Tarefa complexa ou complicada?

Por Divino Marroquini, professor de Química do Ensino Médio
e Daniel Mauro Justi, professor de Biologia do Ensino Médio

 

A educação para a alimentação é um tema, entre outros, que família e escola compartilham durante o crescimento das crianças e adolescentes. Temos hoje uma grande quantidade de informação, pela internet, TV e revistas, a respeito do que se deve ou não comer, de vários tipos de dietas para emagrecer, ganhar massa muscular ou de dietas restritivas quanto às fontes alimentares, tais como o ovolactovegetarianismo e o veganismo. De um ponto de vista curricular, vemos a importância de possibilitar aos alunos uma reflexão sobre tais informações perante o conhecimento científico, o que ocorre nos vários segmentos da escolaridade com diferentes abordagens e níveis de complexidade, porém sempre incluindo um olhar do aluno sobre seus próprios hábitos alimentares.

No curso de Biologia do 2º ano do Ensino Médio, os alunos realizam uma tarefa complexa sobre a temática “Nutrição”, cujo objetivo é promover a discussão acerca dos nutrientes e de seus valores calóricos, além de uma comparação entre as calorias ingeridas e aquelas que são gastas nas atividades físicas. Primeiramente, cada aluno é convidado a realizar o seu recordatório alimentar, o registro de todos os alimentos que consome durante três dias. Além disso, registram as atividades físicas praticadas nesses dias. Em seguida, utilizando as informações dos rótulos dos produtos industrializados consumidos e de tabelas confiáveis, como a Tabela de Composição Alimentar (TACO), publicada pela Unicamp, os estudantes contabilizam as quantidades de calorias, proteínas, carboidratos e lipídios ingeridas. Também determinam a energia despendida durante as atividades físicas de uma semana.

Escola da Vila

Mas como se determinam as calorias que existem em um alimento, tal como aparecem na tabela TACO?

Para responder a essa pergunta, os alunos realizaram no laboratório um experimento com castanhas-do-pará e nachos industrializados. Um recipiente com água, de volume conhecido, é posicionado sobre a castanha, que é levada à combustão, de forma que o calor liberado pela queima do alimento aqueça a água. Com um termômetro, fazem a medição da temperatura da água antes e depois da queima da castanha. Os dados permitem aos alunos que determinem quanta energia aqueceu a água, que corresponde à energia que aquela massa de castanha pode liberar ao ser digerida. Todo esse procedimento foi repetido para o nacho industrializado.

Escola da Vila

É interessante notar que os conceitos de Física, envolvidos nos cálculos realizados, foram desenvolvidos no curso de Ciências Naturais do 9º ano do Ensino Fundamental II, quando os estudantes realizaram um experimento com o objetivo de estabelecer a relação matemática entre a quantidade de calor recebida por um corpo e sua massa, sua variação de temperatura e a natureza do material. A sequência possibilitou que os próprios alunos propusessem o modelo matemático envolvido no fenômeno, em vez de receber uma fórmula pronta, o que é muito importante para a compreensão profunda das inter-relações das grandezas físicas. Ao relembrarem a fórmula que deduziram há dois anos, eles estão aptos a medir a quantidade de calorias que estava presente no alimento. Percebemos, nessa retomada, uma atividade de grande valor pedagógico, visto que os estudantes reutilizam aquela expressão, mas dando-lhe novo significado pela contextualização em um tema do cotidiano.
Escola da Vila

Com os dados em mãos, os alunos determinam as calorias por unidade de massa do alimento e comparam qual dos dois, castanha ou nacho, fornece mais calorias e, assim, podem investigar sua composição para entender o motivo dessa diferença. A atividade realizada é também um momento importante para disparar a discussão dos limites e contornos que o experimento apresenta, sendo fundamental para a compreensão das incertezas nesses resultados.

Para a comunicação desse experimento, os alunos produzem um relato de experiência sobre todas as etapas da tarefa complexa, desde como fizeram o recordatório alimentar, passam pelo experimento e chegam à discussão dos hábitos alimentares que permeou as várias etapas da tarefa.

Escola da Vila

Podemos ver, enfim, as possibilidades de aprendizagem que uma tarefa como essa propicia. Refletir sobre um tema de grande importância para a vida, desenvolver competências de leitura, escrita, manipulação de aparelhos, tomada e análise de dados, avaliação de resultados, e retomar para ressignificar conhecimentos adquiridos no cotidiano e nas séries anteriores. Por isso, a chamamos de tarefa complexa… Não porque pretende ser complicada, e, sim, porque conjuga objetivos de aprendizagem diversos perante temas que são multifacetados, pela sua própria realidade.

Famosxs da internet

Digital beggar por Eduardo Salles
Ilustração de Eduardo Salles

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Por Helena Mendonça

Você conhece a Giovanna do forninho? Ou a Chloe, que, em um vídeo caseiro, não entende por que sua irmã chora com a notícia recebida da mãe? A notícia do encontro dessas duas personagens que ficaram famosas ao se tornarem sucessos virais na internet causou estranhamento em muitos que não acompanham a avalanche de memes* das redes sociais. Elas se tornaram personagens principais ao divulgarem uma grande marca de tecnologia, que propunha uma busca na internet, para quem não as conhecia. Uma boa jogada de marketing que traz à tona o vazio e a rapidez com que os famosos da internet vêm e vão.

