo em que é contada, etc. Para que ampliem suas possibilidades de compreensão e apreciação é fundamental que contem com a mediação do professor,  que tem a função de favorecer e instigar a observação de aspectos da obra que passariam despercebidos e que se colocam como necessários para a atribuição de sentidos e de significados. Do mesmo modo, contam com a oportunidade de confrontar diferentes interpretações, já que há um grupo de alunos debruçando-se sobre um título.  Trata-se, assim, de um espaço também oportuno para colocar as crianças em contato com obras e autores mais desafiadores, digamos assim, em comparação aos livros que elas tendem a ler sozinhas, afinal, contarão com o apoio de um leitor bastante experiente, um mediador: o professor.

Ter o livro em mãos permite retornos individuais e sistemáticos ao que já foi lido, apoiando discussões, já que as crianças buscam na própria história exemplos e pistas para construir suas argumentações ou mesmo para formular perguntas. Também o professor propõe questões para discussão que demandam essa retomada de trechos já conhecidos. Ao longo da escolaridade, a leitura compartilhada passa, gradativamente, a ser dividida entre a leitura em classe e a leitura individual: alguns capítulos são encaminhados para leitura autônoma e, depois, discutidos nas aulas. Estamos, assim, trabalhando para que as análises feitas em classe contribuam para a compreensão do texto por parte de cada aluno.

A seleção de títulos para estas propostas é algo feito a partir de múltiplos critérios. É essencial considerarmos a progressão de desafios ao longo das séries: se iniciamos com títulos com várias histórias que podem ser lidas, cada qual, numa única sessão (como Mitos Gregos, no 1º ano, Contos de bichos do mato  e Ielena¹, a sábia dos sortilégios, no 2º ano) avançamos para histórias entrelaçadas, com narradores diversos e complexos, como em As mil e uma noites ou em Minha querida assombração,  títulos trabalhados no 5º ano.

Além da progressão, procuramos eleger títulos que oportunizem análises amplas, favorecendo a construção de novos conhecimentos por parte dos alunos. É assim, por exemplo, que Manolito², entra no 3º ano, permitindo a discussão sobre o narrador e seu ponto de vista: será realmente que tudo o que é dito e descrito por esse narrador personagem é mesmo assim? Como será que o mesmo fato seria contado por um colega de Manolito ou por sua professora? Será que usariam a mesma linguagem, veriam as mesmas coisas? Aqui, está em jogo, aprender a ler textos narrados por um personagem e aprender a ler além do que ele nos conta.

Há ainda outros critérios que influenciam nossas escolhas: mesclar autores brasileiros, como Ricardo Azevedo, Tatiana Belinky, João Carlos Marinho e Reginaldo Prandi, com autores estrangeiros, ocidentais, como Edith Nesbit e C.S. Lewis, e orientais, como Linda Sue Park; apresentar clássicos, tendo autores como Monteiro Lobato e Jack London ou histórias da mitologia grega.

A escolha das obras é feita a partir de várias leituras, de vários olhares; professores, coordenadores, orientadores e profissionais da biblioteca podem atuar na seleção de um corpus inicial, na discussão sobre cada obra e suas possibilidades e na pertinência dos títulos a cada momento da escolaridade e ao currículo. Contamos também com o apoio de olhares de especialistas, apresentados em resenhas críticas, como as que compõem a Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, afinal, precisamos selecionar títulos de qualidade, desafiadores e interessantes para nossos pequenos e jovens leitores.

As leituras compartilhadas, assim como os demais espaços destinados ao contato com a literatura, contribuem para a participação dos alunos numa comunidade escolar de leitores, na qual avançam não apenas em suas competências para enfrentar obras e autores diversos, mas também em suas possibilidades de refletir, analisar e argumentar.


¹ Ielena, a sábia dos sortilégios está esgotado e sem previsão de reedição. Em seu lugar, passamos a ler Contos Africanos, por Nelson Mandela.

² Inserimos em 3º ano, a leitura de Transplante de menina, de Tatiana Belinky e assim, Manolito passou a ser lido pelas professoras no decorrer do ano.

Texto publicado em 27 de setembro de 2011