Para dar um passo adiante precisamos perder o equilíbrio

Reggio

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Por Andréa Polo e Juliana Karina

O título deste blog representa a fala de uma criança de três anos idade, que vive e frequenta uma das escolas de infância de Reggio Emilia, cidade ao norte da Itália, onde circula fortemente a ideia da criança competente, participativa, cidadã e detentora de direitos.

A cidade é um encanto! São árvores por todos os lados, praças públicas com espaço garantido para brincadeiras e descanso, construções antiquíssimas e bicicletas que transitam como veículo principal de transporte das crianças a seus “nonnos e nonnas”, que carregam em suas garupas seus “bambinos”.

Reggio

Essa cidade cultiva uma escolha pedagógica em seus mínimos detalhes quando acolhe em seu contexto político decisões que serão tomadas sempre em benefício da educação. Orgulham-se de sua história e contam-nos que pais e mães construíram as paredes das escolas com restos de tijolos e ferros retorcidos de casas bombardeadas durante a II Guerra, e com esses materiais fizeram a forte estrutura que apoia a construção das creches e escolas. Vimos que a maior força de sustentação está no grupo envolvido nos processos de trabalho: a cidade como um todo está plenamente convencida de que depois do sofrimento e da destruição causados pela guerra, só mesmo um esforço coletivo para recompor e dar significado ao que foi duramente retirado de cada família. Essas escolhas, principalmente as do investimento e respeito aos diretos da criança, garantem aos pequenos de hoje uma forte atribuição de sentido para as suas experiências e aprendizagens!

Reggio  Reggio

O que vimos nas escolas de Reggio, e que encanta educadores de todo o mundo, foram pessoas a serviço da comunidade, com o intuito de proporcionar múltiplas experiências às crianças, desde os seus primeiros meses de vida, e a desenvolver significativamente seus múltiplos sentidos. Educadores interessados nas interações, nas emoções, na sensibilidade e, acima de tudo, engajados para que as crianças assumam o controle de suas aprendizagens. Protegem-nas como num processo de construção partilhado, dão o tom a uma rotina que nos deixou maravilhadas. O encantamento também se dá por conta da forma como o respeito dos educadores ao tempo e ao processo de investigação infantil é valorizado. A criança é contemplada em suas falas, observações e buscas, ao mesmo tempo em que suas produções, ações e conquistas são evidenciadas e valorizadas.

Reggio

Em Reggio, o significado do que é exposto vai muito além da visualização dos trabalhos pela comunidade escolar. Por meio de inúmeras e delicadas investigações demonstram o valor e o espaço que o processo experimentado pelas crianças ocupa nesse ambiente.

Foi possível observar, ali, variadas linguagens artísticas e poéticas que falam por si, advindas das diferentes faixas etárias. Sem nenhum tipo de explicação dos educadores, nos vimos imersas num espaço de extrema criação de contextos! Foram dias para procurar caminhos impossíveis, menos óbvios. Em Reggio, pudemos reafirmar nossas convicções de que escutar uma criança não significa apenas ouvi-la, mas reconhecer todas as suas linguagens, e acima de tudo, confiar que ela é capaz de se expressar criativamente.

Reggio

Saímos de lá refletindo sobre as possibilidades que temos para tornar visível a essência da vida na escola! A cada dia, poder dialogar com quem não estava presente no momento − mas faz parte desta comunidade −, e revelar a potencialidade das crianças que observamos diariamente,seja por meio de suas falas, suas produções, seus gestos e ações…

Perdemos nosso equilíbrio, mas nunca nos sentimos tão fortalecidas para continuar cultivando o olhar sensível, atento às conquistas, à apropriação de novos conhecimentos, às curiosidades, às preferências. Um desequilíbrio que nos ajudará a revelar a persistência, o sentimento, o esforço das crianças em suas atividades que, diariamente, realizam na nossa escola.

Viagem a Reggio Emilia: Cem Linguagens da Infância

Reggio

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Por Daniela Munerato

Estivemos em Reggio Emilia, na Itália, participando de um grupo de estudos e visitando escolas de Educação infantil, com uma abordagem única criada por um jovem professor após a Segunda Guerra, Loris Malaguzzi, na qual o potencial intelectual, emocional, social e moral de cada criança é cuidadosamente fomentado e orientado, totalmente imerso na cultura da cidade.

A experiência de encontrar crianças em diferentes países é maravilhosa. Nossa observação aguçada evidencia a variedade nas condutas culturais, mas existe uma ideia que prevalece: criança é sempre criança e pode se expressar por diferentes linguagens!

Durante a viagem identificamos essa diversidade nos atos e nas produções das crianças e o desejo dos educadores em deixar claro o objetivo de favorecê-las. Estar atento à criança integralmente no seu desenvolvimento, observando sua individualidade, bem como acompanhando seus processos nos trabalhos em pequenos grupos.

Fala-se muito na escuta da criança, como o respeito a uma fase única e desconstruindo a ideia de um ensino em que o professor ensina e o aluno aprende, mas totalmente fundamentado nas relações, nas interações e no que pertence ao mundo da criança, sem antecipar condutas das crianças mais velhas. Ouvir com tempo, sem pressa, observar, tentar compreender, planejar “provocações que a façam avançar”.

