Está na hora de ir para a escola?

Turma de dois anos

-

Por Daniela Munerato 

Educar é manter-se presente. Uma presença traduzida também no respeito de compreender as fases da criança e no reconhecimento de que precisa de novos desafios conforme vai adquirindo vivências e saberes que passam a não ser mais desafiadores no âmbito familiar. A casa parece ficar muito conhecida, está na hora de ter novos desafios físicos, ampliar a convivência com outras pessoas que representarão referências importantes além dos cuidadores familiares. A criança irá conviver com outras crianças de diferentes idades, iniciando de fato uma vida em sociedade. Assim, construirá progressivamente o conceito de “nosso”, aprenderá a dividir, a lidar com frustrações e continuará crescendo. Então, vamos conhecer a escola!

Turma de dois anos

No sentimento dos pais, o portão da escola se abre e a visão é de um espaço diferente do que seu filho ou filha já viu e viveu até agora. Espaços comuns de convivência, de interação, aprendizagem! Um friozinho na barriga passa quase imperceptível, como em qualquer situação de novidade, ainda mais quando se trata de onde deixaremos nosso bem mais precioso. Consideramos também que estaremos todos em adaptação, em fase de nos conhecermos, de nos vincularmos e desta confiança garantir a segurança maior de que a rotina da criança será composta por momentos que marcarão sua história de forma muito positiva.

Turma de dois anos

Sair do contexto familiar e enfrentar novas experiências nos dará oportunidades de aprender mais sobre a criança e sobre sermos pais, aprenderemos novas brincadeiras, músicas e ampliaremos nosso repertório de critérios para realizarmos leituras, por exemplo. Além disso, teremos um grupo de pais com o qual poderemos trocar experiências, descobrindo semelhanças no comportamento de nossos filhos, e uma equipe de educadores que poderá realizar orientações e que nos acompanhará nesse caminho.

Turma de dois anos

A rotina de casa, o momento com os pais é muito importante. O cheirinho de comida caseira, ter o seu quarto e a sua cama, um brinquedo preferido, animais de estimação, assuntos de família… E compor essa rotina com ambientes que despertarão novas curiosidades, interações, ter o brinquedo de todos, materiais construídos coletivamente e que, através deles, a noção de si e do outro também vai sendo construída, além de oportunidades para conversarem sobre contextos sociais e de investigação, como  acompanhar os usos do calendário, aprender jogos coletivos e participar em diferentes situações comunicativas, orais, escritas, plásticas… Não podemos perder tais oportunidades!

Então, seguimos pensando na importância das múltiplas experiências na vida da criança, na parceria casa e escola e num tempo chamado infância, repleto de conquistas, que passa depressa, num movimento intenso e cheio de vida!

E os pequeninos chegaram por aqui…

-

Por Daniela Munerato

Desde fevereiro, a unidade Morumbi da Escola da Vila passou a receber crianças bem pequenas, que completam dois anos no primeiro semestre do ano. Um verdadeiro presente!

Podemos dizer que a novidade trouxe mudanças para todos: uma sala pensada para os pequeninos, uma rotina diferenciada, atividades especialmente planejadas para as demandas de ação e descanso comuns a essa idade.

No parque, mais olhos atentos para uma energia nova, mais voltada para a exploração, o que nos demandou a elaboração de várias propostas motoras que auxiliam no desenvolvimento de habilidades importantes de equilíbrio e estabilidade, tudo com a costumeira assessoria do professor Júlio, de Educação Física.

Nos diversos espaços, as brincadeiras correm soltas com tecidos, músicas, bolinhas de sabão, tintas especiais feitas com cheiros e texturas, pensando no despertar das sensibilidades e na exploração das curiosidades que aparecem a todo o momento.

No banheiro, acontecem as trocas de fralda e o desfralde, um processo que ocorre em grupo, mas também individualmente no grupo, com um olhar para cada criança em seu tempo, com a acolhida e a confiança construída pelas professoras da turma.

Ou seja, observamos uma rotina bastante estruturada que organiza o dia a dia da turma de dois anos, uma turma bastante animada que também visita a biblioteca uma vez por semana, onde ouvem mais histórias contadas pela Paulinha e saem falando os nomes dos personagens que conhecem: “o macaco!”.

Também participam de situações de integração com os outros grupos da Educação Infantil, como as cirandas no parque, ouvindo histórias coletivas ou confraternizando em lanches organizados para todos, num grande piquenique. Os grupos de 3 a 5 anos aprendem como interagir e ajudar os menores nos desafios que lhes são próprios. Este é um convívio bastante importante e a riqueza dessa interação e desse aprendizado é algo maior.

As aulas de música marcam um momento bastante especial da semana com o professor Theo. Outro dia, uma criança do grupo comentava: “O Theo acorda o violão, ele ronca! E faz assim… 1, 2, 3 acorda violão…”. As situações de musicalização acontecem através de propostas de cantoria, dança, histórias musicadas e brincadeiras.

E, na hora de ir embora… Os pais entram na sala e participam um pouquinho da rotina que está acontecendo. Nesse momento, as professoras contam sobre momentos do dia e as crianças aproveitam para mostrar fotos, produções, materiais, brinquedos ou livros apreciados.

Sim, temos um grupo de pequeninos por aqui e estamos muito satisfeitos com a história que estamos construindo juntos. Seguiremos dando notícias!