Assistindo aos vídeos que as fizeram famosas, podemos citar o que a Profª Paula Sibilia apresenta em seu livro “O show do eu”¹. Uma das ideias trata do desejo da exaltação da própria vida com o crescente acesso às mídias e redes sociais e de como a capacidade criativa da sociedade e a curiosidade sobre a vida alheia se tornam uma mercadoria. O que é ser famoso? O que é ser um influenciador? Esse também foi tema de um dos vídeos do Porta do Fundos recentemente. Uma entrevistadora que tenta entender o porquê da “famosidade” de uma pessoa que se tornou sucesso na internet, mais especificamente no Instagram e Snapchat. Algumas das perguntas da entrevista: “Por que as pessoas curtem as suas fotos? Quem é você? Por que você é famosa?” E a resposta: “As pessoas começaram a curtir e depois outras curtiram porque as primeiras curtiram e aí eu fiquei famosa…”.

Para além de ter um canal no YouTube, saber editar um vídeo, tentar entender o que dá mais curtidas e conhecer estratégias para que os espectadores vejam o vídeo até o final, é fundamental questionarmos esse movimento, analisarmos os vídeos construindo critérios com os estudantes, discutindo sobre o tema e levando em consideração que a maioria dos jovens segue, assiste e compartilha esse material. Eles participam desse movimento, surfando nessa onda muitas vezes sem se questionar sobre os valores envolvidos nessas ações.

Por causa dessas e outras práticas particulares do mundo digital, é fundamental que as práticas educacionais sejam revisitadas. Temas como a pesquisa, seleção e apresentação de dados encontrados na web, a criação de produtos digitais e seus diferentes formatos e formas de representação, a comunicação e as redes sociais, o trabalho e a economia, bem como o ativismo social digital, são alguns dos temas que também devem estar presentes na escola. Um dos documentos que temos usado como referência de currículo de educação digital para os alunos traz como uma das habilidades da convivência digital a compreensão do impacto social das tecnologias digitais. Entender e avaliar a capacidade que as tecnologias têm de impactar positivamente ou negativamente os indivíduos e a sociedade em suas questões sociais, econômicas e culturais é um dos temas de trabalho que constroem a formação do estudante. Outros temas igualmente importantes são a proteção da informação digital pessoal e de outros, o respeito ao direito de privacidade, o reconhecimento de dilemas éticos e as consequências legais no uso e na apropriação de material digital, bem como o impacto do digital no direito de propriedade intelectual.

A atenção à qualidade do material que é oferecido às crianças e aos jovens não é algo novo, a programação da televisão foi um grande motivo de discussão na época da sua popularização. Talvez a maior diferença agora seja a possibilidade de criação de material, agora digital; criação esta que se torna possível com ferramentas cada vez mais acessíveis, fartos canais de distribuição e um enorme público à disposição.

Nesse sentido, a escola tem promovido diversas ações visando a construção de conhecimento com o digital, levando em consideração também as questões didáticas que são impactadas por essa mudança. Essas ações vão desde o aprendizado técnico de recursos disponíveis para diferentes fazeres, passando pela formulação de critérios de produção, análise de referências, contato com diversas possibilidades, até a discussão sobre temas mais ligados ao universo digital, mencionados acima, a criação individual e coletiva e finalmente publicação e a interação com os diferentes públicos. Assim esperamos formar estudantes conscientes e críticos perante o universo digital.


(*) Memes: imagens ou vídeos que são remixados pelos usuários e se tornam virais, ou seja, são compartilhados por muitas pessoas, às vezes remixados e compartilhados novamente.

¹SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

Publicação relacionada:
YouTube, YouTubers e a Escola 

Visita à Escola Parque

Por Sônia Barreira e Fernanda Flores, direção pedagógica da Escola da Vila

Recebemos a equipe da Escola Parque e da Escola Balão Vermelho no dia 19 de maio para apresentar nossa escola e nosso projeto pedagógico. Ao preparamos as apresentações nos perguntávamos o que devíamos ressaltar, quais os destaques e quais os principais desafios que nossa equipe enfrenta nos últimos anos. Esse processo, a visitação e o encontro nos levaram a olhar nossa escola sob uma perspectiva diferente da habitual.

Normalmente imersas no dia a dia, essa oportunidade nos levou a constatar algumas conquistas históricas das que nem sempre nos damos conta: a estabilidade dos projetos, a fartura de documentação pedagógica produzida pela equipe, a superação de desafios que nos colocamos ano a ano. Temos uma produção intensa e avançamos de modo orgânico, lembrando o funcionamento de um organismo vivo, interdependente e pulsante.

Na sexta-feira, dia 9 de junho, nos tornamos visitantes. Fomos recebidas com acolhimento e entusiasmo pela equipe da Escola Parque. Inicialmente, tivemos uma apresentação feita pelos diretores e conhecemos os pilares de um Projeto Pedagógico de 47 anos de idade! Como o nosso, em transformação permanente, revisado e atualizado constantemente.