A expressão, o sentimento, o olhar e a compreensão do mundo podem ser expressos por palavras, por meio das conversas, das músicas, da interação e no próprio cotidiano. Mas no mundo infantil a palavra tem um tempo, um tempo para acontecer, para ser elaborada, para ser compreendida. Quantas vezes o corpo fala primeiro, na linguagem do gesto, do carinho, da dança, da brincadeira e da representação. Não é assim que muitas vezes desvendamos nossos pequeninos? E não é este um dos caminhos pelos quais experimentam o desconhecido? O corpo que se move, pesa, equilibra, transforma, tem sombra…

Outra linguagem bastante utilizada e apreciada é a arte, na forma de pintura, de desenho, escultura, construção, realizada individualmente, em parceria ou coletivamente. Por intermédio dela a expressão e o registro de vivências, marcas e exploração de cada um no processo de aprendizagem que mostra um todo. Vale considerar que o planejamento, a gestão e a atuação dos educadores é fundamental. Observamos que variáveis como a luz natural ou artificial, o espaço organizado e o material proposto são importantes para a expressão das linguagens diversas.

O que é habitual passa a ser motivo de investigação e torna-se especial; a natureza é muito valorizada e observada. Como exemplo, cito um campo de margaridas, explorado por crianças de três anos de idade, que sentem a delicadeza das pétalas, observam como as plantas nascem, sua textura, seu volume no espaço em que habitam, e onde podem encontrá-las. O que podem aprender sobre uma planta comum na sua cidade? Como cuidar dela? Como oferecê-la sem arrancá-la? Como ter outros olhos para algo muito visto, mas nunca realmente observado, vivido!

Encontramos em Reggio muito em comum com o nosso trabalho, e muito também para acrescentarmos em nossa proposta. Seguiremos refletindo sempre sobre o nosso segmento para que a criança possa ser cada vez mais vista em sua totalidade, que a gente siga com o desafio de integrar socialmente escola e cidade e, quem sabe, começar pelo nosso bairro!

Experiências educacionais: High Tech High, Califórnia

Por Fermín Damirdjian

Em texto de minha autoria publicado neste blog, em março deste ano, fiz uma reflexão sobre o amplo contexto histórico e político no qual se insere a consolidação e a difusão da escola em seu formato convencional, tal como o conhecemos hoje. Sobre este formato, estou me referindo ao óbvio: a escola como um lugar com corredores que levam, como artérias, a seus órgãos principais, dentro dos quais se desenvolve seu bom funcionamento − as salas de aula, com os alunos todos voltados para uma mesma direção −, sendo o destino de seu olhar e ouvidos o professor que, auxiliado pela lousa, expõe verbalmente os conteúdos a serem aprendidos.

Mais do que qualquer descrição, há uma máxima que ilustra bem a situação: se um médico cirurgião de fins do século XIX adentrasse em uma sala de cirurgia atual não reconheceria o lugar; o mesmo não ocorreria com um professor: ele se sentiria em seu habitat sem maiores dificuldades. Não é uma imprudência afirmar que pouco ou nada mudou na escola desde o início da era contemporânea até os dias de hoje.

Dito isso, dando seguimento ao assunto, que está longe de se esgotar… Não faltam pensadores e experiências competentes ao redor do mundo que valham a pena ser consultadas e visitadas. Essa é uma das atividades promovidas anualmente pelo Centro de Formação da Escola da Vila. Dentre os diversos cursos e atividades de formação para educadores, há uma viagem anual para outros países da Europa, da América do Norte ou da América Latina a fim de conhecer algumas experiências que buscam um formato mais atual para a escola e a educação dos alunos deste século. Os quais diferem, e muito, daqueles garotos de cem anos atrás…

Em abril deste ano o Centro de Formação organizou uma viagem à Califórnia, onde se encontram algumas instituições expoentes de uma nova forma de conceber a escola. Visitamos escolas privadas e públicas, de diversos tamanhos e em diferentes âmbitos urbanos, em regiões centrais, em subúrbios, e em localidades mais distantes. Vou me concentrar na High Tech High Chula Vista, escola pública de modelo charter, localizada em San Diego, enquanto meus colegas estão abordando outras descrições neste mesmo blog.

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Há várias High Tech High na Califórnia. Todas elas gerenciadas segundo o modelo charter, o qual consiste em uma composição entre administração pública e privada. Grosso modo, trata-se de verba pública voltada a gastos estruturais básicos, os quais podem ir desde a construção do prédio até salários dos docentes, passando por custos elementares como energia e materiais essenciais. Por outro lado, há injeções inconstantes de fundos privados e oriundos de fundações destinados a projetos específicos. Isso pode variar, desde algumas centenas de dólares que saem dos bolsos das famílias para um breve trabalho de campo, até um programa de investimento tecnológico com duração de dez anos proveniente da Fundação Bill Gates. Em suma, os nutrientes essenciais são garantidos por fundos públicos, enquanto professores e diretores perseguem fundos específicos, garantindo constantes inovações didáticas.