A força da escolha no projeto formativo da Vila

Por Sônia Barreira 

Os últimos posts do nosso blog trataram de quatro atividades que foram realizadas durante o período de férias escolares. Isso é bastante emblemático da dinâmica do nosso trabalho: há sempre uma novidade em andamento!

Acampamento NRPrimeiramente tivemos notícias sobre um grande grupo de alunos no Acampamento de Férias do NR, com a monitoria da equipe de esportes. Aquelas atividades que pareciam apenas recreação foram muito além disso! Durante as brincadeiras, propostas com organização vertical, as crianças puderam conhecer melhor colegas de outras turmas, mais velhos, mais novos, e até de outra unidade! Ampliar a capacidade de fazer amigos, de lidar com conflitos, de superar momentos difíceis são conquistas fundamentais que não se realizam nas salas de aula apenas. O acampamento de férias diverte, alegra, mas também ensina, em ambiente seguro e protegido, com a mediação de adultos preparados.

SerTãoDepois conhecemos, através do relato dos professores e de fotos dos alunos, as aventuras que um grupo do Ensino Médio viveu no sertão do país após o curso “Ser Tão Grande”, ministrado ao longo do semestre passado pelos professores Nilson, de Literatura, e André, de Geografia. Cenários de livros, novelas, contos, mas sem nenhuma estrutura turística, sem os apelos das baladas e da tecnologia, a região encantou nossos jovens alunos, amantes da literatura. A construção do olhar sensível para o desconhecido foi possível na interação entre a ficção e a realidade.

Centro de FormaçãoNão foram somente alunos que utilizaram parte de suas férias para ampliar seus conhecimentos, como relatou Fernanda Flores, diretora do Fundamental 1 e da Educação Infantil. Um conjunto expressivo de profissionais de diversas escolas, daqui e de longe, dedicaram-se à ampliação de seus repertórios profissionais para melhor agir em sala de aula e para melhor compreender os processos de ensino e aprendizagem. Os nossos professores, no papel de formadores nesses cursos, falaram sobre o trabalho, organizaram apresentações, justificaram conceitualmente e ofereceram materiais de referência, tornando esse período – também para eles, num rico processo de aprendizagem.

WallaceaFinalmente, o último post nos revelou os bastidores da nossa mais nova aventura, uma aventura científica, investigativa, de contato com a natureza, mas também com o conhecimento que organiza, explica e modela o saber humano na área. Um grupo pequeno de alunos, mas altamente motivado, inaugurou nossa parceria com a operação Wallace e mergulhou numa verdadeira jornada científica interessante e inusitada.

Todas essas iniciativas têm em comum o uso das férias para atividades de formação complementar, o que reforça a nossa convicção de que o Projeto Formativo não se esgota na sala de aula, tampouco nos dias letivos.

Acreditamos que oferecer essas e outras vivências permite que nossos alunos façam o exercício da escolha e da adesão espontânea, fator determinante para a motivação e o compromisso com as situações desafiadoras.

Continuaremos buscando sempre espaço para a ESCOLHA, fora ou dentro das propostas curriculares, certos de que esse exercício pavimenta o caminho para autonomia intelectual, desejo, meta e valor educativo que a Vila assume como compromisso.

Aventuras no México – Expedição Wallacea 2016

-

Por  Celina M. M. Moraes

A Operation Wallacea é uma organização britânica que, desde 1995, realiza programas de pesquisa e conservação da biodiversidade em vários lugares do mundo. Esses programas envolvem pesquisadores de várias instituições científicas e estudantes de ensino médio, graduação e pós-graduação, que atuam como voluntários na coleta de dados, apoiando o desenvolvimento das pesquisas. Os levantamentos desses dados permitem conhecer a biodiversidade e a função ecológica dos ecossistemas estudados, monitorar mudanças na biodiversidade e/ou na situação socioeconômica das populações humanas envolvidas, e ainda estabelecer e monitorar a eficiência de planos de manejo nos locais estudados. As pesquisas realizadas resultam em muitas publicações em revistas científicas, dissertações e teses, assim como em relatórios fornecidos aos órgãos que efetivamente realizam o manejo das áreas de conservação abarcadas nos diferentes programas.

Em nossa primeira viagem com essa organização, o destino escolhido foi o México, e incluiu uma semanana Reserva de Calakmul, no extremo sul, quase fronteira com a Guatemala, e uma segunda semana no litoral, na cidade de Akumal, uma área marinha protegida por conta de seus incríveis recifes de corais e da presença de tartarugas.

Em Calakmul, passamos uma semana acampados junto à base de pesquisa, no meio da reserva. Todos os dias, íamos para campo (isso quer dizer que fazíamos trilhas no meio da floresta), acompanhados dos pesquisadores, e pudemos participar de muitos levantamentos diferentes: sobre borboletas, morcegos, aves, répteis e anfíbios. Apesar de avistarmos macacos, quatis e cotias eventualmente, os dados sobre mamíferos foram levantados de forma indireta a partir de rastros, fezes e armadilhas de câmeras. Também tivemos emocionantes atividades noturnas, como os levantamentos com morcegos (nosso grupo detém o recorde de captura de 85 morcegos em uma só noite!).