Escola da Vila visita a escola Parque

Em seguida, os grupos se dividiram por segmento. Pela Educação Infantil e Fundamental 1, as equipes de coordenação e orientação apresentaram as características principais do trabalho que realizam e tivemos oportunidade de, mais uma vez, aprofundar conhecimento sobre aquilo que nos aproxima e aquilo que fazemos de formas próprias, podendo trocar experiências e desafios que as escolas enfrentam nessas etapas da escolaridade.

O Fundamental 2 e o Ensino Médio foram brindados com apresentações dos próprios alunos, que nos contaram sobre projetos propostos a eles e vividos com intensidade e curiosidade próprias de alunos engajados e comprometidos. Algumas propostas dialogam com ações realizadas na Escola da Vila, outras, totalmente únicas, pareciam responder às demandas que conhecemos, portanto inspiradoras e instigantes.

Escola da Vila visita a escola Parque

Escola da Vila visita a escola Parque

A escolha por parte dos alunos, tema que nos desafia atualmente, parece ter sido bem equacionada na Parque, muito embora disponham de um tempo didático mais amplo que o nosso, ainda assim, nos estimulou a reconsiderar a organização de alguns mecanismos de trabalho.

A distribuição do trabalho na equipe técnica foi outro elemento novo para nós, e boa parte das reuniões foi gasta para entendermos quem faz o quê, e a relação daquelas funções com as nossas aqui na Vila. Coordenador, orientador, psicopedagogo não equivalem diretamente aos nossos cargos. Pensar na forma de realizar o trabalho fora da sala de aula também resultou em conversas férteis e reflexões intensas.

Escola da Vila visita a escola Parque

O passeio guiado pelas dependências da escola da Barra, finalizando a Semana do Ambiente, nos mobilizou a pensar no trabalho que fazemos com a sustentabilidade e protagonismos dos alunos. Podemos mais!

Escola da Vila visita a escola Parque

Escola da Vila visita a escola Parque

Olhar o dia a dia de uma escola é inspirador, conhecer soluções pedagógicas e educacionais de uma equipe que compartilha os mesmos valores que a nossa é desafiador. Agradecemos a todos os profissionais da Escola Parque a generosidade com a qual se dedicaram a nos receber.

Ah, a Vila Literária!

Vila Literária

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Por Vicente Régis, coordenador do Setor Cultural,
com a participação de Francisco Zardo de Melo, aluno do 6º ano

No segundo semestre, no dia 21 de outubro, teremos a quarta edição da Vila Literária. Para quem não o conhece, este é um evento de celebração da literatura, da poesia, da metáfora e da arte. Momento de celebração da coragem de se jogar em uma produção artística que revela um pouco mais do que somos, de nosso imaginário. Momento de entrar em contato com artistas que fazem do ato de inventar, escrever e contar histórias, recitar poemas ou criar oficinas seu principal caminho no mundo. Momento de celebração da literatura como linguagem que nos constrói, nos diverte, nos emociona e nos informa.

Além das oficinas, exposição de trabalhos de ilustradores, intervenções artísticas, oficinas diversas e uma feira de troca de livros, entre outras surpresas, teremos a premiação do IV Concurso Literário, concurso este que conta, a cada edição, com a participação de mais e mais estudantes do 2º ao 5º ano do Fundamental 1.

Este concurso prevê um processo de escolha de destaques que serão homenageados no dia do evento, e alguns dos textos são escolhidos pelo Grupo de Teatro do Ensino Médio para serem encenados ao público presente.

Mas o que um concurso escolar tem de importante? Entendemos que o real ganho de um convite como este está em estimular a produção literária autoral dentro da escola, abrir espaço para mais uma situação de produção textual, porém com menos tutoria dos adultos, espontânea e de livre adesão.

Acreditamos que os grandes ganhadores deste concurso são os alunos e as alunas que participam, que se empolgam e abraçaram o convite! Isso porque escrever um texto para um concurso é uma atividade bastante potente para o desenvolvimento da escrita e da habilidade de inventar narrativas e afins, que complementa a formação literária feita em sala de aula, quer seu texto ganhe destaque ou não. Quando as crianças se atiram em uma tarefa como esta, faz-se necessário lançar mão de muitas das competências desenvolvidas em anos de processos relacionados ao ato de escrever. E isso vale muito mais do que a seleção dos destaques.

Convidamos o aluno Francisco Zardo de Melo, atualmente no 6º ano, que participou das edições anteriores, para compartilhar seu depoimento!

“Ah, a Vila Literária!

É uma experiência incrível. Você se dedica um tempo, mas não é um tempo mal gasto. É um tempo gostoso, um tempo muito bem gasto. Na primeira vez, foi uma empolgação incrível. Descrever uma bruxa, usando a pura imaginação. Após muito trabalho, ver seu texto reconhecido, subir em um palco pra falar pra um monte de gente. Ter esse reconhecimento é demais!

Na segunda vez, estava mais tranquilo. Já tinha mais experiência como leitor. Tinha que escrever sobre minha família, alguma história engraçada. Escrevi sobre a vinda de uma humilde família portuguesa em busca de novos ares em território brasileiro. Escrevi com muito empenho, e me restou esperar. E, de novo, acabei ganhando. A mesma sensação, a mesma empolgação. Falei de novo para um montão de gente. Nem tanta gente, mas a empolgação traz a sensação de uma multidão. De novo a sensação de reconhecimento. Essa experiência que levo até hoje e vou levar para toda a minha vida. Um trabalho, um tempo, muito bem gasto, e que traz alegria, reconhecimento, empolgação e diversos sentimentos incríveis que todos vão levar para toda a sua vida, cada um de um jeito.