Citarei um exemplo que permitirá melhor visualização do que foi descrito. The Tiny Home Project foi uma atividade realizada pelos alunos do ninth grade (14 anos) ao longo do ano letivo. A partir da constatação de uma carência urbana pontual, os alunos desenvolveram, com um escritório de arquitetura, projetos de casas de baixo custo a serem habitadas por artistas de San Diego. Em início de carreira, os futuros ocupantes carecem de um lugar para viver e produzir. Por outro lado, identifica-se um determinado bairro da cidade que tenha espaços favoráveis à sua ocupação, pelo êxodo de seus habitantes e abandono de algumas áreas. Os estudantes tomam parte nesse trabalho mediante o mapeamento dos hábitos e necessidades de seus futuros moradores por meio de entrevistas, para logo elaborarem o projeto gráfico, as maquetes e, por fim, a construção efetiva dessas casas. Isso envolve âmbitos de saber que vão das ciências sociais à geometria, passando por cartografia e questões urbanas. O andamento desse trabalho pode ser acompanhando no site Tiny Homes Project.

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Isso foi explicado pelos alunos que nos receberam. Sendo uma referência internacional de um novo modelo educacional, a High Tech High Chula Vista recebe milhares de visitantes todos os anos. A circulação pela escola é realizada com os alunos, que assumem o papel de ambassadors, e o visitante pode observar em detalhes o cotidiano da vida escolar por intermédio deles. Esses alunos têm referenciais importantes de como ouvir e falar com os visitantes, inclusive estrangeiros, mostrando-lhes a escola e seus projetos. Os alunos mais antigos vão treinando os mais novos ao longo do tempo, mantendo uma característica peculiar de apropriação da escola no corpo discente, independentemente de quais alunos compõem o grupo.

Há outros projetos que indicam um forte grau de apropriação do espaço escolar, aliado ao desenvolvimento de várias habilidades. Parte dos brinquedos do playground da ala infantil da escola, por exemplo, foi elaborada pelos alunos mais velhos. Isso envolveu observação de demandas dos alunos pequenos, bem como seus hábitos e carências no espaço físico da escola; invenção dos brinquedos para o parquinho, com respectiva pesquisa de materiais disponíveis no mercado, levantamento de custos e arrecadação de valores, segurança no uso, estética, resistência e manutenção dos materiais foram o trajeto desse trabalho.

A ocorrência de uma tragédia abriu caminho para um outro projeto bastante complexo. O padrasto de um aluno assassinou a este e a sua mãe, e em seguida se suicidou. Para além dos rituais possíveis para elaboração de tamanho impacto na comunidade, alguns professores desenvolveram com seus alunos uma ampla pesquisa sobre a violência na sociedade norte-americana. Além do valor intrínseco a uma pesquisa de cunho social e antropológico em torno de tema tão complexo, produziu-se um documentário e um memorial nos jardins da escola. Um mural com a descrição desse projeto pode ser visto em “How can we reduce the violence on US?”

Nessa instituição, com fortes características de aplicação prática do saber, não faltam salas de aulas e lousa. No entanto, é importante destacar que a disposição das mesas e cadeiras não é uniforme, nem voltada para um mesmo lado, mas em geral dispostas para a formação de grupos. Não faltam, também, mesas nos corredores da escola e nos jardins. Não é mero detalhe o fato de que todas as carteiras têm rodinhas, e muitas das mesas são dobráveis, de modo a abrirem grandes espaços livres em sala sem grande esforço. A disposição física é, de fato, adaptável aos propósitos de cada turma, de cada disciplina, de cada projeto. O objetivo didático é o que prevalece sobre o formato das atividades, e da escola como um todo.

O ingresso dos alunos à instituição é feito por sorteio simples, para uma área da cidade que abrange bairro e distritos muito distantes entre si. São contempladas comunidades muito diferentes, tanto no plano socioeconômico quanto cultural. Os professores têm salários mais baixos que os das escolas públicas convencionais, mas sentem-se mais livres para criar e percebem uma vivência mais autêntica por parte dos alunos no que diz respeito a seu processo de aprendizagem. Foi o que me disse uma professora enquanto fazia um piquenique com os alunos, atividade semanal que lhe permite um contato extraclasse para tratar de assuntos pessoais ou coletivos com o grupo que está a seu cargo. Bem longe da lousa.

Bem-vindos ao Jurassic Park!

Por Fernanda de Lima Passamai Perez e Erica P. C. Santos 

Lançado em 1993, o filme Parque dos dinossauros (Jurassic Park) conquistou plateias de todo o mundo e arrematou três estatuetas do Oscar. Afinal, tornar possível o retorno dos gigantes jurássicos, mesmo que na ficção, seduz o imaginário coletivo.

18_5_2016Apesar da adaptação para a telona, nós, do Vilalê, leitores ávidos por aventuras e desafios, quisemos mais! Tanto é que, mesmo com o fato de alguns membros do grupo já terem assistido ao filme ou ‘conhecerem’ a história, a ficção científica de Michael Crichton foi eleita .

E será que ‘conhecer’ o final estragaria o prazer da leitura? Resolvemos apostar que não, já que saber como a narrativa chegou àquele desfecho parece ser o mais divertido. O enredo, bem estruturado e amarrado, apresenta informações sobre os universos da tecnologia, do entretenimento e das ciências que não aparentavam nenhuma relação entre si até então, propondo questionamentos mais objetivos sobre os avanços científicos conquistados nas décadas anteriores a 1990, como a clonagem e suas consequências. O posicionamento ético dos personagens e das instituições também ganhou maior destaque no texto impresso.