Do carregamento dos equipamentos ao registro nas planilhas em campo, quase tudo era feito pelos alunos. A captura dos animais era tarefa dos pesquisadores, com exceção das borboletas, que todos puderam ajudar a retirar das armadilhas depois de vencido nosso medo de esmagá-las acidentalmente! Não ficávamos com nenhum animal, apenas coletávamos os dados e depois os soltávamos. Todos os participantes ajudavam na identificação, pesagem, medição e marcação, de acordo com as informações solicitadas em cada pesquisa, e as informações eram sempre supervisionadas e eventualmente corrigidas pelos pesquisadores experientes, pois os dados são reais e requerem rigor em sua coleta. Também tínhamos palestras diárias sobre ecologia e conservação.

Em um dos dias, visitamos as ruínas maias de Calakmul, impressionantes! Tivemos a sorte de encontrar um bando de bugios, que ficou muito próximo e praticamente posando para nossas câmeras!

Na praia, em Akumal, a experiência foi diferente. Ficamos hospedados num albergue, junto com muitos outros estudantes e pesquisadores que participavam do programa. Depois de uma semana num acampamento no meio da selva, com racionamento de água, um quarto lotado de beliches, com banheiros coletivos e sorvete ali do lado era praticamente um hotel de luxo!

Nossas “trilhas” passaram a ser submarinas, fosse com snorkel ou mergulhando com cilindro, e mais aprendemos com as pesquisadoras do que efetivamente ajudamos com muitos dados. O ambiente marinho é muito cheio de novidades para nós, seres terrestres, e confesso que era difícil ficar contando quantos corais de determinada espécie havia porque, quando passava uma tartaruga, não tinha como não parar tudo e ficar pasma, olhando aquela beleza nadar tranquilamente ao seu lado! E como anotar algo numa prancheta embaixo d’água enquanto controla seu equilíbrio e tenta se manter na horizontal? Muitos desafios de uma só vez!

Aprendemos a reconhecer algumas espécies marinhas, fizemos um transecto e um quadrante embaixo d’água, reconhecemos grau de branqueamento de corais e observamos o comportamento de peixes herbívoros. No último dia, todos os participantes contribuíram fazendo pequenas palestras, em inglês, na praia, sobre ameaças e conservação de ambientes marinhos, como um evento da OpWall para conscientização dos turistas frequentadores.

Tivemos a companhia de duas escolas britânicas ao longo da viagem e, por isso, além da biologia, nossos alunos estavam também imersos no inglês o tempo todo, se bem que aproveitaram para ensinar um pouquinho de português para as novas amizades!

A viagem mostrou-se extremamente proveitosa em muitos âmbitos, dos conhecimentos teóricos e práticos de biologia à vivência de uma situação de intercâmbio, aprender a cuidar de sua saúde e de suas coisas, ficar uma semana sem celular nem acesso à internet, entender que nem todo mundo vai de biquíni à praia, viver uma situação extrema de falta de água, enfim, as aprendizagens foram muitas e intensas. Alguns comentários preciosos traduzem essas experiências:

“Hoje eu me senti um cientista de verdade, ali, lado a lado, fazendo a mesma coisa que um cientista faz.”

“Não sei mais se vou comer camarão depois do que aprendi aqui.”

“Puxa, nossa diversidade dá de mil, eles precisam conhecer a Mata Atlântica.”

“Nunca fiquei uma semana sem celular, descobri que não preciso tanto dele assim.”

Me orgulho de contar que nossos alunos deixaram ótimas impressões, tanto em nossos colegas britânicos quanto junto ao staff da Operation Wallacea, que, pela primeira vez, recebia alunos da América Latina. Acho que estreamos muito bem! Em agosto, já faremos a divulgação do novo destino para 2017. Preparem suas mochilas e máscaras de mergulho, pois novas aventuras nos aguardam!

Ser Tão

Grupo que participou da viagem

-

Por André Junqueira de Aquino e Nilson Joaquim da Silva

“O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena”
João Guimarães Rosa 

Um curso para compreender o sertão. E, no entanto, saímos sem uma definição. Um curso para decifrar Guimarães Rosa. E saímos com a impressão (ou certeza?) de que ele é indecifrável. Começamos buscando algo de que não chegamos nem perto, e a sensação é de que fomos bem sucedidos. A busca, talvez, fosse a grande intenção deste Projeto SerTão Grande. Busca: vislumbre e crença na possibilidade de uma terceira margem, eco oco da cantilena de Sorôco, de sua mãe, de sua filha, nos convidando a, com eles, viajar, a ir até onde a canção nos levar, com o sertão fazendo eco, todo, em nós.


Conhecendo Cordisburgo

A própria palavra “sertão” remete à busca. Uma palavra incompleta. Ser tão o quê? Ser tão grande? Ser tão belo? Ser tão quieto? Ser tão profundo? Ser tão sozinho? Ser tão sertão.

“O sertão está em toda a parte”, escreveu Guimarães Rosa, pela voz de Riobaldo. Esteve em uma sala de aula – que se transformou em roda de conversa, de trocas, de busca, de ao redor de fogueira da qual, porém, a chama que mais alumiava brotava de nós, em nós – durante o 1º semestre. Lá nos debruçamos sobre a obra de Guimarães Rosa e de outros autores e exploradores – viajantes, peregrinos – que também empreenderam essa busca pelo sertão e seus significados, sentidos, lógicas, temporalidades, e que nos serviram de guias e mestres.