Bom, essa é minha experiência com a Vila Literária e com tudo que a Vila nos traz de literatura.” 

Aguardamos ansiosos as inscrições de todos os textos de nossos alunos e alunas para mais uma emocionante edição!

E, para os leitores interessados, compartilhamos aqui as revistas das edições anteriores com todos os textos entregues na I, II e III Vilas Literárias!!!

Acampamento de férias: um convite à aventura

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Por Washington Nunes, coordenador de esportes

Existem algumas ações desenvolvidas pelo Setor de Esportes que tiveram, ao longo da história, duas origens bem interessantes.

A primeira tem a ver com a criação de uma atividade que os professores do setor, a coordenação e a direção julgam ser importante para o desenvolvimento das crianças. Isso aconteceu com a implantação da Capoeira, da Oficina Lúdico-motora e Esportiva, do Tênis, da Oficina de Esportes, da Escalada e de todos os treinamentos das diferentes modalidades: Basquetebol, Futsal, Handebol e Voleibol.

A segunda surge de uma demanda apresentada pelas famílias. Nesse caso, alguns pais nos procuram ou nos mandam sugestões e, a partir daí, verificamos como viabilizar sua implantação. Foi o caso da Escolinha de Futsal, que foi criada a partir de várias solicitações de pais.

E, no meio dessas duas, houve a criação de uma que envolveu sugestões de alunos, professores e pais: o Acampamento Esportivo de Férias.

Para alguns alunos, a ideia de continuar a praticar sua modalidade favorita em meio ao período de férias seria muito legal.

Já para os pais que não conseguem conciliar as férias do trabalho com as férias escolares dos filhos, o acampamento tem a capacidade de aliar recreação e aprendizagem, pois os filhos podem participar de diferentes atividades, estar em um local que oferece conforto, segurança e o acompanhamento de professores da Vila.

E, por último, os professores viram nessa atividade uma ótima alternativa de conhecer os alunos em um ambiente mais informal e dar continuidade a ações de práticas corporais e esportivas.

Um acampamento de férias pode contribuir com o desenvolvimento integral dos participantes, porque, por meio de propostas esportivas, recreativas, culturais, de jogos e brincadeiras, surge “um convite à aventura” de conhecer pessoas, conviver, integrar, ter papel dentro de um grupo social, ter liberdade e autonomia com um toque especial para a segurança e em contato com a natureza.

Por tudo isso, acredito muito na força que o acampamento tem para o desenvolvimento dos alunos.

Ao viajarem sem os pais, as crianças e os jovens aprendem a cumprir obrigações consigo, com os colegas de quarto, com os monitores e com as regras do acampamento.

“Viajar sozinhos” oferece às crianças e aos jovens poderem vivenciar e resolver situações-problemas, fazer escolhas longe da supervisão dos pais e cuidar e se responsabilizar pelos seus pertences. Isso desenvolve a autonomia, pois surge a necessidade de tomar decisões, acatar novas regras e combinados e gerenciar novas responsabilidades.

Para os pais pode ser também um aprendizado, pois terão que conviver com a separação momentânea, com a ideia de que o filho não precisa mais dele (o que nunca vai acontecer) e perceber um comportamento mais independente por parte da criança.

O Setor de Esportes realizará em julho a nona edição do acampamento.

Que bom que conseguimos, ao longo de tantos anos, dar continuidade às ideias dos que auxiliaram em sua construção.

Um abraço, e para os que vão embarcar conosco, até julho!

Festa Junina da unidade Granja Viana. Um evento feito por todos e para todos

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana
Clique na foto para acessar o álbum da festa no Flickr da Vila

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Por Vania Marincek, diretora da unidade Granja Viana

No sábado deste fim de semana, aconteceu a Festa Junina da unidade Granja Viana, e foi um sucesso. Muita animação, muita dança, muita alegria!

Quem esteve na festa pôde ver o cuidado com que a escola foi preparada para o evento, mas nem todos sabem que, para que isso acontecesse, houve trabalho de muita gente, e não só de quem trabalha na Vila.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Desde o planejamento e a concepção feitos pela equipe do setor cultural, passando pela decoração, confeccionada por todos da equipe administrativa, a organização do espaço e montagem da decoração pela equipe de manutenção e limpeza, até a confecção das prendas das barracas, elaboradas pelos alunos e professores de cada turma.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Esse tem sido o tom de nossas festas desde o primeiro ano da Vila na Granja. No primeiro ano tudo era novo, alunos, pais, funcionários e professores, todos estavam chegando e se conhecendo. Era o início de uma nova comunidade que começava a se constituir em cada ação com as crianças, em cada encontro com as famílias, e a festa junina cumpriu um papel importante nesse processo por ser uma festa com a participação de todos, com o foco na diversão e no aprendizado das crianças.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Uma festa com a qual todos se comprometeram, a começar pelas prendas que foram feitas pelos próprios alunos. O resultado foi lindo, as crianças se divertiram a valer nas barracas e valorizaram as prendas que ganhavam nas brincadeiras, tinham orgulho por terem feito cada uma delas. Era algo feito por eles e para eles.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Com a evidência do sucesso de nossa festa, no ano seguinte criamos as oficinas para pais, uma forma dos pais participarem de maneira mais efetiva. Oficinas semanais, no mês que antecede os festejos, em que as famílias podem participar ajudando na confecção das prendas e dos adereços que serão usados na decoração do evento.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Cada um participa como e quando pode. Algumas oficinas contam com um número grande de participantes, outras com uma menor participação, mas o que é unanimidade no depoimento de quem já participou é o prazer em produzir algo para as crianças e sentir-se mais próximo dos filhos e da interlocução com outros pais.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