Vale ainda contar sobre a chegada de novos integrantes ao Vilalê, ou melhor, deixar que a Sofia (recém-chegada), a Helena (veterana) e a Dalgi, mãe do João Pedro do 6º ano, contem um pouco sobre essa experiência .

Enfim, a aventura vai muito além de um passeio de estreia em um novo parque temático e de dinossauros, por isso, estamos devorando-a parte por parte.

Uma viagem, um jardim

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Por Priscila Maria Sbizera

Segunda-feira, 25 de abril, desembarco em Guarulhos com a cabeça a mil. Não, pelo menos não desta vez, belas paisagens de viagem ocupavam meus pensamentos enquanto caminhava pelo aeroporto e navegava de volta na cidade do caos. Desta vez o que não parava de latejar, como uma dor pulsante que incomoda, era a experiência de imersão nas escolas americanas ao longo de sete dias. A busca pelo novo e incessante conhecimento sendo atendida. As palavras, não só as dos educadores que nos atenderam, mas também as dos alunos em suas apresentações, ecoavam em minha memória.

Se fosse para descrever tudo o que me tocou nessa viagem, esse relato talvez demorasse a ter fim, pois quase como uma história que puxa a outra, haveria sempre muito mais para contar. Por essa razão, escolhi aqui relatar exatamente o que mais permeava as minhas reflexões durante o longo caminho de volta e que, confesso, até agora, quase vinte dias após as visitas, ainda me mobiliza.

Dentre outras escolas, visitamos duas unidades da escola High Tech, uma em Chula Vista e outra em Point Loma, dois lugares muito distintos de San Diego. A proposta pedagógica dessa escola tem como um dos princípios o trabalho por meio de projetos, organizados e encabeçados pelos professores, nos quais o protagonismo dos alunos é assumido como grande essência.

Ao entrarmos em ambas as unidades, após sermos brevemente recebidos pelos profissionais responsáveis, fomos apresentados a grupos de alunos que nos tutoraram. Na primeira unidade, um grupo de alunos do Ensino Médio foi responsável por nos apresentar a escola e nos explicar as diversas facetas do trabalho desenvolvido, bem como nos informar sobre a estrutura da unidade. Já na segunda, quem se ocupou dessa tarefa foi um grupo do Ensino Fundamental II. Soubemos, por exemplo, como as turmas são divididas, os projetos são elaborados, as questões disciplinares são tratadas, os professores são selecionados, e como funciona o sistema de avaliação. A prática de apresentar a escola para visitantes (de quaisquer cantos do mundo!), está tão incorporada pelos alunos, que os mesmos tratam sobre temáticas diversas da escola com muita propriedade, naturalidade e de maneira bastante didática, que quase nos esquecemos de que são, ainda, jovens alunos. Achei lindo de se ver! E eu, que sou professora de Ensino Fundamental I, fiquei ainda mais encantada quando, em um momento de observação livre pela escola, Fernanda e eu entramos em uma classe de 3º ano que estava vazia e fomos surpreendidas, em determinado momento, pela tutoria de três pequenos alunos.

Estávamos observando os registros afixados nas paredes da sala acerca do projeto que estava acontecendo na turma. Vimos muitas anotações, gráficos, histórias e outras produções sobre bichos de jardim. Enquanto íamos costurando o que víamos para entender o que se desenvolvia, professora e alunos entraram na sala. Ela nos cumprimentou e, vendo que estávamos interessadas em compreender o projeto, perguntou quem dos alunos gostaria de apresentá-lo. Praticamente todos os alunos se candidataram e, sem muitos critérios, a professora designou a tarefa para três crianças. Mas eles eram tão pequenos… Enquanto a professora e os colegas seguiram para o parque, com uma desenvoltura ímpar, os três se apresentaram, perguntaram os nossos nomes e nos conduziram até a área externa da escola, de encontro a um lindo jardim. Nele, cada pedacinho era destinado a uma espécie de animal. Havia plantas e objetos específicos para cada bichinho. Vimos até um parquinho de diversões construído com sucatas especialmente para as minhocas! Naquela doce mistura de conhecimento e imaginação, ficaram nítidas as intenções didáticas da professora e, sobretudo, que o planejamento do trabalho e as decisões envolvidas foram sendo tomadas pelas crianças. Elas sabiam explicar muito bem o motivo das coisas, como controlar toda aquela engenharia e o que haviam aprendido fazendo tudo. Mostravam-se donas da situação, falavam com muito orgulho e autonomia, tanto dos problemas como das virtudes que viam no projeto. E eram tão pequenas… E eram tão autoras de tudo aquilo…

Pois bem! É nessa educação que acredito. Talvez seja por isso, especificamente, nessa situação que tanto me mobilizou. Enquanto eu via e ouvia aquelas crianças, mesmo de longe, era como se eu visse e ouvisse os meus alunos. Aos poucos, consegui pensar em quantas coisas os meus alunos (desse e de outros anos) decidiram e assumiram, e em quantas outras eles ainda terão de se decidir e assumir pela escolaridade afora: Para quem vou escrever o meu texto? Onde encontro informações sobre os povos pré-colombianos? Como construo o meu planetário? Como desenvolvo uma campanha pelo consumo consciente da água? Quem pode me ajudar a entender melhor essa estratégia de divisão?