Subida ao Morro da Garça

Do sertão criado na sala, resolvemos empreender a travessia rumo ao sertão rosiano. Partimos, então, em viagem ao sertão da infância e da obra de Guimarães Rosa, com dois dias em Cordisburgo, terra natal do autor e cenário de tantas de suas estórias, e dois mais em Morro da Garça, cidade em que se encontra o ‘morro protagonista’ do conto “O Recado do Morro”, lido também ao longo do curso, e na qual fica clara a fronteira entre dois mundos em contato e confronto: o ‘moderno’ e o ‘arcaico’, o ‘progresso’ e a ‘tradição’, o ‘erudito’ e o ‘oral’, o ‘sertão’ e a ‘cidade’.


Momentos com o grupo Caminhos do Sertão

Na volta, a sensação não é de que deixamos o sertão. “O sertão é dentro da gente”, também disse Riobaldo, fazendo eco em nós a consciência rosiana de que “o sertão está em toda parte”. Trouxemos um pouquinho de sertão conosco, e teremos mais alguns encontros para buscar outros sertões, além do rosiano: o de Euclides, o de Graciliano, o de Glauber, o de Belchior, o de Elomar, o de cada um de nós…

E que estes sertões sigam ecoando daquela pequena sala sertaneja até onde o eco puder se fazer projetar, reverberar, ecoar… e além.

A cidade acaba com o sertão. Acaba?”

O que de especial tem este Centro?

-

Por Fernanda Flores

“Uma cabeça bem feita vale mais do que uma cabeça bem cheia.” Montaigne

Na última semana de julho, o Centro de Formação da Escola da Vila recebeu, em sua programação de inverno, 320 profissionais da educação. Além da participação de parte significativa da equipe interna, foram muitos professores e professoras de cidades vizinhas e de outros estados que a eles se uniram para refletir e ampliar conhecimentos, alinhavando teoria e prática na construção permanente de uma escola que realmente mobilize e engaje os alunos e alunas a aprender mais, melhor e para a vida toda.

Sempre nos perguntamos como manter viva a energia que nos leva a deixarmos nossas férias e a nos dedicarmos a estudar e a compartilhar práticas, dúvidas e anseios. E, mais que isso, quais são os diferenciais daquilo que promovemos e que, há exatos 36 anos, segue atraindo e motivando um sem número de educadores a estarem conosco?

Consideramos, inicialmente, que somos uma instituição que entende o papel insubstituível do professor numa tríade entre o educador, o estudante e o conhecimento, na qual as perguntas, as propostas, os problemas, os desequilíbrios provocados e a crença nas capacidades individuais de aprender e avançar faz toda a diferença. E isso se lapida, se amplia e se compartilha.

Outro ponto sensível é que nossos professores formadores trabalham para criar espaços de formação, entendendo que devemos desenvolver contextos que promovam uma ideia defendida por Antonio Nóvoa[1], de que “cada educador assuma seu papel de formador inclusive de si próprio e dos colegas”.

Nem sempre as inovações no campo da educação se apoiam em práticas sustentadas em anos de vida escolar e produção autoral de conhecimento pedagógico, mas, no nosso caso, parece-nos que é essa construção de nossa equipe o que temos de melhor a oferecer aos profissionais que nos procuram.

Buscamos desenvolver, nos contextos de formação, aquilo que almejamos mais profundamente com nossos alunos e alunas, ou seja: provocar análises e trocas que fomentem as capacidades de estudar, de procurar, de pesquisar, de selecionar, de comunicar, de resolver problemas, pois consideramos inegociável que isso também componha as práticas de formação continuada para professores, seja qual o nível etário em que atuem.

Como defende Francisco Imbernón[2], a empatia, o trabalho em grupo e a comunicação com os professores são bidirecionais e extremamente importantes para que sejam compreendidas as situações a partir do ponto de vista dos professores que atuam em cena com seus alunos e alunas reais.

Entendemos ser esse o diferencial de quem busca oportunidades formativas em nosso Centro de Formação: profissionais que identificam nossos valores e crenças na formação do professor que reconhece a importância da prática sustentada em conhecimento didático, em estudo e, portanto, busca cursos e oficinas ministradas por quem pratica as ações sugeridas em seu dia a dia, por quem realmente entende a multiplicidade de desafios que nos envolvem no cotidiano escolar.

Assim, seguimos orgulhosos das ações que promovemos e certos de que, mesmo sendo mais árduo, este é o caminho que faz e sempre fará a diferença para quem acredita na formação continuada, autônoma e compartilhada.


[1] António Nóvoa é reitor da Universidade de Lisboa. Para saber mais sobre o que ele pensa acerca de escola e educação, segue entrevista para Carta Educação.

[2] Imbernón, Francisco. Formação Continuada de Professores. Artmed. Porto Alegre, 2010.

O que realmente fica por trás de um acampamento de férias

-

Por Tarcila Proto

No final do mês de julho, a equipe do Setor de Esportes da Escola da Vila levou em torno de 90 crianças para o acampamento esportivo de férias. Lá, por trás de muita brincadeira e diversão, são construídas diferentes situações de aprendizagem que só uma atividade como essa pode promover.

Uma das coisas que sempre nos motivou a continuar oferecendo essa atividade é que ela colabora, e muito, com as famílias, em um período em que nem sempre as férias dos pais coincidem com as das crianças. Dar a certeza aos pais de que seus filhos estarão em um local agradável, seguro, e acompanhados por professores que trabalham na Vila, os quais darão continuidade a todo o processo educacional que ocorre dentro da escola, em um ambiente externo e descontraído, também é uma de nossas preocupações.