A festa deste ano foi a nossa 4ª festa junina, e vimos nossa opção por fazê-la com a cooperação de todos reforçada em muitos momentos. Nos depoimentos dos alunos em sala, que contam que guardaram com carinho as prendas recebidas em outros anos, no envolvimento deles na produção das lembranças, desde os pequeninos do 1º ano até os mais velhos do F2; na participação não só dos pais nas oficinas, mas também de avós que vieram e ajudaram muito e, por fim, no clima contagiante do dia da festa.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Uma festa feita por todos e para todos os que convivem juntos no espaço da Escola!

Um pouquinho da SAD em filme

Por Susane Lancman

A expressão popular “uma imagem vale mais do que mil palavras” pode ser comprovada no filme que foi feito na primeira SAD de 2017 pelo Daniel Mattos, cinegrafista oficial da Escola da Vila.

De qualquer forma, vou tentar explicar com palavras um pouquinho da SAD e dessa em especial.

A tradicional Semana de Atividades Diversificadas (SAD) se constituiu num espaço muito rico e potente do ponto de vista pedagógico, uma vez que nos permitiu reorganizar o tempo e o espaço escolar para atividades que talvez não tivessem condições de serem realizadas no dia a dia normal da escola. Por exemplo, é na SAD que podemos programar saídas a campo, assistir e debater filmes sem sermos interrompidos em função do horário das aulas, criar atividades interséries com focos em interesses variados.

As atividades são preparadas com antecedência e discutidas por todo o corpo docente, sempre procurando que elas tenham caráter formativo e/ou estejam relacionadas com o currículo. Assim, cada uma das atividades das aulas regulares ou da SAD são planejadas, executadas e avaliadas tendo como parâmetro os objetivos mais amplos da educação e os específicos das disciplinas.

Nos últimos tempos, muitos alunos pediram à coordenação espaço na organização das atividades da SAD. Tal reivindicação foi acolhida com muito entusiasmo, uma vez que é um indicador do que entendemos como autonomia dos estudantes e porque aparecem atividades que atendem às demandas que os afligem não apenas como estudantes, mas como sujeitos de direitos e cidadãos. As atividades propostas pelos estudantes – organizados ou não no grêmio – passaram, então, a fazer parte da SAD e também fora dela. Como exemplos dessas organizações, podemos citar o Coletivo Feminista, o Cineclube, assim também como o Grêmio Estudantil. Todos esses agrupamentos dos estudantes são estimulados e acolhidos dentro da escola, desde que não extrapolem os acordos estabelecidos entre a instituição e os alunos.

É fácil entender que os alunos de alguma forma queiram discutir assuntos que estão permeando o cenário político brasileiro, como a greve geral. Além de trazerem seus interesses extraescolares com atividades relacionadas a música, arte, dança, literatura, ciências…

Na primeira SAD deste ano, em que a filmagem possibilita vivenciar um pouquinho do que de fato aconteceu, uma das atividades foi a Banda da SAD conduzida por três alunos do 3º ano, Cao L. Bergo, Luis Felipe F. Grupioni e João Pedro V. B. Jabour. O desafio era tocar diferentes instrumentos de percussão, cordas, sopro e teclado com alunos de diferentes classes com diferentes competências musicais. Outra atividade foi conduzida por uma aluna do 3º ano, Luara Macari Nogueira, que deu uma aula de dança tendo como foco refletir “O corpo afro-brasileiro na expressão mitológica de Oyá”. Já o aluno Antonio Pedro Ayd Zellmeister tinha como objetivo compartilhar seu conhecimento sobre arte Bauhaus e o trabalho do artista Hélio Oiticica e a partir dessas referências desenvolver uma intervenção no espaço escolar. O grupo dos alunos do Grêmio proporcionou uma explanação sobre as greves no Brasil e explicaram as reivindicações da greve geral de abril deste ano. Já o Coletivo Feminista organizou uma discussão sobre a cultura do estupro. Essas foram as atividades coordenadas pelos alunos, planejadas com muito comprometimento e conduzidas com muita seriedade. Houve também atividades conduzidas pelos professores relacionadas com os conteúdos da sala de aula, como as de oceanografia para os 2ºs anos, saídas e discussões  sobre moradia na cidade de São Paulo para os 1ºs anos, filmes e saídas relacionados às disciplinas de História e Geografia para os 3ºs anos. Outro rol de atividades foi conduzido por convidados, como os professores de universidades públicas, e por ex-alunos que conversaram com alunos dos 2os e 3ºs anos sobre a escolha da carreira acadêmica.