Tomada pelo ofício diário e por todo o embasamento teórico indiscutivelmente necessário, talvez eu tenha (re!)encontrado nessa experiência (tão singela e ao mesmo tempo tão grandiosa!) a beleza daquilo que vivo diariamente e tenha me certificado de que do nosso jeito singular de ser escola, de ser a Escola da Vila, queremos e lutamos para que os nossos alunos sejam os principais atores da aprendizagem, criem e vivam intensamente cada um de seus diferentes, particulares jardins.

Impactos da viagem pedagógica 2016

Por  Sandra Baumel Durazzo 

Visitar escolas em outros contextos é sempre uma experiência transformadora. Como já relatado pela Fernanda Flores, na recente viagem à Califórnia, o grupo teve o privilégio de conhecer projetos educacionais fantásticos. Entre muitos aspectos que os fazem ser merecedores desse adjetivo, destaco três que me chamaram a atenção: o protagonismo dos alunos em seu próprio percurso de aprendizagem, o valor da exposição dos produtos dos projetos e a formação dos professores.

A primeira escola visitada, Brightworks, em San Francisco, nasceu da observação de um engenheiro de software, sem filhos, de que as crianças de hoje são muito “protegidas”. Por protegidas ele entende “sem a possibilidade de experimentar perigos, desafios manuais e intelectuais, porque são mantidas em espaços fechados, constantemente supervisionados por adultos, que não permitem que eles vivenciem situações de rua”. Inicialmente trabalhando com cursos de férias e propostas extracurriculares no formato de oficinas makers, ele decidiu ampliar essa proposta para uma escola. Juntou-se com uma educadora, diretora de escola pública, que estava insatisfeita com as propostas educacionais para seus três filhos, e instalaram uma escola dentro de um galpão que já havia sido uma fábrica de maionese e um estacionamento de táxis. Sem construir salas com paredes, fizeram casas de madeira, no estilo “casa da árvore”, e ali começaram, com 19 alunos, uma proposta que pretende promover experiências ricas para esses estudantes. Hoje, com 64 alunos e crescendo a cada ano, a escola organiza o currículo em grandes temas, que são os mesmos para todos os grupos, e geram diferentes questionamentos e projetos abarcando os conteúdos de todas as áreas. O período (aproximadamente um trimestre) começa com a apresentação do tema e de propostas investigativas colocadas pelos professores, o que leva a desdobramentos liderados pelas perguntas, pesquisas, dúvidas e novas propostas dos alunos. Ao final da primeira fase, são as crianças e os jovens que devem elaborar uma forma de expressar o aprendizado por meio de algum projeto. Esses projetos são submetidos à aprovação dos diretores da escola e, com isso, ganham enorme seriedade tanto do ponto de vista da confecção quanto do rigor acadêmico.

brighthouse

brighthouse

Percebe-se que o aluno toma para si a responsabilidade por aprender. Tanto no início, quando participa e tem voz nas investigações e estudos, quanto no momento de tomar consciência de seu aprendizado e ainda elaborar uma forma de transmiti-lo. Os projetos são depois expostos e muitos deles, como é comum em tantas escolas que visitamos, saem da escola e buscam interlocução na cidade, na comunidade ou no bairro.

O grande desafio para uma proposta como essa, a meu ver, é a formação da equipe de professores. Todos os adultos da escola se envolvem na tarefa de fomentar o aprendizado por meio de experimentação, e isso só pode acontecer se houver intensa atividade formativa nesse sentido. Em todas as escolas que visitamos, os professores são preparados usando estratégias similares àquelas que usarão com os alunos: instâncias de reflexão sobre a prática; discussões abertas buscando não uma verdade única, mas possibilidades de questionamento e aplicação de saberes das disciplinas; vivência na metodologia usada; e muitas revisões de decisões ao longo do caminho, tomadas sempre em equipe.

Outras escolas mostram o protagonismo do aluno de forma diferente. Na Summit, uma rede de escolas públicas, todo o currículo das disciplinas é trabalhado por meio de uma plataforma online. As aulas são virtuais e contam com tudo o que as nossas aulas tradicionais têm: exposições do professor; propostas de pesquisa e discussão a partir de um input dado, como um documentário, um filme, um texto, uma palestra; exercícios de prática e ampliação do conteúdo; etc. Só que cabe ao estudante organizar seu tempo e passar pelas várias “aulas” de cada disciplina. Ele tem que cumprir o programa, mas organiza seus estudos como achar mais adequado. Ao final de cada sequência, ocorre a avaliação, e a próxima etapa só fica disponível se o desempenho for adequado na anterior. Na organização do tempo escolar, há um horário definido para trabalhar na plataforma. Nós chegamos a uma unidade Summit exatamente nesse momento – Personalized Learning Time – e foi impressionante vê-los trabalhando. Em primeiro lugar, há um silêncio enorme na escola. Não se ouve um ruído a não ser vozes muito baixas trocando ideias, ou teclas sendo apertadas. Além disso, eles se comportam exatamente como jovens de qualquer lugar: sentam-se no chão, em duplas, sozinhos, nas mesas, enfim, onde acham que o espaço é adequado para seu estudo. Nesse momento, os professores atuam como orientadores, acompanhando também virtualmente o caminho do aluno e chamando-o para oferecer-lhe ajuda em qualquer coisa de que precise: na organização do tempo, na distribuição de tarefas pelas várias disciplinas, dando apoio em uma matéria ou conteúdo específico que o aluno demonstre não ter aprendido, analisando seus resultados nas avaliações.