Outro ponto importante é o de assegurar nesse espaço, tanto quanto no dia a dia da escola, a possibilidade dos alunos manterem o estímulo ao movimento, garantindo o que a Organização Mundial da Saúde defende: sempre que possível, estimular as práticas corporais, com orientação e inclusão de todos.

No acampamento, as crianças entram em uma rotina interessante, pois, no período da manhã, realizam clínicas esportivas, como basquetebol, futsal, futebol de campo, handebol, voleibol, escalada e esportes radicais. No período da tarde, são oferecidas atividades pelas quais as crianças podem optar por participar: andar a cavalo, caiaque, tirolesa (com total segurança e acompanhados por adultos). Nesse momento, elas guiam seus cavalos, remam em seus caiaques e se soltam na queda da tirolesa, superando as barreiras do medo, da ansiedade e de seus limites. No fim da tarde, as crianças participam de jogos, brincadeiras e gincanas e, à noite, se divertem em festas temáticas, bailes à fantasia e shows de talentos, com muita diversão e descontração.

Além de oferecer todas essas atividades, temos como objetivo um de nossos maiores desafios, que é observar: como a criança pode resolver uma “situação problema” longe dos pais? Durante toda a semana, elas têm que cuidar de sua mala, escolher o que vestir, arrumar sua cama, pendurar sua toalha, decidir o que querem comer, buscar o sono mesmo quando ele não vem, conviver com crianças de várias idades, dividir o quarto com o colega da escola, conhecer seus hábitos além da sala de aula, aprender a conviver em um grupo grande e dividir momentos engraçados… Todas essas coisas acontecem o tempo todo, fazendo parte da convivência de quem participa de um acampamento, vivências importantíssimas para a formação de nossos alunos.

Ou seja, por trás de tanta diversão e brincadeira, acontecem diferentes construções, tanto de aprendizagem física, como de postura e comportamental.

Aproveitamos para agradecer o excelente trabalho desenvolvido pelos professores, a grande participação dos alunos e a confiança depositada pelos pais em nossa equipe e em nosso trabalho.

Uso de material digital na escola

-

Por Helena Mendonça e Vania Marincek

Temos vivido uma situação, cada vez maior, de uso de materiais digitais na Escola da Vila. Dispositivos móveis cada vez mais acessíveis a grande parte dos jovens e crianças; melhoria gradativa e lenta da velocidade de acesso à internet; possibilidade de uso de ferramentas que antes estavam na mão de profissionais, são apenas alguns dos motivos desse movimento. Muitas escolas ficam entre a compra de conteúdo digital de grandes editoras, o uso tanto daqueles que são gratuitos quanto o desenvolvimento de outros dentro da instituição. São enormes os desafios em qualquer uma dessas empreitadas: repensar o material didático para o meio digital, avaliar o impacto de uso de tais materiais na escola, desde sua infraestrutura até a formação dos professores, ter pessoal capacitado para selecionar materiais, avaliá-los e organizá-los, acompanhar seu uso pelo aluno etc.

No fim de 2015, a escola decidiu iniciar o movimento de criação de cadernos pedagógicos digitais para as séries iniciais do ensino fundamental 2, bem como iniciar essa implantação com as turmas de 6º e 7º ano da nova unidade, na Granja Viana.

4

Para elaborar esse novo material digital, usamos, por referência, os cadernos pedagógicos já existentes para o trabalho em sala de aula, cuidando para adaptá-los, e, muitas vezes, transformá-los para o novo suporte. Assim, desde o primeiro dia de aula deste ano, os alunos das duas turmas estão usando os cadernos digitais, bem como alguns ambientes virtuais de aprendizagem, para o trabalho educacional.

Ainda é muito cedo para avaliarmos todo impacto causado por essa mudança, mas tentaremos, aqui, listar alguns aspectos observados.

Infraestrutura é fundamental

5

Essa constatação é absolutamente sabida por todos que se propõem a trabalhar com tecnologia na escola. O maior uso de dispositivos pessoais, materiais digitais, ambientes virtuais na escola, tudo isso exige boa infraestrutura. Para tanto, são fundamentais um bom planejamento e o investimento gradativo em frentes como suporte técnico, acesso à internet e compra de equipamentos. Se o caminho da escola é por um modelo BYOD (Bring Your Own Device) ou cada aluno traz o seu equipamento, o investimento na rede wi-fi é fundamental. Esse foi o caminho escolhido por nós e, além de implantarmos uma boa infraestrutura na Escola, preocupamo-nos também em planejarmos propostas a serem utilizadas com os alunos no caso de algum imprevisto, como a ausência de rede ou de luz.

Segurança digital, outro tema importante da infraestrutura

Quando a escola opta por um modelo no qual os alunos trazem os seus próprios aparelhos para a instituição, é necessário um amplo planejamento para garantir que haja segurança no acesso à internet. A escola deve ter mecanismos que garantam o bloqueio de sites inadequados e também de sites ou serviços que possam sobrecarregar a rede (não se pode prejudicar o trabalho educacional). São decisões importantes a serem tomadas: as redes sociais serão bloqueadas? Os alunos conseguem acessar conteúdos importantes para o trabalho? Os jogos serão bloqueados? É importante levar em consideração que existe uma gama enorme de jogos online e muitos deles podem ser usados com fins educacionais.