A segunda SAD acontecerá nos dias 12, 13 e 14 de junho, tendo como tema central o preconceito racial, assunto que é muitas vezes velado em nossa sociedade brasileira, em que prevalece um discurso que vivemos em uma democracia racial. Mais uma vez o tema foi trazido por um grupo de alunos pertencentes ao Coletivo Preto, movimento criado recentemente, que visa discutir questões raciais. Acolhemos a ideia com muito entusiasmo por acreditarmos na relevância do tema. Vale dizer que a escolha do tema central da SAD não exclui a possibilidade de haver outras atividades que não se relacionam diretamente com a temática. Afinal, nossa intenção é que a diversidade de protagonistas, as atividades, os espaços e tempos contribuam na formação integral de nossos alunos.

Somos possíveis agentes de transformação… Lançamento da campanha VILACOLHE 2017

Por Giulia Zanetti e Vitória Vaz, alunas do 2º ano do Ensino Médio

Durante os anos na Escola da Vila, em especial durante os três últimos, nós, Giulia Zanetti e Vitória Vaz, alunas do 2º ano do Ensino Médio, passamos a olhar para o mundo de uma forma diferente. A partir das aulas de Política e Sociedade, do diálogo em casa e das atividades que são propostas na Escola, nós nos visualizamos como possíveis agentes de transformação, assim buscamos realizar uma ação real.

No ano de 2016, entre os muitos temas que nos impactaram, fomos tocadas pela situação dos moradores de rua da cidade de São Paulo. Vimos que o frio intenso precariza ainda mais a situação dessas pessoas, que são, muitas vezes, deixadas de lado pela conjuntura social. Esse assunto acabou por nos mobilizar. Assim, em junho do mesmo ano, quando o frio atingia seu auge, iniciamos a Campanha do Agasalho com o objetivo de arrecadar roupas de inverno. Para tanto, pedimos auxílio da nossa coordenadora Susane e do orientador Chicão, que nos indicou um local para onde poderíamos levar os casacos e outras peças de roupa, enquanto as meias seriam enviadas para a Puket, que realizou uma movimentação em que essas peças seriam transformadas em cobertores.

Primeiramente passamos nas salas dos alunos do Ensino Médio avisando que estaríamos dando segmento a tal atividade. Na mesma semana, após conversarmos com a equipe do Fundamental 2, fomos às salas do Fundamental 2, onde fomos recebidas com grande entusiasmo por parte dos alunos. Assim, começamos a arrecadação de fato.

Efetuamos uma divulgação nas redes sociais para implicar mais pessoas e para que todas pudessem se sentir agentes de transformação.

Deixamos duas caixas na frente da famosa sala da Chacur, por onde todos os alunos passam, para que assim aumentasse a visibilidade do projeto.

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Logo notamos uma grande mobilização dos alunos, e vimos que ambas as caixas iam sendo enchidas progressivamente. Assim, no final de junho de 2016, ambas as caixas colocadas por nós estavam cheias graças a um projeto bastante colaborativo e bem recebido.

No início das férias escolares, enviamos as meias para a Puket e levamos os casacos para o grupo Filhos para Filhos. Nesse mesmo dia, auxiliamos na separação de roupas e na montagem de marmitas que seriam distribuídas para moradores de rua da região. Assim, vivemos nossa segunda ação real de transformação.

A experiência foi tão gratificante que, no final das férias, voltamos a esse local para realizar algumas atividades com crianças carentes. Cada uma delas era especial, tinha um sorriso único, um olhar único, elas pareciam estar valorizando os momentos que passamos junto delas.

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Ficamos encantadas com essas crianças!

Aos poucos fomos chamando para participar do projeto outras amigas muito queridas, como Beatriz Conishi, Nina Quintanilha e Manuela Moura, alunas secundaristas que também se envolveram com o projeto.

Voltamos outras vezes, como, por exemplo, no Dia das Crianças, em que foi realizado um evento no Parque da Chácara do Jóquei próximo à Unidade Morumbi, e lá passamos o dia às voltas com brincadeira infantis. Mais uma vez ficamos encantadas pela atitude dos nossos pequenos e pequenas.

As experiências que tivemos tanto no trabalho feito com a arrecadação de casacos como com as crianças foram extremamente prazerosas, e apesar de terem sido pequenas ações sentimos a diferença em nós mesmas.

Pensando em tudo isso, quando o frio deu os primeiros sinais este ano, sentimos que estava na hora de realizar novamente a Campanha do Agasalho. Desta vez, mais organizadas, criamos a CAMPANHA VILACOLHE. Temos como meta mínima este ano arrecadar aproximadamente 120 casacos e 70 meias. As caixas estarão nas três unidades e todos os alunos podem participar com doações.

Acreditamos na importância de ações voluntárias como forma de melhorar nossa sociedade, possibilitando, inclusive, unir nossa comunidade escolar. A mudança pode ser pequena diante da dimensão de tantos problemas que precisam mudar fora da Escola, mas, como agentes transformadores, precisamos fazer alguma diferença, mesmo que pequena.