Summit_personalized_learning_time

Além desse momento, os alunos participam de projetos que são liderados pelos professores, os quais abarcam os diversos conteúdos aprendidos nessa plataforma, mas são totalmente guiados pela investigação e pela ação dos alunos. Como nas outras escolas, a aprendizagem baseada em projetos está em prática e requer tanto a implicação dos alunos como a preparação dos professores para liderá-la. As paredes são tomadas por produções dos alunos, avisos de apresentações, frases que traduzem conclusões ou indagações sobre os projetos.

O que chama a atenção em todas as escolas que visitamos e na conversa com os alunos é o orgulho que eles têm de suas produções. A relação dos alunos com o produto exposto é real, e é o grande motivador da aprendizagem. Eles não fazem para tirar nota, mas porque o produto existe e será entregue a um destinatário

Visitamos também uma escola na região da Bay Area, a Lighthouse, escola que conta com um Creativity Lab. Lá nós passamos por um workshop que é usado na formação dos professores: Vivenciamos um momento de exploração, usando a ideia de aprendizado centrado em colocar a mão na massa, chamado de making-centered learning. Nós passamos pela mesma experiência que os alunos, percebendo que fazer realmente traz enormes possibilidades de aprender, e que esse aprendizado é totalmente apropriado pelo aprendiz que faz. A aprendizagem é dele, para satisfazer as necessidades e/ou as curiosidades dele! Parece óbvio, mas só vivendo a experiência para saber a dimensão dessa vontade de saber mais que é despertada ao literalmente desmontar um headphone!

Lighthouse_Making-centered-learning

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E todas essas escolas contam com resultados excelentes. Seus alunos entram nas faculdades para cursar o que eles chamam de 4-year-college, ou seja, para conseguir uma graduação relevante (major degree). Sua média de aprovação e retenção nas faculdades é muito acima da média do estado e do país (aproximando-se ou alcançando 100% de seus alunos), especialmente em meio à população atendida pelas escolas públicas, que são filhos de imigrantes, latinos em sua maioria, com pouca ou nenhuma história de estudo na família.

É assim que se vence a desigualdade. E só.

O evento “Um Pouquinho de Brasil” na unidade Granja Viana

Pouquinho de Brasil na Escola da Vila Granja Viana

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Por Luisa Furman 

Há muitos anos se faz roda na Escola da Vila, em todos os segmentos e em diversas situações. A roda possibilita a todos sentarem-se no mesmo nível e se olhar, ouvir e compartilhar algo importante. Nas rodas da Educação Infantil os pequenos aprendem a dividir com os colegas passagens importantes de suas vidas, tais como: um episódio do final de semana, uma descoberta, um novo aprendizado, uma conquista, um medo, uma tristeza.

Essa organização estrutural pode ser realizada em qualquer espaço da Escola, estando ligada a um conteúdo curricular ou procedimental. Os agrupamentos também podem variar de acordo com o objetivo da roda.

Existem, também, as rodas de capoeira, de histórias, de apreciação de cadernos de arte, para tomar lanche, para fazer assembleias, e várias outras, que muitas vezes ocorrem espontaneamente. A roda é um convite ao diálogo, à troca, à interação, valores fundamentais para o nosso projeto.

Também fazemos rodas para dançar e cantar, como aquela de encerramento do Um Pouquinho de Brasil − evento de arte organizado pelo Setor Cultural, no dia 30 de abril, na unidade Granja Viana − conduzida pelo grupo Mergulhatu, que apresentava diversos ritmos brasileiros como o Maracatu, velho conhecido da turma do complementar, estudado no primeiro trimestre, que propõe aos alunos, a suas famílias e aos professores a participação interativa, cantando e dançando com os músicos.

Essa grande roda finalizou o evento, que acontece todos os anos, e evidencia os processos de aprendizagem das aulas de arte, promovendo a integração entre as famílias e a escola. Os alunos têm a oportunidade de atuar como protagonistas, mostrando as produções realizadas ao longo do primeiro trimestre, expostas pelo espaço da escola e relatando os conteúdos e procedimentos aprendidos para a concretização de cada trabalho. Os professores, por sua vez, participam dessa integração ao preparar o ambiente para receber a comunidade, organizam e oferecem atividades, acompanham seus alunos e conversam com as famílias.

Ao final, uma das professoras presentes na atividade, admirada com a participação das famílias, resgatou um sentido importante da roda para uma comunidade que está se constituindo e tem fortalecido sua parceria com a escola − a roda como comunhão, como uma engrenagem que, girando em torno de seu eixo, realiza algo em comum entre suas peças, estabelecendo uma sintonia de sentimentos, do modo de pensar e de agir.

Veja as fotos do evento no Flickr da Vila.

Anotações de Viagem

Por Fernanda Flores

Esta semana iniciamos um período de publicações no blog da Vila para compartilhar nossas impressões sobre as experiências pedagógicas, que conhecemos na viagem à Califórnia, realizada há duas semanas.