6

Outro aspecto relacionado a isso, mas com caráter mais educacional, é o trabalho a ser desenvolvido com os alunos para que não se dispersem, às voltas com todas as possibilidades que o acesso à internet traz. As crianças e os adolescentes de hoje são usuários muito competentes de tecnologia, mas ainda sabem pouco sobre esse uso para além do lazer; assim, é natural que o primeiro movimento dos alunos seja o de buscar os jogos e os sites de divertimento, já conhecidos por eles também no momento de aula. Por isso, desde o início do ano, temos encaminhado, junto aos alunos, em muitas aulas, e, mais especificamente, nas aulas de Orientação Educacional, a discussão e o debate sobre as possibilidades de uso que a tecnologia promove, e as adequações para uma postura que contribua para a formação de cada um desses alunos como estudantes. As assembleias têm sido um espaço bastante profícuo para a discussão e a construção dessa cultura.

Toda equipe pedagógica deve conhecer o material e os ambientes usados

Os procedimentos de estudo dos alunos só podem ser acompanhados e avaliados se toda equipe pedagógica conhecer o funcionamento técnico dos materiais e ambientes virtuais usados. Um aluno com problemas de organização, por exemplo, pode atribuir sua dificuldade a alguma questão técnica; se a equipe estiver pronta para ajudá-lo, pode-se voltar o foco para a falta de organização, que possivelmente aconteceria com ou sem o uso de tecnologias. Nesse sentido, foi muito importante que toda a equipe estivesse familiarizada com o material digital desde o início do ano, pois isso possibilitou o planejamento de intervenções no sentido de ajudar os alunos a entenderem todos os procedimentos necessários para o uso diário, já na primeira semana de aula.

A dinâmica de trabalho com o digital altera o trabalho educacional

7

Isso não é novidade, mas é algo que exige tempo e reflexão por parte da equipe pedagógica. Tomar a decisão, por exemplo, de que não haverá mais caderno de papel para que o aluno faça anotações, requer pensar em como o aluno e o professor poderão acessar esse caderno, como serão feitas as anotações – texto, imagem, desenho, se/como esse caderno poderá ser acessado se não houver internet etc, e definir procedimentos padrões para todas as disciplinas. É importante aqui retomar o porquê do uso do caderno e a importância das anotações pessoais, antecipando aspectos dessa situação, agora em meio digital, que podem impactar os estudos. Com relação a isso, na escola já contávamos com um trabalho bastante específico e detalhado de orientação de estudos que visa contribuir para que cada aluno desenvolva procedimentos importantes para seu desempenho escolar, o que temos notado é que a organização do material na forma digital pode contribuir para esse trabalho, pois ajuda a organizar as propostas de forma mais orgânica e completa, já que é possível inserir links, desenhos, tabelas etc, com muito mais facilidade.

O acompanhamento do uso do material é fundamental

Se o uso de tecnologias na escola tem o objetivo de aprimorar os processos de ensino e aprendizagem, melhorar a forma como o aluno e o professor aprendem e ensinam, ampliar a diversidade e a qualidade de materiais consultados, dentre outros vários objetivos, o acompanhamento é fundamental para que as estratégias aplicadas pelos professores e os procedimentos empregados pelos alunos estejam alinhados com essas frentes; por isso, estamos acompanhando, passo a passo, essa implantação com observações em sala de aula e espaços sistemáticos de discussão sobre os principais sucessos e problemas para que os ajustes ocorram em consonância com o trabalho.

Os alunos se apropriam rapidamente das tecnologias

8

Não estamos falando nada de novo, já que os alunos nasceram com toda essa tecnologia disponível, não é verdade? Em termos. Os alunos normalmente fazem uso das tecnologias para entretenimento. A apropriação de ferramentas e ambientes para o trabalho educacional acontece na escola. É certo que o funcionamento dos recursos normalmente não apresenta muitas dificuldades, mas os procedimentos de estudo, a organização, continuam sendo desafios para os alunos, principalmente levando em consideração a faixa etária com a qual estamos trabalhando: 6º e 7º ano do ensino fundamental 2. Esses procedimentos já seriam desafios naturalmente, visto que muitos alunos de início do F2 necessitam de um apoio específico para se organizar com tantas demandas distintas das do F1. Sabendo disso, desde o início, fizemos um trabalho de acompanhamento da apropriação dos procedimentos pelos alunos que passou por um percurso de orientação para: o uso dos materiais em sala de aula, o acompanhamento individual dos alunos que precisaram de mais ajuda pela orientação, e a parceria com as famílias.

Os pais precisam conhecer o trabalho

Os pais, em sua maioria, não cresceram com as tecnologias digitais e, menos ainda, usaram esse tipo de material na escola. Se um dos elementos mais importantes da aprendizagem é o estudo em casa (parte fundamental do trabalho do estudante) e se considerarmos importante o apoio das famílias, principalmente em determinadas faixas etárias, os pais devem compreender minimamente como o material funciona, como os ambientes são acessados, onde estão as lições de casa, como seu filho acessa a agenda e organiza seus estudos. Para garantir que os pais pudessem também apoiar seus filhos em casa, procuramos orientar esses responsáveis individualmente e também em reunião de pais, apresentando o trabalho, solicitando que entrassem no caderno pedagógico digital e nos ambientes virtuais usados, ensinando-os também a acessar os recursos utilizados por seus filhos, como a agenda, as lições de casa e o caderno digital de anotações.