Gostaríamos de agradecer a nossos professores, orientadores e colegas por terem recebido tão bem a nossa proposta, tanto no ano de 2016 como neste ano. Contamos com a colaboração de todos!

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A força da formação cidadã indissociável do processo de formação do leitor, escritor, ouvinte e falante.

Por Vania Marincek, diretora da unidade Granja Viana.

Na década de 1980, bem no início de nosso trabalho, conhecemos as investigações de Emilia Ferreiro, relativas à alfabetização. Conhecer o que as crianças pensam sobre nosso sistema de escrita nos trouxe referência para apoiar nossos alunos na construção desse novo conhecimento. Mas suas pesquisas nos ensinaram mais do que isso. Aprendemos não só com ela, mas também com outros investigadores que seguem sua linha de investigação, a buscarmos os melhores encaminhamentos didáticos em sala de aula para favorecer o aprendizado de nossos alunos, e essas referências norteiam o nosso trabalho até os dias de hoje.

Ainda em 1980, a equipe de professores da Vila participou pela primeira vez de um seminário de alfabetização e de práticas de linguagem em Buenos Aires, e de lá para cá inúmeras foram as vezes em que buscamos referências didáticas com esse grupo de pesquisadores, seja em viagens a Buenos Aires para “beber da fonte”, ou em cursos e supervisões organizados pelo nosso Centro de Formação. Com eles aprendemos sobre Didática da Matemática, Didática das Ciências Sociais, Didática das Ciências Naturais, Didática da Língua, sempre de forma aprofundada e reflexiva, pois se trata de um grupo com forte preocupação em buscar a melhor forma de organizar as situações em sala de aula para garantir as aprendizagens.

A partir de 2002, o Centro de Formação da Escola da Vila tem organizado viagens anuais nomeadas Viagens Pedagógicas, que visam conhecer novas experiências escolares e novas formas de trabalho didático. Já aconteceram viagens para a Espanha, para os EUA, Canadá, México, Itália e Argentina, e, nesse caso, mais de uma vez, já que há sempre novas pesquisas que apoiam novas ações didáticas, o que muito interessa à escola.

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A viagem deste ano foi novamente para Buenos Aires para conhecer as investigações sobre a implementação dos meios digitais na escola, com as pesquisadoras Flora Perelman e Vanina Estévez.

Além das aulas nas quais o grupo era convidado a conhecer distintas experiências com o uso de tecnologia e a refletir sobre elas à luz de um marco teórico, houve também uma visita a uma escola, o Instituto Platerillo, em que as conversas com professores e alunos trouxeram novos elementos para a reflexão do grupo.

Escola da Vila

Ao longo de 5 dias foram abordados trabalhos que traziam experiências de inclusão de projetos digitais na educação básica, de formação de professores a distância, de leitura crítica de notícias, de produção de mídias na escola e de videogames para o ensino.

Todas as experiências apresentadas estavam situadas em um marco de referência que define como principal objetivo do trabalho formar leitores, ouvintes, falantes e escritores em nosso tempo e espaço.

Para quem acompanha o trabalho desse grupo de investigação, essa não é uma ideia nova, mas no curso ganhou força ao longo dos dias, com as apresentações dos projetos e das sequências didáticas.

Havia uma preocupação com a formação cidadã expressa nos encaminhamentos relatados. Como exemplo, cito a apresentação de um trabalho de leitura midiática de notícias em que fica evidente que a reflexão proposta vai além da compreensão das notícias e de sua estrutura. Propõe-se uma reflexão sobre os distintos meios que constroem a informação nos dias de hoje, sobre a complexidade do mundo midiático em que tudo o que circula é parte de uma construção, sobre não haver um único ponto de vista, mas inúmeros e distintos.

A preocupação com a formação de indivíduos autônomos, capazes de entender o mundo que os cerca, e aptos a tomar decisões, esteve presente em todas as situações apresentadas e trouxe elementos que reforçam nossa opção por formar para a autonomia, um dos valores da Escola da Vila.

“Qual é a lógica por trás de…?” – Revelações sobre o trabalho com meios digitais

Por Cristina Maher, professora de Filosofia do Ensino Médio
Luiza Moraes, professora de LPL do F2
Ricardo Buzzo, professor de Ciências Humanas do F2

Já há algum tempo, a equipe de professores da Escola da Vila vem se debruçando sobre o desafio de pensar o lugar e os sentidos do trabalho com meios digitais na escola. Quando viajamos para a Argentina para integrar a Jornada Implementación de Los Medios Digitales en Educación Básica, levávamos na bagagem algumas certezas, entre elas a de que o trabalho com meios digitais não deve ser tomado como um fim em si mesmo. Muitos foram os momentos, ao longo daquela intensa semana de estudos, em que fomos levados a questionar algumas de nossas convicções. Esse questionamento não resultou na desqualificação de nosso ponto de partida, mas certamente nos obrigou a voltar a examiná-lo.