Foram quatro pessoas representantes da Vila, e com nossas lentes pessoais procuraremos traçar um panorama daquilo que mais nos cativou e mobilizou durante os cinco dias de visitas, nos quais conhecemos cinco projetos pedagógicos arrojados, instigantes e consistentes.

Para começar, apresentamos um sobrevoo pelas escolas visitadas e selecionamos imagens que possam mostrar um pouco do DNA de cada instituição. Já nos próximos textos, destacaremos aspectos que especialmente nos fazem pensar em possíveis diálogos com o nosso projeto pedagógico.

Brightworks

Ficamos impressionados com o senso de grupo e a apropriação do espaço escolar pelos alunos, que organizam os espaços de aprendizagem na medida das necessidades dos projetos, contando com uma oficina de construção que é o coração da escola.

A ideia de escola democrática, na qual as crianças encontram espaço para seus projetos coletivos e individuais há de ser destacada. Como uma escola nova, surgiu de um forte compromisso com a inovação e a criatividade, marcas visíveis em cada detalhe, que pudemos constatar.

Summit Schools

Em parceria com Mark Zuckerberg (fundador do Facebook), as escolas Summit têm um dos mais arrojados projetos de diferenciação de ensino, por meio da PLP (Personalized Learning Plan), uma plataforma de ensino individualizado, que organiza a vida do estudante para que este possa ajustar suas demandas ao projeto coletivo de trabalho em curso, dando ênfase à diferenciação dos processos de aprendizagem quanto ao ritmo e à profundidade. Muitíssimo interessante, e temos de nos debruçar para entender seus usos e possibilidades!

Lighthouse

A ideia de aprendizagem em profundidade e de pôr a mão na massa é muito forte nessa instituição. Fomos recebidos por estudantes em seu último ano, contando de sua experiência, vindos de uma comunidade muito desacreditada social e economicamente, e têm clareza do impacto do projeto da escola em suas trajetórias. Destaca-se a clareza dos valores institucionais e, sobretudo, o diálogo com projetos de autoria tutorados pelos professores.

Evergreen

Essa escola de Educação Infantil se destaca pela qualidade das reflexões da equipe de professores e de sua diretora. Por meio da abordagem “acreditar e duvidar” como guia das conversas com as crianças, trabalham com projetos, onde arte, linguagem e ciência são centrais. O manejo do tempo cotidiano e os registros das crianças são marcas centrais inspiradoras para repensarmos pontos no trabalho com os pequenos.

High Tech High

Passamos três dias visitando, observando e trabalhando com a equipe dessa fantástica escola. Primeiramente, os princípios de trabalho tão evidentes em todos os corredores e nas falas entusiasmadas de professores, alunos e alunas. Grandes ou pequenos, não se cansam de mostrar seus projetos e contar o que estão aprendendo! Mas, além de tudo isso, um projeto consistente, rigoroso, com marcante autoria do professor e dos estudantes. O enfoque metodológico é visível nas várias mostras das produções intelectuais, compartilhadas como processos e produtos de muito investimento pelas turmas, organizadas de múltiplas formas para garantir o princípio da cooperação e da diversidade, centrais também em nosso projeto.

Nos próximos textos exploraremos mais detidamente variáveis comuns a esses projetos, pelo viés de análise que conversa com a experiência de cada um dos viajantes da Vila. Acompanhem!!!

Projeto Cicerone: a voz do aluno

Cicerone

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Por Sônia Barreira 

Nesses muitos anos viajando com o Centro de Formação da Escola da Vila nas famosas Viagens Pedagógicas, temos conhecido incontáveis experiências escolares, das mais variadas linhas: alternativas inovadoras, convencionais, tecnológicas, criativas, enfim, propostas com um DNA próprio e identidade forte, alicerçadas nos fundamentos de seus projetos pedagógicos. De modo que qualquer uma delas sempre nos fez pensar na nossa, de vários pontos de vista.

Deveríamos flexibilizar mais o espaço e a seriação? O uso das tecnologias está muito tímido? A interação entre maiores e menores está bem utilizada? A audiência real para os projetos dos alunos poderia ser mais garantida? As paredes estão devidamente “vestidas” com as produções dos alunos?

Mas algumas experiências simplesmente nos causam aquela perplexidade: por que não pensamos nisso antes? Uma delas é a ideia de colocar os próprios alunos a apresentarem a escola às novas famílias e futuros alunos. A primeira vez que isso nos chamou a atenção foi na Escola Sunion, de Barcelona. Aliás, quase tudo naquela instituição nos marcou positivamente. Lá, escola secundária, todo aluno é responsável por contribuir com algum “serviço” na escola (xerox, distribuição de correspondência, atendimento, etc, além da limpeza, da qual, todos devem participar) por algum tempo semanal. Foi nesse processo que tivemos alguns alunos nos ciceroneando, num tour pela escola. Através de seus olhares pudemos conhecer os valores daquele projeto tão inovador.

Mais tarde, na viagem ao Canadá, o mesmo aconteceu no Ontario Institute for Studies in Education, com alunos relativamente pequenos, que nos ajudaram a compreender como a metodologia de inquirement based funcionava nas diferentes salas de aula.