Estamos ainda no início desse processo de implantação, mas a rápida apropriação dos procedimentos de estudo pelos alunos, assim como a boa equação da gestão do tempo em sala de aula e da utilização dos instrumentos de apoio ao trabalho, fazem-nos acreditar que estamos trilhando um bom caminho.

A Hora do Recreio: ensaios para a autonomia no Fundamental II

27_6_2016

-

Por Natalia Barros Contarelli 

Para ilustrar: “Os meninos acham que são os donos da quadra”

É visível para aqueles que acompanham de perto o cotidiano escolar como, por mais que os grupos se renovem, há algumas questões que se repetem, ano após ano. Esse ano, por exemplo, os 6ºs anos da unidade Butantã vivenciaram (e seguem vivenciando) a difícil tarefa de organizar o uso das quadras na hora do recreio. De saída, vale colocar que, assim como nas experiências das turmas anteriores, essa não foi uma demanda definida pelo grupo por mero acaso, mas praticamente se impôs a eles diante dos conflitos que surgiram.

Algumas meninas desejavam usar a quadra durante o parque, mas não se sentiam bem-vindas pelo grupo de meninos que a utilizava, invariavelmente, para jogar futebol. Queixas individuais chegavam à orientação educacional, que sempre tentava, conversando, fortalecer essas meninas para que conseguissem expor seus incômodos e negociar com seus pares. Sem sucesso. Os meninos ofereciam outro ponto de vista, em que se diziam abertos a ‘recebê-las’ nos jogos (ainda que o futebol fosse inegociável), mas que, nas ocasiões em que elas toparam, ficaram paradas, sem participar.

Era visível para a orientação educacional que esse incômodo era compartilhado por muito mais alunos do que os que se manifestavam (não só meninas), além de que essa questão ia além da simples organização burocrática do uso da quadra: uma oportunidade e tanto para refletir sobre o uso do espaço coletivo, os papéis assumidos por cada aluno nas relações dentro da escola, etc.

Desafio posto, iniciou-se o período de discussões sobre o tema, aproveitando o espaço das aulas de orientação educacional e das assembleias para que incômodos, relatos e propostas pudessem, alguns pela primeira vez, ser compartilhados. Um processo cansativo para alguns, aliviante para outros, com surpresas para todos. Criado um clima de respeito e diálogo, alguns meninos (daqueles que jogavam futebol todo recreio) criaram coragem para contar para os seus colegas que também gostariam de jogar outros jogos. Alguns alunos falaram abertamente sobre o medo dos outros zombarem deles por não jogarem tão bem, outros se viram diante da necessidade de colocar suas vontades em segundo plano, em prol do coletivo.

As propostas foram muitas, as discordâncias também. Ideias foram votadas, considerações feitas. Eis que os alunos chegaram a uma solução: um calendário de jogos e um pacto de que iriam ser mais atentos e cuidadosos com os colegas durante as partidas. Dois meses se passaram e, após algumas ponderações, concluíram que o calendário não estava dando certo. Novas ideias, novas considerações. E é aqui que estamos.

A hora do recreio: considerações

A hora do recreio é um momento cheio de peculiaridades, já que é nela que se expressam conexões e conflitos que não necessariamente têm espaço durante os momentos de estudo: as descobertas de interesses em comum, os desentendimentos entre amigos, a exploração dos diversos espaços da escola, as brigas no futebol, a troca entre alunos de idades diferentes, os comentários desagradáveis sobre um colega da turma, entre muitos outros; nela também se explicitam os diferentes agrupamentos dos alunos e, com eles, surgem tanto sentimentos de pertencimento quanto de solidão. São justamente essas características que tornam a hora do recreio um momento tão rico no processo de formação dos alunos e um campo fértil para a atuação da orientação educacional.

Assim como todas as propostas vivenciadas pelos alunos no cotidiano escolar, ainda que seja um período sem atividades direcionadas, a hora do recreio também é pensada considerando o projeto da escola e os valores que permeiam todo o nosso trabalho. De cara, é possível afirmar com convicção que esses 30 minutos de tempo livre entre as aulas apresentam, em alguma medida, desafios a todos os alunos da comunidade escolar – desafios, esses, que variam de acordo com a faixa etária dos alunos, com particularidades das turmas e, por que não, sob influência das transformações constantes em como se estabelecem as relações em nossa sociedade.

A questão da escolha, por exemplo, é algo que se evidencia de forma singular na hora do recreio. Isso porque há, durante as aulas, uma série de momentos em que os alunos se veem diante da nem sempre opcional necessidade de escolher: escolher qual será o foco dado à revisão de um texto, como registrarão as aulas, qual será a disciplina à qual dedicarão mais tempo nos estudos para as provas; na hora do recreio, entretanto, as escolhas assumem um caráter específico na medida em que não há, para além das regras básicas de convivência da escola, uma determinação prévia e externa do que deve ser feito por cada um. É, portanto, um momento em que os desejos podem se expressar de forma mais livre e, junto a eles, os medos e as inquietações.