Se continuamos partindo do pressuposto de que os meios digitais são ferramentas para a aprendizagem de outros conteúdos, agora também temos clareza de que eles são conteúdo em si, na medida em que trabalhamos com a formação de práticas de linguagem atrelada à formação cidadã. O que está em jogo é a formação de sujeitos capazes de exercer práticas sociais de interpretação e de produção que passam pelos meios digitais. Não se trataria, dessa forma, nem de conhecer os meios digitais simplesmente porque eles potencializam a aprendizagem de outros conteúdos e muito menos de ensiná-los apenas como técnicas que precisam ser dominadas. Ao contrário, ensinam-se meios porque eles contribuem para a aprendizagem de outros conteúdos e também porque isso é essencial para formarmos leitores, escritores, falantes e ouvintes em nosso espaço e tempo. Ou seja, se queremos alfabetizar nossos alunos para que leiam criticamente os discursos que circulam em nossa sociedade, não há outra maneira que não incluir em nossos currículos os meios digitais.

Além de nos ajudar a repensar os objetivos do trabalho, a jornada de estudos organizada por Flora Perelman e Vanina Esteves nos levou a descobrir novas respostas para uma pergunta que nos acompanhava desde o Brasil: de que maneira os meios digitais podem tornar mais significativo aquilo que queremos que os alunos aprendam? Entre as descobertas da viagem pedagógica, encontra-se uma constatação que surpreende justamente por sua aparente simplicidade: os meios digitais podem ajudar a tornar visíveis “processos” que eram invisíveis aos olhos dos estudantes. A potencialidade dessa constatação encontra-se em alguns dos marcos epistemológicos que sustentam o trabalho investigativo comandado por Perelman e Esteves.

Se o trabalho com meios digitais tem como sentido a formação de leitores, escritores, falantes e ouvintes em nosso espaço e tempo, ele parte do princípio de que as crianças e os adolescentes são sujeitos sociais que significam o mundo, transformando-o desde suas possibilidades interpretativas e de suas práticas sociais. Ao tirar os estudantes do papel de consumidores passivos dos meios digitais e ao colocá-los no papel de produtores, a escola os ajuda a entender as lógicas envolvidas nos processos de produção desses meios, levando-os a se tornar, por fim, usuários mais críticos. Nessa perspectiva, os meios digitais são tomados como objetos que correspondem a sistemas culturais, históricos, econômicos situados, que não apenas representam o mundo, mas que podem também transformá-lo.

Foi a partir desses marcos epistemológicos que constatamos nossa “simples” descoberta: tornar visíveis processos antes invisíveis parece ser o ponto de partida para a elaboração de propostas de ensino/aprendizagem com meios digitais. Flora Perelman, Vanina Esteves e outros professores e pesquisadores convidados nos apresentaram algumas sequências didáticas que explicitam esse princípio.

O desenho de uma sequência sobre notícias, por exemplo, parte das representações infantis sobre a produção jornalística e torna visível a elaboração desses textos como construção (e a partir daí é possível assisti-las não mais como representação fiel da realidade).

Como são produzidas as notícias_

Em um trabalho com o corretor ortográfico de editores de texto, propõe-se um uso analítico e reflexivo da ferramenta que permite ao aluno, além de colocar em jogo os seus conhecimentos sobre ortografia, perceber a língua como construção política. Ao apresentar aos estudantes mapas interativos, problematiza-se o processo colaborativo de produção de um mapa, ajudando-os a perceber a diversidade de forças e de interesses que formam o espaço e as representações sobre ele.

Open Street Maps

A produção de crônicas fotográficas coloca o aluno diante do desafio de construção de uma narrativa visual e, a partir do olhar sensível, interpretativo e reflexivo, ajuda-o a perceber o “acontecimento” como uma construção. A experiência de jogar determinado videogame foi transformada em situação didática, na medida em que o professor propõe orientações precisas e perguntas certeiras com a finalidade de levar o aluno a pensar em problemas sociais a partir de uma lógica de multicausalidade e de interesses de diferentes atores.

viedogame

Enfim, processos antes invisíveis para os alunos podem se tornar visíveis com a desconstrução, análise e, por vezes, produção dos meios digitais. A questão “qual é a lógica por trás da produção de notícias, do corretor ortográfico, dos mapas interativos, etc.?” acompanha todas as elaborações das sequências mencionadas. Essa trajetória resulta, intenta-se, na formação de usuários mais críticos dos meios digitais, de sujeitos que dominam as práticas sociais de leitura, escrita, oralidade, próprias de nosso tempo. Dessa forma, não temos mais meros receptores de notícias, ou não se vê mais a fotografia como janela da realidade, mas domina-se a lógica de construção dos discursos que circulam ao nosso redor. Não somos dominados pelas mídias digitais, mas as dominamos.

Assim, ao defender a implementação dos meios digitais na escola, não falamos em adotar uma postura de inovação pela inovação, ingenuamente celebrando as tecnologias. Não assumimos, também, que basta vestir os mesmos conteúdos em novas roupas – digitais. O uso significativo, que acontece a favor da aprendizagem do aluno, depende do saber pedagógico e do planejamento de situações didáticas ajustadas aos objetivos de aprendizagem – percebendo quais são os novos objetivos de aprendizagem que devem ser colocados diante das novas práticas sociais, e quais permanecem. Isso sempre com o intuito de contribuir com a formação de leitores críticos, escritores, falantes e ouvintes nos âmbitos da formação cidadã, da formação literária e da formação do estudante.