Na viagem para a Califórnia, recebidos pelos alunos da HTH, de Chula Vista e Point Loma, em San Diego, pudemos – em diferentes grupos, questionar mais a fundo os alunos sobre os diferenciais da escola, buscar contradições, entender os pormenores. Nessas escolas, os cicerones são denominados embaixadores, e surpreendem seus interlocutores pela clareza em destacar os valores das escolas, seus projetos para diversas faixas etárias, os resultados que eles próprios observam.

As vivências nessas situações distintas nos fizeram concluir que, além da experiência única para nós, de termos a escola desvendada pelos próprios alunos, a situação era também bastante significativa para aqueles que se esforçavam por comunicar aquilo que viam na escola como relevante para sua formação, as vantagens formativas dos projetos ou conteúdos estudados, o potencial para a aprendizagem de certos encaminhamentos.

Conhecer o projeto pedagógico no qual está inserido, acreditar nele, saber reconhecer seu valor e, acima de tudo, dar sentido às suas experiências escolares é extremamente importante para o aluno. Esses sentimentos ajudam no engajamento dos estudantes, na atitude positiva para os desafios e no ambiente favorável para o aprendizado.

Por essas razões, demos início, em 2016, mais precisamente no mês de abril, à constituição de um grupo de alunos, por adesão espontânea, que está passando por um processo de discussão e de preparação para poderem ciceronear visitantes que queiram conhecer o projeto pedagógico da Escola da Vila.

Acreditamos que essa iniciativa vai fortalecer os laços dos alunos com a escola, além de proporcionar uma experiência muito significativa aos visitantes: conhecerem a escola e suas propostas através dos próprios estudantes.

A partir deste mês de maio, aqueles que se inscreverem poderão ter o privilégio de serem guiados por esses jovens entusiastas da nossa Escola. Ganharemos todos, certamente.

E, conforme tenhamos alguns relatos dos alunos e alunas sobre essa experiência, compartilharemos com vocês por esse canal!

Nove não são dez

No passado, vivemos situações como a abordada nesse texto que aqui compartilhamos. Essa sempre é uma reflexão tocante e necessária.

4_5_2016

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Por Fabiana Ribeiro, no blog PARATODOS

Festa de 8 anos do seu filho. Você resolve chamar todos os meninos da turma para uma festa de pijama. Nove garotos da sala. Todos, não. Todos menos um. Ah, todos-menos-um é quase igual a todos. E você é quase legal.

Mas você não contava com uma coisa. Vazou. Vazou no whatsapp da turma que vai ter uma festa. Poxa, que coisa, você tinha pedido discrição aos pais. Você segue com seus planos até que chega o grande dia. Lá está você, na escola, pra pegar os nove garotos que vão animar a sua noite. Nove garotos que não vão dormir nadica, que vão dar um trabalho do cão, que vão pedir suco de uva, quando só tem tem de caju, que vão querer Nescau, colo, travesseiro, água e televisão na hora do deitar. Que vão sujar o seu carpete de brigadeiro e ainda vão colocar o pé no sofá. É essa turma que entra na van. Do lado direito da fila indiana, lá está aquele menino esquisito que não fala, inerte no seu mundo, fora do contexto. Por sorte, nem viu a turma sair cantando, se distraiu com alguma coisa. “Melhor assim”, você pensa. Mas, você, já dentro do carro, vê a mãe do garoto que ficou pra trás. Não entende porque ela abraça o filho e discretamente chora. Nove não são dez. 

Então, você se pergunta em meio ao caos da van. “Por que mesmo não convidei aquele menino?” E você, claro, se lembra. Porque não se comporta como deveria. Porque ele não fala. Porque ele tem mediador. Porque ele pode babar nos brinquedos do aniversariante. Porque pode roubar o brinde antes do parabéns. Porque ele representa um risco para as demais crianças. Porque ele não brinca com as crianças, não interage com as crianças. Porque ninguém gosta dele. Porque ele tem Down ou autismo ou alguma dessas coisas complicadas. Porque, porque, porque… Você mal sabe o porquê, porque nunca se interessou. Nove não são dez. 

E você, se tiver o mínimo de sensibilidade, se dá conta da besteira que fez. E se arrepende. De não ter ligado para os pais do menino e dividido com eles o seu problema: vou dar uma festa de pijama para o meu filho, como podemos fazer para o seu filho participar? De não ter conversado com a escola para saber a opinião da professora sobre o garoto. De não ter sequer tentado. De ter feito um papelão na frente do seu próprio filho – que convive com o menino todos os dias e sabe, melhor do que você, incluir alguém na brincadeira. De ter cometido uma baita gafe pública, logo você que é cheia de valores morais tão consistentes. Nove não são dez. 

Então, você se pega pensando que, se a moda da exclusão pegar na turma, seu filho pode ser o próximo. Logo ele tão cheio de cachos e de bochechas rosadas, mas com certa intolerância a cumprir regras e combinados. “Coisa dessa geração”, você pondera. Lembra de filmes em que mães imploram para que seus filhos sejam convidados para as festas e garante que faria o mesmo pelo seu rebento. E, com coração apertado, pensa: “Nove não são dez”.   

Você, que era só simpatia quando ia à escola, nos últimos tempos se esconde. Você está com vergonha de encontrar aquela mãe. Tem medo de ela te olhar nos olhos e, apenas com os olhos, te lembrar que nove não são dez.

Nove não são dez, você bem entendeu.