Surgem, então, pensamentos como: “Porque ele quer ficar conversando com essas pessoas ao invés de passar o parque comigo?”; “Só porque ele é mais velho, eu tenho que sair da mesa de pebolim para ele jogar?”; “Se eu passar o parque conversando com uma menina, os meus amigos vão achar que eu gosto dela?”; “Será que se eu contar para um adulto o que eu vi meu colega fazendo, todo mundo vai ficar bravo comigo?”; e assim segue… Diante dessas circunstâncias, deixar que os alunos ajam autonomamente, interferir diretamente ou indiretamente, são escolhas complexas e que demandam reflexão constante da equipe de orientação educacional.

Talvez, daqui a dois meses, os alunos dos 6ºs anos cheguem novamente à conclusão de que precisam remodelar a organização das quadras. O que é claro para nós e, na medida do possível, vai se revelando para os próprios alunos, é que o ganho real de toda essa história está no processo, que nos permite atuar junto a eles à luz dos valores que acreditamos serem essenciais em sua formação: o conhecimento, a cooperação e a autonomia, e que lhes permite encontrar palavras e ensaiar formas de se colocar diante do grupo ao mesmo tempo em que constroem algo juntos.

Tempo de colheita

Festa Junina Escola da Vila

-

Por Vicente Domingues Régis

[...] Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na plantação
Eu te asseguro, não chores não viu,
Que eu voltarei, viu, meu coração [...].

Muitas são as histórias sobre as origens da Festa Junina. Dentre as várias referências, destacam-se relatos sobre festas realizadas para celebrar a colheita na Antiguidade, no norte da África e na Europa, no período do solstício de verão, próximo ao dia 21 de junho para o calendário atual. Nessas festas, a fertilidade da terra era celebrada com música, dança e comida, e grandes fogueiras eram acesas para espantar maus espíritos e reunir as pessoas. Com o avanço da religião cristã na Europa, as festas passaram a celebrar São João Batista, protetor da colheita, assim como Santo Antônio e São Pedro. No norte da Europa, em países como Suécia, Finlândia e Dinamarca, grandes festas acontecem nesse período, desde os tempos dos vikings, com grandes fogueiras que marcam o início do verão. Na Suécia dá-se o nome de Midsommar ao feriado mais esperado pelo país, que celebra a fertilidade da natureza em uma festa familiar, que para muitos tem mais importância do que o Natal, no qual dançar em volta de um mastro é um momento bastante marcante.

Trazidas pelos europeus que passaram a habitar nosso país desde as navegações, as Festas Juninas foram incorporadas pelos povos que aqui se fixaram, resultando, portanto, num grande encontro de culturas e costumes de diversas partes do mundo. Aos poucos, as festas foram adquirindo forma, até ganharem forte elemento de identidade regional. Das gaitas e paus-de-fita do sul, ao carimbó e às saias de chita do norte, passando pelas quermesses do sudeste, pela viola caipira do centro-oeste, e pelas festas de São João do nordeste, as Festas Juninas guardam como semelhança a celebração da colheita, a música, a dança e a fogueira. Milho, pinhão, mandioca e diversos outros alimentos são servidos em volta do fogo, com muita música, dança e alegria, ajudando a criar um ritual que marca o ciclo da natureza e a passagem do tempo. Esse ritual registra, a meu ver, o paradoxo do advento do novo versus a manutenção de antigos costumes: quando dançamos na Festa Junina celebramos a capacidade humana de compreender e controlar parte dos processos da natureza, à medida que nos entregamos à inexorável transformação da nossa cultura e da nossa vida pela passagem do tempo.

Dentro desse panorama, é curioso ver como muitos elementos da nossa festa aqui na Vila remetem a esse paradoxo. Desde os bolos de milho e de mandioca aos sanduíches de pernil, hot-dogs e pastéis. Desde a sanfona, o pandeiro e a zabumba, até a sofisticada estrutura de som que montamos, passando pelos vestidos caipiras, camisas xadrezes, laços de fita, saias de chita, chapéus de palha e botas de cowboy. São muitos os elementos que nossa comunidade escolhe para se encontrar na escola e celebrar o crescimento das crianças e adolescentes que estão conosco. Uma das explicações para a emoção que sentimos ao assistir às crianças dançarem também remete a esse paradoxo: a dança nos mostra como somos capazes de nos organizar coletivamente e reverenciar antigos costumes, ao passo que acolhe a individualidade de cada um, na sua maneira particular de dançar e no seu processo de crescimento.

Mas, e a nossa fogueira, onde se encontraria na festa? Será que um elemento tão importante das Festas Juninas não poderia compor a nossa festa? Não temos o costume de fazer uma fogueira. São muitas crianças juntas, e lidar com o fogo nessa situação acaba gerando grande apreensão. Entretanto, é importante lembrar que o fogo é um dos símbolos atrelados ao conhecimento. Segundo uma interpretação do mito de Prometeu, por exemplo, o fogo roubado representa a audácia humana em busca do saber e sua vontade de compartilhá-lo. Acredito que, em nossa Festa da Colheita, aqui na escola, celebramos o ciclo de renascimento dos saberes e dos valores que cultivamos, em nossa eterna insistência em nos organizar coletivamente para saudar nossa ancestralidade e receber o desconhecido.

Veja as fotos da Festa Junina no Flickr da Vila:

Unidade Granja Viana

Unidade Morumbi, F1, álbum 1

Unidade Morumbi e Butantã, F1, álbum 2

Unidade Morumbi e Butantã, F2, Ensino Médio e ex-alunos, álbum 1

Unidade Morumbi e Butantã, F2, Ensino Médio e ex-alunos, álbum 2